Algo de estranho vai por este nosso vasto mundo.
Estamos talvez perante a mais estúpida guerra dos tempos modernos. Passadas algumas semanas sobre o início das hostilidades e depois da destruição maciça de ativos civis e militares, depois de milhares de mortos, ainda não sabemos exatamente quais os objetivos que motivaram a agressão a um país soberano com o qual, aliás, estavam em curso negociações diplomáticas envolvendo os agressores.
As consequências económicas desta guerra serão gravíssimas mesmo que um qualquer acordo político ou a rendição do Irão termine com as hostilidades num prazo relativamente curto, digamos um par de semanas.
Os danos nas infraestruturas energéticas no golfo Pérsico nalguns casos podem levar anos a reparar e é tudo menos garantido que, mesmo um Irão humilhado e vencido militarmente, não se transforme num foco de ainda maior instabilidade política, económica e mesmo militar na região.
Os preços da energia vão manter-se elevados durante muito tempo, um surto inflacionista é inevitável embora as consequências desse surto na política monetária, isto é, o impacto nas taxas de juro seja, por agora, difícil de antecipar.
Os bancos centrais vão encontrar-se no mesmo dilema que enfrentaram à saída da pandemia quando deslocações e desencontros entre oferta e procura produziram o primeiro impulso inflacionista ainda em 2021, depois exacerbado pela invasão da Ucrânia pela Rússia no início de 2022.
Se o atual surto inflacionista for visto pelos banqueiros centrais como transitório a melhor atitude é não fazer nada. Na verdade subir as taxas de juro não faz baixar os preços do petróleo ou do gás natural. Subir as taxas de juro é eficaz quando a fonte da inflação é o sobreaquecimento da procura, contudo, pouco pode fazer quando a fonte inflacionária vem de choques do lado da oferta.
O problema está em saber quanto dura o “transitório” e quais os seus impactos na psicologia coletiva da inflação ou, para usar o jargão dos economistas, saber em que medida as expetativas inflacionistas são arrastadas pelo impulso inflacionário por mais “transitório” que ele possa parecer.
Algum desvio das expetativas será sempre inevitável, contudo, se for limitado na extensão e no tempo, a resposta dos bancos centrais pode ser moderada, digamos um ou dois aumentos de 25 pontos base nas taxas de juro de referência. Não obstante, seria imprudente excluir o cenário em que as expetativas ficam persistente e significativamente desancoradas dos objetivos o que pode obrigar a uma resposta robusta dos bancos centrais com aconteceu em 2022/2023.
Se for necessário subir as taxas de juro para trazer a psicologia coletiva da inflação para terreno saudável uma recessão económica é altamente provável. Pode ser o preço a pagar para não entrar numa espiral indesejável de estagflação, ou seja, num ambiente em que os preços sobem mesmo numa economia deprimida.
As recessões são normais em economias capitalistas – é difícil encontrar períodos de dez anos em que não ocorra pelo menos uma recessão. O atual choque energético também não é inédito – vivemos o choque do petróleo nos anos setenta do século passado o qual conduziu a uma espiral inflacionista que só foi possível vencer à custa de uma recessão brutal no início dos anos oitenta.
Contudo, embora a atual situação não tenha nada de inédito – o choque petrolífero dos anos setenta também foi consequência de uma guerra – a verdade é que a margem de manobra das políticas públicas para combater a crise é agora muito mais reduzida.
Na meada dos anos setenta a dívida pública dos países do G7 andava pelos 20% do PIB, hoje está próximo dos 100%. É verdade que na época do primeiro choque petrolífero a generalidade dos países já corria habitualmente déficits públicos, mas estes andavam pela casa dos 2% do produto o que comprara com valores de pelo menos o dobro na média dos valores dos membros do G7 hoje em dia.
O que pretendemos representar é que podemos ter caído uma situação em que, como diz o aforismo popular, é-se preso por ter cão e preso por não ter, ou seja, uma situação em que o estímulo da economia pode ser impossível ou indesejável. Do lado da política monetária qualquer estimulo será inadequado se a inflação trepar para valores que ponham em risco a ancoragem das expetativas, do lado das políticas fiscais o estímulo pode não ser possível dada a situação de partida da dívida e do déficit.
Portugal será das poucas economias de capitalismo avançado em que existe margem orçamental para acomodar algum estímulo à economia.
No entanto, seria estulto pensar que estamos numa situação favorável no contexto económico global.
Desde logo porque a política monetária é decidida em Frankfurt e vai ter em conta a realidade global da zona euro na qual pesamos uns insignificantes 2% - em matéria de taxas de juro, se houverem de subir, apanhamos como os outros. Por outro lado, o excedente orçamental de 2025 vai valer-nos de pouco se as coisas ficarem mesmo feias. Passar de excedente a déficit gordo é um instantinho se uma recessão se instalar na economia global e na zona euro. Por outro lado, a trajetória descendente da dívida pública portuguesa, por mais notável que seja, deixou-nos, à entrada desta crise, próximo dos 90% do produto, o que, obviamente, não obstante a excelência do percurso, é um indicador muito elevado para uma economia frágil e periférica. Lembrar, a propósito, que aquando da crise de 2008/2009, a dívida pública portuguesa era de 70% do PIB e todos nos lembramos de como a história acabou.
Obviamente não sabemos como isto vai acabar. À hora a que escrevo o pior, ou seja, uma escalada da guerra para níveis absurdos de destruição de infra estruturas civis, nomeadamente instalações energéticas do Irão e dos estados produtores do golfo Pérsico, parece ter sido evitado, pelo menos temporariamente.
Mas, mesmo que as hostilidades fiquem por aqui, os estragos são já de tal monta que uma putativa normalização do mercado será ilusória ainda durante muito tempo.
Resta aguardar que os eleitores americanos em novembro atribuam a devida punição a um presidente enlouquecido que arrastou a América e o mundo para uma guerra sem sentido mas com custos económicos que nos afetarão a todos.
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