1 - “Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.” – exclamava Jorge de Sena, no início do poema “CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA”, do livro “Metamorfoses”, de 1963.
Passados mais de 60 anos – o espaço de mais do que uma geração - sobre a dúvida formulada por Jorge de Sena, que mundo é o nosso? Ou, dito de outro modo, porventura mais enfático, que fizemos nós deste mundo onde vivemos? Ou que deixámos que fizessem?
Escrevo esta crónica sob o impacto tão próximo da operação militar dos Estados Unidos de Trump contra a Venezuela. (Que semelhança, quer na designação, quer na substância do procedimento, com a “operação militar especial”, como Putin classifica a invasão da Ucrânia!).
Destinou-se a operação militar, na versão norte-americana, à “extracção” de Nicolás Maduro e sua mulher de Caracas e ao envio de ambos para Nova York, detidos, a fim de serem aí julgados.
(“Extracção”, foi mesmo este o termo dado oficialmente à detenção, neutralização e envio para a prisão nova-iorquina ...
Como se os detidos fossem coisas, que se removem, ou trocam de lugar, contra vontade, com pinças, ou com gruas, por determinação de outrem… no caso, para servirem de involuntários figurantes na respectiva reportagem, que, para entretenimento de Donald Trump, a televisão lhe ofereceu em directo.)
No momento em que escrevo, vejo a televisão informar-me que, com a operação de “extracção” do Presidente da Venezuela e sua mulher, morreram 40 pessoas, todas das forças venezuelanas. (Não houve mortos nem feridos por parte dos atacantes, como informaram as autoridades norte-americanas.)
Regresso a Jorge de Sena e aos fuzilamentos de Goya: escrevia Sena aos seus filhos: “Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém/vale mais do que uma vida ou a alegria de tê-la./…Confesso que/ muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos / de opressão e crueldade, hesito por momentos/e uma amargura me submerge inconsolável./Serão ou não em vão?/ Mas, mesmo que o não sejam, /quem ressuscita esses milhões, quem restitui /não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?/ Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes/aquele instante que não viveram, aquele objecto /que não fruíram, aquele gesto/ de amor que fariam «amanhã»”.
2 – Trata-se de um adquirido geral a noção de que a presidência de Donald Trump se tem traduzido numa sucessão contínua de delírio e de mau gosto.
Vemos com frequência na televisão o gozo infantil do presidente dos EUA – que é o homem mais poderoso do mundo - ao exibir, para o aplauso dos seus próceres, a aposição da sua assinatura em decretos e ordens executivas, ou outros documentos oficiais, devidamente enquadrado pela corte dos fiéis, aplaudindo cada fala ou cada gesto do Líder.
Tem qualquer coisa de ridículo ver aquele friso de notáveis a servir de moldura na Sala Oval, a saudar com uma salva de palmas cada exibição da assinatura de Trump, feita com um marcador, a traço grosso…
Por outro lado, já ninguém tem dúvidas sobre o papel de Trump como “pivot” da estratégia russa de se apoderar de parte da Ucrânia, que se manifestou na humilhação pública feita a Zelensky na Casa Branca, por Trump e pelo seu Vice-Presidente, ou nos sucessivos ultimatos dirigidos à Ucrânia para ceder às pretensões russas, designadamente no que toca à cedência de território ucraniano.
3 - Não se duvida de que Nicolás Maduro não possuía legitimidade para o cargo de Presidente da República.
As eleições que o “elegeram” são comparáveis às que elegeram Américo Tomás em 1958 – em que os cidadãos deram nas urnas a vitória a Humberto Delgado, mas as autoridades atribuíram falsamente a vitória a Américo Tomás.
Ora, quem removeu Américo Tomás da Presidência, já em 1974, e com ele a ditadura do Estado Novo, foi o Movimento das Forças Armadas, em aliança com os portugueses.
Mas, para tal feito, não veio ninguém de fora restituir-nos a liberdade; e muito menos quem não tem legitimidade, nem idoneidade, nem pergaminhos democráticos.
O mesmo se passa, ou deveria passar, noutras latitudes.
Os povos têm o direito de escolher quem os governe; mas também de os sacudir, quando não sirvam.
Também na Venezuela o povo merecia libertar-se do ditador - mas teria de ser o mesmo povo a fazê-lo.
Não faz qualquer sentido trocar um ditador por outro; para mais, tratando-se de um estrangeiro predador.
Com a ofensiva norte-americana, como já bem se percebeu, os recursos naturais existentes no País, ao invés de reverterem para o bem-estar e a melhoria das condições de vida dos venezuelanos – a quem o país pertence – têm já o destino traçado e proclamado pelos ocupantes: serão para indemnizar os custos da intervenção, segundo o preço definido pelo invasor, que “faz e baptiza”; e para serem explorados pelas grandes empresas petrolíferas dos Estados Unidos.
São os norte-americanos que o dizem …
4 – Há uma outra dimensão desta operação que nos deve servir de alerta: Trump anunciou que os EUA governarão no futuro a América Latina e ocupará todos os territórios que sejam considerados por si próprio como necessários à segurança dos Estados Unidos ou aos seus interesses.
Vista à luz desta operação na Venezuela, ganha outra dimensão a ameaça de ocupação de Gronelândia e da integração do Canadá, feita há alguns meses por Trump.
E percebe-se por que razão a Ucrânia está a ser atraiçoada todos os dias.
A operação dos EUA na Venezuela não tem natureza diferente da invasão da Ucrânia pela Rússia.
É também a vizinhança da Rússia que fundamenta a reivindicação desta de desmilitarizar a Ucrânia e de a transformar numa zona-tampão relativamente ao território europeu da NATO - por razões de segurança, alega a Rússia.
É bem verdade que o inimigo principal é o que está mais perto …
Henrique Rodrigues – Presidente do Centro Social de Ermesinde
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