OPINIÃO

Lendas e Narrativas

1 - Creio que era no 4º ano do liceu que líamos, no programa oficial da disciplina de Português, as “Lendas e Narrativas”, de Alexandre Herculano.

(Hoje em dia, afastado este Autor, com muitos outros, dos programas do ensino secundário, poucos saberão quem foi Alexandre Herculano, a não ser por factores estranhos à sua actividade política e literária: por terem dado o seu nome a um dos liceus do Porto, onde estudei do 1º ao 7º ano; e por levarem igualmente esse nome ruas e avenidas de várias localidades do País.

Poucos saberão o que Portugal lhe ficou a dever na recolha e preservação dos arquivos documentais dos conventos religiosos, na sequência das leis de desamortização dos chamados bens de mão morta, normalmente pertencentes à Igreja, bem como na instituição do casamento civil ou dos enterramentos nos cemitérios.

Ainda menos pessoas lerão, ao que conjecturo, as “Lendas e Narrativas”, que todos os estudantes eram obrigados a ler, pelos 13 anos, na década de 60 do século passado.)

Tenho ainda bem presente o prazer que tive nessa leitura e na aproximação que, através dela, comecei a fazer ao mundo medieval presente em narrativas como “O Bispo Negro”, “A Morte do Lidador” ou “O Castelo de Faria” – “Sabes tu, Gonçalo Nunes, de quem é esse castelo … que entreguei à tua guarda? É … de nosso rei e senhor D. Fernando de Portugal …”

Trata-se dos textos iniciais que, no nosso país, vão abrir o caminho para o romance histórico, centrado na Idade Média, tão cara aos escritores românticos do século XIX.

As narrativas constituem, com efeito, pequenos romances, ou contos, efabulando-se, a partir de referências históricas, mas deixando-se a rédea solta à imaginação criadora.

Tal como os romances, são ficções - em suma.

2 – “Narrativa” foi porventura a palavra que mais perdurou da entrevista que José Sócrates deu ao 1º canal da Televisão pública, na semana passada, procurando desvalorizar a “narrativa”, a seu ver dominante, que assaca ao seu Governo parte substancial das dificuldades que hoje vivemos, contrapondo-lhe a sua própria “narrativa”, oposta a essa, e que o absolverá de qualquer responsabilidade ou culpa, segundo ele próprio, aos olhos da história.

Não vou entrar agora no debate de fundo sobre saber se foi Sócrates quem pediu o resgate à “troyka”, entregando-nos à mercê dos credores.

(Embora os factos históricos – essa maçada … - nos confirmem que sim, que foi mesmo José Sócrates a assinar o Memorando de Entendimento.)

O que pretendo é chamar a atenção para o facto de José Sócrates deixar implícito, por inadvertência semântica, que o discurso político sobre a realidade, seja favorável, seja crítico, mais do que um enunciado de factos concretos - palpáveis, verdadeiros -, constitui uma narrativa: isto é, uma ficção, uma história, uma fábula…

O que o anterior Chefe do Governo nos veio dizer, em suma, é que o que conta para a avaliação dos méritos de um Governo não são os factos, o que na verdade sucedeu, o estado a que chegou o País, a realidade – mas o reconto dela, a sua narrativa, efabulada de acordo com a imaginação e a vontade do narrador.

Trata-se, aliás, da enunciação de um princípio que constitui o cerne das estratégias de contra-informação ou propaganda em qualquer latitude – e que nos afiança que uma mentira, se muitas vezes repetida, se transmuta em verdade.

Mesmo que o não seja no plano da realidade.

Ora, como vimos, em matéria de narrativa, cada qual tem o poder de a preencher como pretende: aprimorando-lhe aqui um gesto, apoucando-lhe ali um esquecimento, enfatizando-lhe acolá um sucesso, esquecendo-lhe um erro, sobressaindo-lhe uma bravata.

E, da mesma forma que uma narrativa literária nos prende à trama da história contada e nos faz participar dos sucessos e das emoções da ficção, também as narrativas de história política recente, conquanto efabuladas, prendem na sua teia muitos fiéis.

