HENRIQUE RODRIGUES

A semana mágica

1 – Todos os anos se repete a magia: a alma entra em modo de euforia em 25 de Abril e assim permanece durante uma semana, até ao dia 1 de Maio.

Para as pessoas da minha geração, trata-se de reviver em cada ano esse período luminoso que decorreu, há 52 anos, entre a queda da ditadura do Estado Novo e a consagração do novo regime político, que se tem considerado ter ocorrido pela adesão torrencial do povo português à liberdade restituída, simbolizada pela manifestação do Dia do Trabalhador, em 1 de Maio de 1974 – quando todos os sonhos eram possíveis.

Este ano, num reforço simbólico da data, no dia 25 de Abril perfaziam-se 50 anos sobre a promulgação da Constituição que nos rege e celebrava-se também, quer a longevidade, quer a estabilidade do texto constitucional.

Como vem sendo hábito, lá estive também este ano, de cravo ao peito, no cortejo do Porto, que saiu do Largo Soares dos Reis, junto da sede da ex-PIDE e que confluiu na multidão que enchia a Avenida dos Aliados, comemorando em conjunto os 52 anos da Revolução e os 50 anos da Constituição de 1976.

Dando razão ao Senhor Presidente da República, o tempo de festejar Abril já não é apanágio datado de velhos, dos que guardam ainda memória viva do que foi o regime deposto e do Movimento das Forças Armadas que o derrubou; antes é desígnio de todos os que amam a liberdade e que pretendem viver num país decente e justo, como afirmou no seu discurso na Assembleia da República, nas comemorações do 25 de Abril.

E, na verdade, convergindo com as palavras de António José Seguro, lá estive eu, no naipe dos mais velhos, dos que viveram os dias da Revolução, a percorrer as ruas do Centro do Porto sob as bandeiras da APRe! – Associação dos Aposentados, Pensionistas e Reformados -, e estiveram também os meus netos: a neta, de 7 anos, empunhando um cartaz por ela própria elaborado, com as palavras de ordem próprias da data; e o rapaz, de 3 anos, saudando o avô com um sonoro “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais”.

Na mesma onda de confirmação do apelo do Presidente da República no Parlamento, se há marca que caracterize o cortejo e a manifestação que se lhe seguiu foi a participação entusiástica de muitos milhares de jovens, que dominou o desfile – replicando a dimensão que ocorrera em 2025.

(A este propósito, não posso deixar de salientar, quer em 2025, quer em 2026, a participação da JSD no cortejo e na manifestação.)

2 -  Se há matéria em que a democracia não trouxe melhoria ela é a da coesão territorial, ou da falta dela.

O País está mais desigual e o interior foi abandonado pelos poderes públicos, o que levou a que fosse igualmente abandonado pelos habitantes e despojado dos raros serviços públicos que antes existiam.

Os incêndios são simultaneamente causa e efeito desse despovoamento e o apoio às populações na sequência das calamidades naturais padece da ineficiência de sempre.

Agora foi a vez dos jornais, cuja distribuição cessou nas comunidades afastadas do litoral.

Não é só o interior que tem razões de queixa; as cidades intermédias têm visto o investimento público ser sugado pela Área Metropolitana de Lisboa, reforçando a multissecular pulsão centralista que é a principal causa do nosso atraso – e que a democracia não resolveu, mantendo a inconstitucionalidade por omissão da criação de Regiões Administrativas.

A este propósito, e porque é do 25 de Abril que trata a crónica, associo-me à proposta de José Pacheco Pereira, no “Público” de 2 de Maio, de instalar no Porto, terra de liberdade e de resistência à ditadura, o Centro Interpretativo do 25 de Abril, nas instalações da antiga sede da PIDE no Porto, no Largo Soares dos Reis, donde têm partido, como já referi, as manifestações populares que comemoram a Revolução e onde  eram todos os anos homenageados pela Oposição Republicana os mártires do 31 de Janeiro, precursores da República, junto ao monumento alusivo existente no Cemitério do Prado do Repouso, sito no mesmo Largo.

Assim se resolveria a balbúrdia que se encontra instalada nos círculos da capital sobre a escolha, ou não-escolha, do local para o referido Centro, atribuindo ao Porto, local das maiores manifestações contra o antigo regime, o Museu do 25 de Abril e da Resistência.

3 – A semana de festa termina no 1º de Maio.

(Já aqui referi, nestas crónicas, há alguns anos, que 1 de Maio é também o dia de nascimento do meu filho mais velho – o que acentua o sentido festivo da data.)

Os festejos do 1º de Maio, quer os promovidos pela CGTP, quer pela UGT, centraram-se este ano na luta contra o projecto de reforma do Código do Trabalho proposto pelo Governo, juntando as duas centrais sindicais numa muito rara estratégia comum.

Houve quem, da parte do Governo, aventasse que o pendor liberal do projecto, abrindo à negociação directa entre o patrão e o trabalhador algumas disposições relativas à organização do tempo de trabalho, facilitaria o acordo de vontades, dispensando a contratação colectiva, negociada com os sindicatos.

Mas os sindicatos não são uma maçada, um constrangimento do processo negocial.

Nas sociedades democráticas cabe-lhes o papel de tornar menos desigual a relação entre empregador e trabalhador – relação que, sem esse estabilizador, penderia ainda mais para o lado patronal.

O que nos falta na organização social são entidades intermédias fortes, que esbatam as relações de poder e representem interesses colectivos dignos de protecção.

Mesmo nas sociedades abertas e politicamente liberais, é mister criar ou reforçar mecanismos de controlo que diminuam o poder de quem o tem, porque quem o tem tende a abusar dele.

Os sindicatos constituem uma espécie desses mecanismos.

As IPSS também.

 

Henrique Rodrigues, Presidente do Centro Social de Ermesinde

 

Data de introdução: 2026-05-06



















editorial

Autonomia das IPSS

Um provedor para zelar pela autonomia de todas as IPSS só seria admissível se fosse escolhido pelo conjunto de todas as IPSS, de todas as suas origens, de todas as afinidades e de todas as Entidades Representativas. 

Não há inqueritos válidos.

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