APPACDM DE VILA REAL-SABROSA

Os novos caminhos da diferença

Chamam-lhe Tia, uma abreviatura de Tibetana, o nome com que foi baptizada quando chegou à instituição. A burra de raça mirandesa, uma raça única em Portugal que está ameaçada de extinção, é a estrela do picadeiro, apesar do porte menos elegante que os cavalos. Na Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão com Deficiência Mental de Vila Real-Sabrosa (APPACDM), a asinoterapia tornou-se numa prática comum desde 2005, a par da hipoterapia desenvolvida com regularidade na instituição de solidariedade social desde 2004.

A terapia com burros de Miranda do Douro é recente e consiste no uso do burro como instrumento de interactividade entre o ser humano e o animal. O contacto com o pêlo, a temperatura do corpo e a actividade do próprio animal permitem aos técnicos de educação especial tentar corrigir problemas de postura ou comportamentais nas crianças e jovens com deficiência, ao mesmo tempo que ajuda o utente a aumentar a motivação, o bem-estar e a participação, em especial, nas actividades lúdico-pedagógicas. “Existem muitas terapias com animais, sobretudo com cavalos e golfinhos. Foi-nos oferecida esta burra e assim escolhemo-la para este trabalho por ser um animal afável e pachorrento, que pode trazer muitos benefícios sociais e educacionais”, explica Paula Nóbrega, técnica de educação especial e reabilitação ao serviço da instituição desde 2004. “O burro mirandês é uma raça ameaçada de extinção e é a única que está registada em Portugal.
Para além disso, o mirandês tem um temperamento dócil, muito pêlo, uma boa temperatura do corpo e é muito calmo nos movimentos. Tem os atributos ideais para esta população”, acrescenta.
A actividade no picadeiro é das mais populares entre a centena de utentes diários da APPACDM de Vila Real-Sabrosa. Criada em 1987, a instituição veio colmatar em grande parte das carências do distrito para a área da deficiência. “Nessa altura havia muitas carências de infra-estruturas para apoiar jovens e crianças com deficiência mental, não só no concelho, mas no distrito de Vila Real. A única estrutura que existia era o Instituto Piaget. Nós somos a segunda resposta que aparece no distrito”, explica o vice-presidente da instituição, Luís Correia. As actividades no picadeiro são um ex-líbris da vida diária da APPACDM, mas o equipamento precisa de obras. “O nosso picadeiro é descoberto e isso traz muitas implicações a nível da continuidade de um trabalho que se quer terapêutico. Assim que as condições climatéricas sejam agrestes, com a chuva, a neve, nós temos que restringir as idas ao picadeiro”, refere Paula Nóbrega. A instituição concorreu a um programa de beneficiação social promovido pela SIC e arrecadou uma verba para a cobertura do equipamento. “Estamos na fase de pedir orçamentos para essa cobertura e esperamos iniciar as obras o mais breve possível”, diz a técnica.

A associação é o segundo empregador do concelho de Sabrosa, tendo nos seus quadros cerca de 80 funcionários, prestando apoio directo e indirecto a cerca de 250 utentes, nas diversas valências: escola de ensino especial, centro de actividades ocupacionais, centro de formação profissional, lar de apoio e lar residencial. Para além disto, criou uma empresa de inserção, a Sabroserv, que opera nas áreas de lavandaria, limpezas domésticas e institucionais, serviços agrícolas sazonais e jardinagem, limpeza de matas, recolha e produção de lenha, limpeza de bermas e valetas e carpintaria. Emprega uma dezena de funcionários, mais de metade com deficiência mental e tem como grande objectivo promover a integração no mercado de trabalho, ao mesmo tempo que é combatida a exclusão social.

A instituição tem um âmbito de cobertura distrital, com utentes de todos os concelhos do distrito. Para Luís Correia, que está na instituição desde a sua fundação, Vila Real ainda precisa de equipamentos na área da deficiência. “Há uma grande melhoria nos últimos anos e já há alguns concelhos que começam a ter uma resposta satisfatória, como, por exemplo, Vila Real, Sabrosa, Régua, uma parte do concelho de Chaves, mas ainda existem várias necessidades para cobrir, nomeadamente a nível de CAO e de lares residenciais”. O dirigente acredita que com a abertura de candidaturas à medida 6.12, que apoia o investimento em respostas integradas de apoio social, do programa POPH (Programa Operacional do Potencial Humano), a oferta de respostas vai aumentar.