Mesmo se essa narrativa, por se reportar a tempos próximos de nós, é facilmente reconhecida como contraditória com aquela realidade concreta que pretende recontar.

3 – Essa entrevista tem constituído o tema recorrente dos comentários políticos ao longo da semana.

Mas foi previamente colocada num registo que me parece inadequado e abusivo, do ponto de vista dos princípios e dos valores do nosso sistema democrático.

Como se sabe, a contratação de José Sócrates pela Televisão do Estado mereceu, no espaço público, uma rejeição generalizada dos cidadãos, traduzida, entre outros aspectos, na rapidíssima subscrição de uma petição “on-line”, por mais de 150.000 pessoas, pretendendo impedir que os recursos afectos ao serviço público de televisão fossem assim oferecidos ao anterior Primeiro-Ministro.

Logo uma legião de fiéis rasgou as vestes com indignação, por assim se coarctar a liberdade de expressão do cidadão José Sócrates.

Ora – e para acompanhar José Sócrates no registo que ele próprio escolheu para as suas declarações nessa entrevista -, colocar esse sentimento popular de rejeição no plano das liberdades civis, nomeadamente no campo da defesa da liberdade de expressão, constitui um verdadeiro embuste.

Na verdade, do que simplesmente se trata é de oferecer a José Sócrates um palco regular no horário nobre da televisão pública, para tratar da sua vida e velar pelos seus interesses, para difundir a sua narrativa e romancear a seu gosto a realidade comezinha dos factos.

Em suma, do que se trata é de conferir a José Sócrates um privilégio de que poucos – raros – gozam: utilizar a televisão pública para fazer propaganda de si próprio, em prime-time; e sem pagar nada por isso.

(Também aqui não resisti a colocar-me no campo semântico de José Sócrates: é sem inocência que chamo “privilégio” a este favor feito ao anterior Primeiro-Ministro, sempre tão lesto a exautorar, enquanto governou, os alegados “privilégios” dos outros, como pretexto e acto preparatório dos ataques desferidos pelo seu Governo: professores, juízes, funcionários públicos …

Mesmo quando tais “privilégios” eram apenas o produto do trabalho honrado ou o direito a prestações sociais vencidas como direitos.)

Se eu, ou qualquer dos meus leitores, achar que “é tempo de tomar a palavra”, sem para essa escolha do momento apresentar qualquer outra razão que não a mera deliberação pessoal, e for à televisão do Estado pedir púlpito, mandam-me embora pelo mesmo caminho.

Ninguém viria a campo aberto proclamar que me estava a ser vedado o exercício do direito de exprimir livremente a minha opinião nem assegurar-me estar disposto a morrer em defesa desse meu direito.

Mas não é verdade que os bens públicos deverão estar à disposição dos cidadãos – de todos os cidadãos – em condições de igualdade, já que são bens pagos proporcionalmente por todos eles?

Em nome de quê devo pagar, com os meus impostos, privilégios conferidos de forma arbitrária por quem manda nesses bens – se o mesmo direito me é recusado a mim, que o pago da mesma forma, na factura da luz e nas indemnizações compensatórias?

Nas rendas excessivas, como diria a “troyka”.

Esconder sob o falso argumento da defesa da liberdade de expressão o que não passa da outorga de um privilégio – privilégio em sentido próprio, de ser algo que é conferido sem merecimento específico do beneficiário – é apenas mais um embuste.

Nem é verdadeiro o argumento invocado por José Sócrates, de, durante os dois últimos anos, ter estado em pousio, longe da Pátria e indefeso.

Com efeito, com ele bem se verificou, durante a sua vilegiatura parisiense, o chamado “efeito borboleta”: “O bater de asas de uma borboleta em Tóquio provoca uma tormenta em Nova Iorque”.

Troque-se Tóquio por Paris, substitua-se o bater de asas da borboleta pelo mais pequeno gesto de José Sócrates, sempre oportunamente registado pela imprensa e expedido para Lisboa e permute-se Nova Iorque pelo PS: quanta tormenta nestes dois anos, à conta do bater de asas no “Quartier Latin”!

Henrique Rodrigues – Presidente da Direcção do Centro Social de Ermesinde

 

Data de introdução: 2013-04-08



















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