DIRECTOR NACIONAL DA OBRA DO APOSTOLADO DO MAR:

Acolhimento cristão junto dos portos deve ser dinamizado

O Director Nacional da Obra do Apostolado do Mar, padre Carlos Augusto Noronha, também pároco de Buarcos, na Figueira da Foz, é um profundo conhecedor das necessidades dos pescadores e marinheiros. E defende, por isso, na linha do que propõe o Papa João Paulo II, que as dioceses ligadas ao mar devem dinamizar o acolhimento cristão a todos os que demandam os portos. Também defende que nas paróquias piscatórias se criem pontos de encontro, os Stella Maris, onde os valores do homem do mar sejam cultivados e defendidos.

SOLIDARIEDADE - O que é a Obra do Apostolado do Mar (OAM)?
Padre Carlos Noronha -
A OAP é a expressão da Igreja Católica junto dos homens do mar, sobretudo junto dos que navegam no Longo Curso. Começou ligada aos marinheiros que navegavam durante meses, sem poderem contactar com as suas famílias e com as suas comunidades, por volta dos anos 40 do século passado, principalmente para destruir a solidão dos que vivem tanto tempo dentro dos mesmos barcos. 

SOLIDARIEDADE - E hoje? Essa solidão ainda existe?
Padre Carlos Noronha -
Hoje, essa solidão continua, apesar de todos os meios de comunicação que há. A auréola de solidão continua a ser grande, na medida em que as companhas mudaram muito nos últimos anos. 

SOLIDARIEDADE - Como?
Padre Carlos Noronha -
Antigamente, os barcos navegavam com grupos de homens que falavam a mesma língua, que tinham a mesma cultura, que se conheciam. Havia barcos que recebiam tripulantes da mesma terra. Hoje, numa companha mais reduzida, vão homens de nacionalidades diferentes, que falam línguas diferentes e que são portadores de culturas diferentes. Tudo isto gera uma solidão talvez ainda maior do que aquela que antes era fruto do impedimento de comunicar com a família. 

SOLIDARIEDADE - Face a essas situações, o que é que a OAM tem feito?
Padre Carlos Noronha -
A OAM, segundo as directrizes da Santa Sé, há-de estabelecer em cada país que está voltado para o mar centros de acolhimento, para os que navegam e chegam a este ou àquele porto. E nesses centros, inserem-se os Stella Maris (Estrela do Mar), uma evocação de Nossa Senhora, que é a grande expressão do acolhimento cristão, ou não fosse Ela a primeira pessoa a acolher Jesus Cristo. A partir daí, os Stella Maris têm pessoas sintonizadas com estes problemas e com a dimensão do acolhimento cristão a prestar a quem chega aos portos. 

SOLIDARIEDADE - E que respostas, concretamente, dão?
Padre Carlos Noronha
- Atendem espiritualmente os marinheiros e pescadores, celebram a Eucaristia nos Stella Maris ou a bordo, se as companhas o pedirem, normalmente quando há um número razoável de crentes. 

SOLIDARIEDADE - Mas há outras respostas e outras necessidades....
Padre Carlos Noronha
- Sim, é verdade. Às vezes os marinheiros aparecem com problemas de ordem laboral, entre outros. Nesses casos, os Stella Maris têm a missão de os encaminhar e ajudar no contacto com as entidades portuárias com capacidade para os apoiar nas suas dificuldades. 

SOLIDARIEDADE - Pelo que sabemos, há Stella Maris que têm serviço de restaurante, bar e hospedagem. Ainda se justificam?
Padre Carlos Noronha
- Noutros tempos, solicitavam mais refeições e dormidas do que agora, porque as condições de bordo não eram tão boas como hoje são. Mas há a necessidade de conviver e esta, presentemente, é a mais importante. Os Stella Maris devem ter ofertas ao nível do convívio, onde haja uma mesa de bilhar, uma biblioteca, um bar onde possam tomar um café ou beber uma cerveja, onde os marinheiros possam falar dos seus problemas. Alguns ainda têm à disposição dos homens do mar pequenas lembranças que falam da terra onde estão e que eles gostam de levar para as famílias e amigos, como testemunho de que estiveram naquele porto. 

SOLIDARIEDADE - Como estamos a nível de Stella Maris em Portugal?
Padre Carlos Noronha
- Os primeiros Stella Maris a serem criados no nosso País foram os de Lisboa, Leça da Palmeira, Aveiro, Peniche e Setúbal. Depois vieram os da Nazaré, Buarcos e Sines. Os de Lisboa e Sines fecharam e alguns estão em fase de renovação. 

SOLIDARIEDADE - E no mundo?
Padre Carlos Noronha
- Há a OAM da Igreja Católica um pouco por todo o mundo, mas também há outras respostas ligadas às Igrejas Protestantes e uma ou outra Ortodoxa. Estou informado da existência de centros de acolhimento de expressão muçulmana. 

SOLIDARIEDADE - Mas os Stella Maris acolhem toda a gente...
Padre Carlos Noronha
- É verdade. Estes centros da Igreja Católica têm a preocupação de acolher toda a gente, independentemente das religiões que os marítimos professam. São centros abertos também às famílias dos marítimos e a outras pessoas que se identificam com as questões portuárias e com os homens do mar. 

SOLIDARIEDADE - Todas as dioceses marítimas portuguesas têm este serviço organizado?
Padre Carlos Noronha
- Não. Mas todas deviam ter a preocupação de manter uma expressão pastoral voltada para os valores do mar. Em Portugal, estamos a tentar definir uma linha de criação de Stella Maris de sabor paroquial [em zonas piscatórias], ao lado dos que estão voltados para a Marinha Mercante. Os de sabor paroquial terão mais a preocupação de proporcionar aos pescadores e suas famílias a oportunidade de se reunirem e de saberem que os seus valores, próprios das comunidades marítimas, não estão desprezados nem ultrapassados. 

SOLIDARIEDADE - E que vão fazer esses centros?
Padre Carlos Noronha
- Vão cuidar da linguagem, da civilidade, da maneira de entender, ao jeito do pescador, as grandes realidades da vida. Hoje, em quase todas as terras foram-se fechando as tabernas, que eram tertúlias culturais dos pescadores. Era ali que eles se encontravam para falar e para desabafar, com a sua linguagem muito própria, sobre as suas inquietações, na certeza de que eram entendidos. Isto, apesar de às vezes se abusar do álcool... 

SOLIDARIEDADE - Acha então que é muito importante dinamizar este serviço da Igreja nas paróquias piscatórias...
Padre Carlos Noronha
- Claro que é. E é bom sublinhar que a Igreja entra neste sector pela voz do Papa João Paulo II, que renovou e reactualizou tudo quanto estava definido pelos seus antecessores, a nível do Apostolado do Mar. O Papa abre todo o leque de preocupações e desejos seus, no sentido de que não falte ao marítimo o acolhimento cristão a que tem direito.


 

Data de introdução: 2005-04-27



















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