Pouco mais de um mês depois da depressão Kristin e suas sucedâneas assolarem Portugal, em especial a Zona Centro, a devastação ainda é bastante palpável e os estragos provocados, se bem que remendados, muitos ainda estão por solucionar.
O clima agreste deu algumas tréguas, mas… Os estragos provocados pelos ventos fortes e pela chuva intensa que caiu nos dias seguintes abriu feridas nos equipamentos das IPSS, que ainda agora vão revelando a sua dolorosas. Ou seja, os ventos já passaram, a chuva intensa também, mas agora surgem as infiltrações provocadas revelam-se na humidade que escurece as paredes das instituições.
“O pior já passou, agora é fazer contas aos custos que a tempestade provocou, em especial, nas instituições mais afetadas”, argumenta Luís Jacob, presidente da UDIPSS Santarém.
Por seu turno, Carla Verdasca, que lidera a União Distrital de Leiria, sublinha que, “como dizem os municípios, tivemos que avançar com o dinheiro e, agora, temos as contas para pagar”.
Por isso é que Gil Tavares presidente da UDIPSS Coimbra considera importante que “sejam disponibilizados os apoios às instituições”.
Passada(s) a(s) tempestade(s), a bonança ainda não chegou às zonas mais afetadas pelo chamado ‘comboio de tempestades’ e, naturalmente, às IPSS afetadas, algumas com graves prejuízos nos seus equipamentos.
As instituições já retomaram na plenitude a sua atividade, apesar de, em alguns casos, de forma condicionada, porque às zonas das suas instalações que ainda sofrem com as consequências dos estragos provocados pela Kristin, em especial com a destruição de telhados. As infiltrações começam a revelar-se, com paredes a ganharem manchas escuras e o cheiro a mofo a tomar conta do ambiente, o que tem obrigado a vagar algumas zonas das instituições, como quartos de utentes e não só.
Por outro lado, houve uma grande razia nos painéis solares e diversos estragos em viaturas das IPSS devido à queda de árvores e de destroços, para além da destruição de espaços exteriores, seja de jardins, seja de parques infantis.
“O problema que se mantém é a nível dos arranjos das infraestruturas. Fizeram-se aqueles arranjos iniciais, mas agora começam a surgir as infiltrações, a humidade nos quartos e noutras zonas das instituições. E estas reparações necessárias ainda estão em fase de resolução”, afirma Carla Verdasca, que acrescenta: “Eletricidade e água já há, mas houve gastos com isso e as instituições vão ter contas de valores elevados com o gasóleo para os geradores e outras situações”.
Os três presidentes das Uniões Distritais de Leiria, Santarém e Coimbra são unânimes em considerar que as tempestades provocaram custos elevados, esperando que os apoios sejam céleres a chegar às instituições.
“O pior já passou, agora é fazer contas aos custos que a tempestade provocou, em especial, nas instituições mais afetadas”, defende Luís Jacob, revelando que “a União Distrital enviou um pedido de informação às instituições para que reportassem os custos estimados com os estragos”, mas ainda não tem resultados.
“O mais importante é que todas já estão em atividade e muitas já a recorrer aos apoios da Segurança Social. Temos passado essa informação às instituições e sabemos também que têm sido acompanhadas pelo Montepio, o banco com que trabalhamos, para apoio à tesouraria”, avança o presidente da UDIPSS Santarém.
Neste particular, a União Distrital de Coimbra vai mais adiantada no processo de reportar a situação das suas associadas, tendo já contactado diversas entidades.
“A UDIPSS fez um levantamento das instituições afetadas pela depressão Kristin e apresentou essa relação à Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro e também à Segurança Social de Coimbra”, afirma Gil Tavares, revelando já terem contactado a diretora da Centro Distrital “que deu uma esperança em ajudar as instituições afetadas”.
No distrito de Leiria esse processo de levantamento dos custos está mais atrasado, mas também ainda há diversos constrangimentos a nível de comunicações.
Carla Verdasca adianta que “ainda há instituições que não têm comunicações, o telemóvel ainda funciona, mas a internet não”. E algumas só têm comunicações porque adquiriram um kit Starlink, uma vez que há operadoras que ainda não conseguiram restabelecer o serviço.
Apesar da devastação provocada pelas tempestades, uma vez mais, o espírito solidário dos portugueses veio ao de cima e, desde o cidadão anónimo até às instituições, a ajuda surgiu de forma natural, tendo sido decisiva para mitigar os problemas.
