No passado dia 28 de abril, a Vida Norte, IPSS sedeada no Porto, assinalou 27 anos de trabalho de acompanhamento, de capacitação, de integração, de prevenção e de apoio na tomada de decisão de mulheres grávidas e suas famílias.
Ao longo destas quase três décadas, a Vida Norte já impactou mais de 14.000 pessoas, acompanhando, em média, 90 mães por mês, a que se juntam mais quase 40 beneficiárias de apoio material.
Sob o lema «Para que nenhuma grávida se sinta sozinha», a instituição apoia grávidas e bebés em situação de fragilidade, no Porto e em Braga, onde tem uma delegação. O acompanhamento que a Vida Norte presta é durante o período da gravidez e primeiros meses de vida do bebé. Já foi até aos 18 meses, mas atualmente é apenas até ao sexto mês de vida da criança.
“Apoiamos a mulher grávida física, psicológica e materialmente, para além de lhe fornecermos competências parentais”, sustenta Margarida Corte-Real, coordenadora geral da instituição, sublinhando: “Para que ninguém siga o caminho do aborto por falta de apoio. Queremos capacitar as pessoas para poderem decidir em liberdade”.
A Vida Norte funciona num edifício no Porto, cedido por comodato por uma família da cidade, pelo qual nada tem de pagar, e onde cerca de metade das mulheres apoiadas chega por ter tomado conhecimento através de outras pessoas apoiadas.
“O boca a boca ainda é a nossa maior fonte de referenciação das mulheres a apoiar, depois chegam-nos por indicação das mais diversas entidades sociais, privadas e estatais, como as CPCJ ou os Serviços Sociais dos hospitais do Porto”, revela Margarida Corte-Real, referindo a questão das mulheres e mães migrantes que, na Vida Norte, “são apoiadas mesmo ainda estando em situação administrativa irregular no país”.
“Como não temos acordo de cooperação com a Segurança Social, podemos trabalhar de forma diferente de outras instituições que têm acordos com o Estado”, explica, revelando ainda que “os pedidos de ajuda têm crescido nos últimos anos”, acrescentando: “Quando não temos resposta para a situação, encaminhamos as pessoas para outras entidades parceiras”.
No Porto, a instituição funciona com sete recursos humanos, quatro dos quais são psicólogas, e três em Braga, com duas psicólogas. Igualmente fundamental para o funcionamento da instituição é o corpo de voluntários: 20 regulares no Porto e 5 em Braga.
“As voluntárias fazem um trabalho extraordinário”, destaca Pedro Ferreira da Silva, vice-presidente da Vida Norte, nomeadamente a selecionar e catalogar os bens doados, como roupa, brinquedos e todo um conjunto de coisas necessárias aos bebés, que pessoas e empresas doam à IPSS.
Aliás, a ausência de acordo de cooperação com a Segurança Social, faz com que a Vida Norte viva de donativos, parcerias com entidades privadas e da boa-vontade de muita gente.
“Somos peritos a pedir”, ironiza Pedro Ferreira da Silva, com Patrícia Teles, responsável pela angariação de fundos, a lembrar que “a instituição faz campanhas em supermercados e farmácias, promove concertos e outros eventos de angariação de fundos”.
“A rede informal é fantástica e só desta forma conseguimos fazer este trabalho notável”, acrescenta Patrícia Teles.
À instituição chegam roupas, calçado, brinquedos, berços, banheiras, comida para bebé, produtos de higiene, como fraldas, toalhetes e cremes vários, entre outros, de empresas e particulares. A instituição recebe também donativos financeiros regulares e pontuais, de montantes muito diversos, desde pequenos contributos mensais até apoios anuais de grande expressão. “A nossa rede de mecenas é essencial e extraordinária”, afirma o «vice» da instituição, frisando: “Daí a nossa aposta num fundraising profissional”.
Com um orçamento para 2026 na ordem dos 350 mil euros, a Vida Norte tem também na Consignação do IRS, desde o ano passado 1%, outra importante fonte de financiamento.
“É muito importante para a instituição porque ainda rende um valor significativo. No ano passado foram cerca de 25% do orçamento da instituição. E nos últimos três anos, o número de pessoas que nos consigna o IRS quase duplicou”, revela Patrícia Teles.
Com donativos em espécie, financeiros e tempo, “que é muito importante”, a angariação de fundos na Vida Norte assume três formas essenciais, como explica Patrícia Teles: “Os projetos a que apresentamos candidatura; a organização de eventos, como a nossa Gala, que será dia 1 de junho próximo, os sunsets e concertos solidários, etc.; e os mecenas e grandes doadores”.
Atualmente, a Vida Norte está a desenvolver o projeto «Mum Patrol», apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian. Trata-se de uma intervenção em formato de visitas domiciliárias, pré e pós-parto, que presta apoio na área da saúde às grávidas e mães, através de uma equipa formada por uma psicóloga e uma enfermeira especialista em saúde materno-infantil.
“É um projeto desafiante”, afirma Margarida Corte-Real, que acrescenta: “Há mães que não têm acompanhamento médico pós-parto e nós queremos colmatar essa lacuna”.
No dia-a-dia, a instituição faz atendimento das mulheres na sua sede e faz acompanhamento domiciliário no contexto da família.
“São poucos os homens que participam, apesar de os tentarmos envolver. Dantes eram mais famílias monoparentais que aqui vinham, agora já não, o que não significa que as relações sejam funcionais”, realça Margarida Corte-Real, por isso, “o acompanhamento psicológico é essencial em contextos desestruturados, de violência doméstica, para que seja possível mostrar caminhos de saída”, acrescenta.
“Queremos estar ao lado da mulher grávida, dando-lhe o apoio e as competências para que escolha em liberdade o caminho que quer seguir”, reforça a coordenadora geral da instituição, ao que a psicóloga Ana Sampaio Bahia acrescenta sobre o que a Vida Norte faz: “Nós vemos nascer as mães, porque no ato do nascimento todos tratam dos bebés e nós tratamos das mães. Somos as mães das mães”.
Em vésperas do aniversário, o presidente da CNIS, padre Lino Maia, visitou a Vida Norte, deixando a garantia aos responsáveis pela IPSS do apoio institucional da Confederação na tentativa de se alcançar um acordo atípico com a Segurança Social.
Pedro Vasco Oliveira (texto e foto)
Não há inqueritos válidos.