EDITORIAL

Sinais para o Mundo

1. No dia 13 de Março o fumo branco e o toque dos sinos anunciavam que acabava de ser dado um novo Papa ao “mundo”. Logo a seguir ele se apresentava: vinha “quase do fim do mundo” para Roma e em comunhão com todo o “mundo”. Era Jorge Mário Bergoglio – passava a ser Francisco. Simples, curvando-se perante a multidão e pedindo que rezassem por ele.

Os olhos do mundo fixaram-se nele. Numa espécie de frenesim expectante. Tentando interpretar silêncios e sinais. Pendente das palavras e perscrutando os gestos de um velho vestido de branco e de aspecto bondoso.

Mas os holofotes do mundo mediático, em que vivemos imersos, odeiam o vazio, exigem narrativas claras, sínteses e antíteses. Vindo de tão longe e próximo do povo quanto o carismático João Paulo II? Capaz de traduzir em palavras simples a riqueza teológica com que Bento XVI fascinou o mundo intelectual? Continuidade ou ruptura?

E, de repente, até a retórica dos meios de comunicação social pareceu desarmada perante a simplicidade única.

Em poucos dias, o mundo pareceu render-se ao carisma desarmante da testemunha. Também pelo seu tom marcadamente humanista: “Guardemos Cristo na nossa vida, para guardar os outros, para guardar a criação!”. Sem medo de ser, simultaneamente, “homens de coragem” e de “bondade e de ternura”. Ternura que “não é a virtude dos fracos”, antes pelo contrário: denota fortaleza de ânimo e capacidade de solicitude, de compaixão, de verdadeira abertura ao outro, de amor.

Roma e o mundo estão carecidos deste suplemento de humanidade e de testemunho. De serviço.


2. O Papa parece ir ao encontro desse desassossego espiritual quando não se limita a falar para os mil e trezentos milhões de crentes católicos e sublinha que a “vocação de guardião” não diz respeito apenas aos cristãos, “mas tem uma dimensão antecedente, que é simplesmente humana e diz respeito a todos: é a de guardar a criação inteira, a beleza da criação. (…) É guardar as pessoas, cuidar carinhosamente de todas elas e cada uma, especialmente das crianças, dos idosos, daqueles que são mais frágeis e que muitas vezes estão na periferia do nosso coração. (…) É viver com sinceridade as amizades, que são um mútuo guardar-se na intimidade, no respeito e no bem”.

Este apelo veemente à coerência de vida e à total unidade de vida dos cristãos não está apenas presente nas palavras – parece estar patente na totalidade dos gestos que marcaram os primeiros dias do novo pontificado. A começar pela sua constante referência a uma Igreja desejavelmente pobre (simbolicamente traduzida na opção, também ela franciscana, por uma cruz e anel de prata e numa veste despojada) e com opção preferencial pelos mais pobres. Bem como pela sua repetida referência ao bispado de Roma e ao verdadeiro poder papal enquanto serviço.

Cristo deu um poder a Pedro, mas “de que poder se trata?”, perguntava o Papa na sua primeira homilia de apresentação à “cidade e ao mundo”. “Não esqueçamos jamais que o verdadeiro poder é o serviço, e que o próprio Papa, para exercer o poder, (…) deve olhar para o serviço humilde, concreto, rico de fé, de São José e, como ele, de abrir os braços para guardar todo o Povo de Deus e acolher, com afecto e ternura, a humanidade inteira, especialmente os mais pobres, os mais fracos, os mais pequeninos (…)”.

Conhecido na Argentina por não poupar os poderosos, o novo Papa lançou a todos um simples pedido: “Queria pedir, por favor, a quantos ocupam cargos de responsabilidade em âmbito económico, político ou social, a todos os homens e mulheres de boa vontade: sejamos «guardiões» da criação, do desígnio de Deus inscrito na natureza, guardiões do outro, do ambiente; não deixemos que sinais de destruição e morte acompanhem o caminho deste nosso mundo”.

“Guardar a criação, cada homem e cada mulher, com um olhar de ternura e amor”, é abrir o horizonte da esperança, é abrir um rasgo de luz no meio de tantas nuvens, é levar o calor da esperança!


3. Há Instituições de Solidariedade que emanam de crentes e há Instituições de Solidariedade de não crentes; há Instituições de Solidariedade que derivam duma comunidade que se organiza para responder às necessidades dos que lhe pertencem e há Instituições de Solidariedade de uma Igreja que se sente chamada a fazer do homem o seu caminho.

Umas e outras são constituídas para “guardar a criação, cada homem e cada mulher, com um olhar de ternura e amor” e para abrir um rasgo de luz e levar o calor da esperança”. Todas se sentem confortadas porque existem para “cuidar carinhosamente de todas as pessoas e cada uma, especialmente das crianças, dos idosos, daqueles que são mais frágeis e que muitas vezes estão na periferia do nosso coração”. Todas para cuidar de crentes e de não crentes: das pessoas.

O mundo carece da voz de Jorge Mário Bergoglio que veio “quase do fim do mundo”. Também do testemunho coerente de Francisco.

Tanto a voz como o testemunho encontram eco e espaço nas Instituições de Solidariedade.

Para que haja mais nuvens a rasgarem-se por entre raios de esperança…


Lino Maia

 

Data de introdução: 2013-04-08



















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