A onda de solidariedade foi grande e, logo no fim-de-semana seguinte à passagem da depressão Kristin, grupos de voluntários, oriundos de todo o país, deitaram mãos à obra nas zonas mais afetadas, ajudando a remendar telhados, limpando as vias de acesso, que em muito locais ficaram completamente bloqueadas por árvores caídas. No distrito de Leiria fala-se em quase 10 milhões de árvores afetadas.
Mas também a ajuda interinstitucional se fez sentir, com muitas IPSS a apoiarem como podiam as suas congéneres afetadas.
Em Coimbra, que primeiro sofreu com a Kristin e depois viu o Mondego transbordar as margens, foi necessário evacuar três lares de idosos, tendo os utentes sido levados, na sua maioria, para o Pavilhão Mário Mexia, devidamente apetrechado, mas com camas de campanha!
“A União Distrital, juntamente com outras entidades, conseguiu arranjar uma série de camas articuladas para que os idosos acamados não tivessem que estar nas camas de campanha disponibilizada pela Proteção Civil”, conta Gil Tavares, frisando que “a situação já está normalizada, os idosos das três instituições já regressaram, até porque a evacuação dos equipamentos foi uma ação preventiva do que por inundação das instalações”.
Por seu turno, a Cáritas Diocesana de Leiria, a meio do mês de fevereiro, já havia angariado através do Fundo de Emergência Social para as vítimas da tempestade Kristin mais de 1,6 milhões de euros e a mobilização de mais de 300 voluntários na resposta no terreno.
Segundo uma nota à imprensa, a instituição considera que o valor angariado reflete a “solidariedade contínua da sociedade portuguesa”.
Ciente de que a fase “mais prolongada e exigente” focada na reconstrução está ainda no início, “a Cáritas Diocesana de Leiria reafirma o seu compromisso de continuar presente no terreno, acompanhando as comunidades e mobilizando recursos, com responsabilidade e transparência, para que nenhuma família fique para trás”, conclui a nota.
Outro exemplo de solidariedade, entre os muitos, foi o da APSA - Associação de Promoção Social de Alhandra, que promoveu uma ação solidária no âmbito da campanha «Somos todos Leiria e Marinha Grande», tendo angariado bens e mobilizado voluntários para apoiar populações em situação de maior vulnerabilidade.
A iniciativa resultou no envio de três carrinhas carregadas de donativos, que passaram por Vieira de Leiria, Marinha Grande, Ortigosa e Arruda dos Vinhos.
“Solidariedade é quando o coração decide agir antes mesmo das palavras. A nossa campanha nasce do desejo simples e poderoso de cuidar uns dos outros, de transformar empatia em atitude e esperança em ação concreta”, considerou, em nota à imprensa, a direção da APSA, onde se lê ainda: “Cada gesto conta. Cada doação, cada olhar atento é uma prova de que juntos podemos mudar realidades. O que para alguns parece pouco, para outros pode significar conforto, dignidade e a certeza de que não estão sozinhos”.
Pela frente, agora, as instituições afetadas têm a reconstrução das áreas afetadas pelo que os apoios anunciados são essenciais.
A União Distrital de Leiria, com o apoio da UDIPSS Porto, realizou uma sessão explicativa dos apoios disponibilizados pelo Estado e da forma de lhes poder aceder.
“O feedback que tive da ação de formação dada pela UDIPSS Porto é que foi muito importante, porém, o feedback que tenho agora é que as candidaturas são muito complicadas”, lamenta Carla Verdasca, acrescentando: “O que está disponível já se percebeu, mas formalizar a candidatura, arranjar os documentos necessários e elaborar as candidaturas tem sido uma carga de trabalhos”.
Por outro lado, a Segurança Social de Leiria tem reunido em alguns concelhos com as instituições no sentido de explicar a forma de aceder aos apoios.
“Algumas instituições têm seguros e não vão candidatar-se aos apoios do Estado, mas isto é um processo que leva tempo. No entanto, não se pode ficar com o telhado por arranjar só porque a seguradora ainda não respondeu”, alerta Carla Verdasca.
O futuro próximo em muitas instituições ainda será de constrangimentos, mas a esperança de todos é que os apoios cheguem depressa e que seja possível reparar os danos em definitivo para que as comunicações voltem e as espumas e lonas que remendam os telhados sejam removidas e as coberturas reparadas devidamente, tal como demais estruturas.
Pedro Vasco Oliveira
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