A própria instituição prevê a construção de um lar residencial para 25 utentes e uma residência autónoma para cinco pacientes, no concelho de Alijó. “Vamos começar a construção em Maio e a abertura está prevista para o fim de 2010”, diz o vice-presidente. O valor do projecto ronda os 700 mil euros e resulta de uma candidatura ao Programa de Alargamento de Equipamentos Sociais, PARES. A Câmara Municipal de Alijó também colabora, disponibilizando um terreno e apoiando, tecnicamente, a elaboração do respectivo processo de candidatura. Para além deste projecto, a instituição candidatou-se ao Programa Arquimedes, destinado à certificação da qualidade em organizações da área da deficiência e da reabilitação de acordo com o sistema EQUASS (European Quality Assurance for Social Services). “Vejo esta certificação como uma necessidade e também como uma exigência que a breve prazo será colocada pelas entidades financiadoras. Além disso é um desafio para as organizações”, diz Luís Correia.

A instituição intervém também como rede de apoio nos agrupamentos escolares da região. “Esta colaboração foi aprovada pela Direcção Regional de Educação do Norte e abrange os Agrupamentos de Escolas de Alijó, de Lamego (freguesia da Sé), Diogo Cão de Vila Real e de Sabrosa, visando o apoio às crianças que tenham necessidades educativas especiais e que o Ministério da Educação entenda que precisem de beneficiar desse apoio. Ao todo, com esta acção, estamos a apoiar mais de 120 crianças e jovens, entre os 6 e 18 anos. Todos estes apoios são muitos e variados. Vão desde a terapia da fala, à terapia ocupacional, à ocupação do tempo livre, entre outras”, explica o dirigente. A ideia é que as crianças permaneçam em ambiente escolar, plenamente inseridas na comunidade que as rodeia. “Tudo isto é feito em ambiente escolar e, no plano curricular do aluno, é concertado um horário, para que possa ter o apoio especial de que necessita”, acrescenta Luís Correia. “As crianças, mesmo com necessidades educativas especiais, devem permanecer nas escolas, mas é certo que há crianças que, pelas suas dificuldades, não podem ser mantidas nesse contexto e esses casos mais graves são encaminhados para a APPACDM”.

Com mais de 20 anos de experiência a trabalhar com esta população, o professor acredita que a mentalidade tem mudado no que se refere à deficiência. “Antigamente a deficiência era escondida e ainda temos um caso ou outro, dos utentes que estão connosco, que passaram grande parte da infância e juventude encerrados e isolados. Mas hoje em dia, isso já não acontece”. Para o dirigente, tem sido muito importante o trabalho desenvolvido pelas associações na área da deficiência que tem permitido que a sociedade em geral encare esta problemática com outros olhos. “São pessoas capazes, que podem ser felizes e que podem integrar-se na sociedade”, diz. Paula Proença, professora do ensino especial ao serviço da APPACDM desde a sua fundação também partilha desta opinião e vai mais longe. “Trabalhar com esta população é desafiante e estimulante para quem é professor por vocação, especialmente porque nunca podemos fazer duas coisas iguais. Ensinar a mesma letra, a mesma competência, ajudar a desenvolver a mesma capacidade mil vezes, sempre como se fosse a primeira para eles e para nós”.

O trabalho diário desenvolvido com os utentes vai no sentido de estimular não só as suas capacidades motoras e cognitivas, mas também os seus direitos e deveres, promovendo a liberdade de escolha e o respeito pela individualidade. “Tentamos que cada um deles perceba que é insubstituível e que tem o poder sobre a sua vida, apesar das limitações. Por exemplo, os nossos alunos têm que ter o direito tão simples como escolherem a camisola que vestem de manhã. Se a mim não me passa pela cabeça que alguém escolha a minha roupa, porque é que serei eu a escolher a dos meus alunos?! E quem diz a camisola, diz o que comem e o que fazem”, diz Paula Proença. Este lema reflecte-se na dinâmica das actividades, em que os alunos podem escolher, dentro do leque disponível aquela que querem frequentar. “É uma forma de aprenderem eles próprios a fazerem as suas escolhas e de utilizarem a sua liberdade”, refere.
As parcerias externas são uma base de apoio do quotidiano da APPACDM, desde aquelas desenvolvidas continuamente, como é exemplo a parceria com o centro de saúde local ou o hospital de Vila Real, bem como projectos de curta e média duração que permitem a realização de actividades diferentes. “Há um leque grande de possibilidades das instituições recorrerem a outras fontes de financiamento e a projectos diferentes. Em 2008, por exemplo, num projecto de segurança rodoviária financiado pelo Ministério da Administração Interna, 20 jovens nossos tiveram a possibilidade de usufruir de uma semana cultural em várias cidades do país”, exemplifica o vice-presidente, entre outra mão cheia de actividades que a instituição dinamiza.

 

Data de introdução: 2009-04-09



















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