ANTÓNIO JOSÉ DA SILVA

Índia: as preocupações de cristãos e muçulmanos

Durante muitos anos, o nacionalismo foi entendido como uma das manifestações da afirmação de qualquer povo no mundo. Embora não se trate de conceitos totalmente idênticos, a verdade é que, sem essa afirmação, seria difícil chegar à descoberta de uma pátria e, muito menos ainda, à reivindicação de um estado. Certamente por isso, o nacionalismo foi visto, quase sempre, como um conceito respeitável e até louvável, a não ser quando assumia expressões claras de radicalismo ou violência. Em contrapartida, nos tempos que correm, o ideal nacionalista passou, a ser visto com desconfiança, senão mesmo com temor.

A preocupação com o regresso do nacionalismo ao mapa das grandes questões da actualidade internacional tornou-se mais visível no Ocidente, e particularmente na Europa, área do mundo que nos toca mais de perto e onde são mais visíveis os sinais desse regresso. As últimas eleições europeias vieram confirmar a justeza dessa preocupação, mesmo que os seus resultados, se exceptuarmos a França, a Itália e a Hungria, não tenham sido tão negativos para os europeístas, como se chegou a temer. Mesmo assim, foram resultados suficientemente relevantes para se poder dizer que o nacionalismo de carácter populista é hoje suficientemente forte para desafiar qualquer projecto de construção europeu.

Importa lembrar, no entanto, que os problemas levantados pelo ressurgimento do nacionalismo estão longe de se confinar à Europa. Uns dias antes do sufrágio europeu, tiveram lugar na Índia eleições legislativas, e os seus resultados traduziram-se numa estrondosa vitória do partido nacionalista hindu, que já vencera em 2014 e que, por isso, vinha liderando, desde então, o governo de Nova Deli. O resultado desta última consulta popular foi verdadeiramente histórico por se ter traduzido numa derrota ainda mais pesada para o partido do Congresso que, desde a independência do país em 1947, vinha dominando a vida política da Índia.

Apesar de todos os problemas que se colocam ao governo de um país multiétnico com mais de três milhões de quilómetros quadrados de superfície e mais de mil milhões de habitantes, os governos oriundos do partido fundador do estado indiano, e agora derrotado, conseguiram fazer da República da Índia, não obstante o seu nível de pobreza, a sétima potência económica do mundo. O mais importante a assinalar nesta altura é, no entanto, assinalar que esses governos conseguiram manter, ao longo do tempo, uma fidelidade notável a um sistema democrático que garantiu sempre o respeito pelo pluralismo político e religioso do seu povo. Só que, e infelizmente, o claro triunfo de um partido nacionalista, de fundamentação religiosa, que faz do hinduísmo a marca identitária do país levanta muitas dúvidas acerca da continuidade desse pluralismo. Muçulmanos e cristãos, por isso têm fortes motivos de preocupação.  

 

Data de introdução: 2019-06-13



















editorial

Compromisso de Cooperação

As quatro organizações representativas do Sector  (União das Mutualidades, União das Misericórdias, Confecoop e CNIS) coordenaram-se entre si. Viram, ouviram e respeitaram. 

Não há inqueritos válidos.

opinião

JOSÉ A. DA SILVA PENEDA

Regionalização
O tema regionalização mexe com interesses. Por isso, não é pacífico. Do que se trata é de construir uma forma diferente de distribuição de poder e,...

opinião

ANTÓNIO JOSÉ DA SILVA

Primaveras que nunca chegaram
Morreu não há muito, em pleno tribunal onde iria ser julgado pela segunda vez, aquele que foi presidente egípcio entre 2012 e 2014, altura em foi deposto por um golpe militar...