CENTRO SOCIAL, CULTURAL E RECREATIVO DE PINDELO, OLIVEIRA DE AZEMÉIS

Zonas mais pobres deviam ter majoração nas comparticipações

O Centro Social de Pindelo, como é comummente designado, foi criado em 1990 e, logo no ano seguinte, arrancou com o CATL, em instalações de uma antiga escola primária, recuperada e cedida pela Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis. Já em 1997, a instituição adquire um terreno com vista à construção de instalações próprias, o que apenas acontece mais de uma década depois, tendo a obra terminado em dezembro de 2011.
E se o CATL, que acolhe 35 crianças, permaneceu nas instalações cedidas pela autarquia desde 1991, o novo equipamento alberga uma creche, que iniciou atividade com 24 bebés, mas que hoje já recebe 33 (apesar da capacidade ser para 45), e ainda o Serviço de Apoio Domiciliário (SAD), que conta com 24 utentes. Para além disto, o novo refeitório dá ainda apoio quer ao CATL quer às crianças do 1º Ciclo, fruto de um protocolo com a Câmara Municipal.
A razão de o CATL permanecer nas antigas instalações deve-se ao facto de ser “um projeto PARES II e como tal o CATL não estava abrangido”, explica António Bastos, presidente do Centro Social de Pindelo.
Certo é que o terreno foi adquirido em 1997, a candidatura ao PARES feita uma década volvida e a obra arrancou em 2009, tendo ficado pronta dois anos depois. No total, desde que a obra foi sonhada até ser concretizada passaram… 14 anos!
“O que aconteceu é que, em primeiro, comprou-se o terreno, porque ninguém o ofereceu, e foi necessário liquidar essa aquisição e, depois, os processos junto da Segurança Social foram muito complicados”, começa por explicar o presidente da instituição, prosseguindo: “A obra foi iniciada pela Câmara Municipal, só que era uma situação extremamente morosa e, então, tivemos que contratar técnicos especializados e já habituados a fazer projetos para estas respostas sociais. É quando surge a candidatura ao PARES II e, então, as coisas avançaram definitivamente”.
Mas a demora teve outras razões na sua génese. “Primeiro, liquidámos o encargo com a compra do terreno e, depois, procurámos estabilizar as finanças e dar sustentabilidade à instituição”, argumenta António Bastos, recordando que “a obra começou com um orçamento na ordem dos 800 mil euros e terminou em um milhão e pouco”.
Para conseguir erguer o novo equipamento, a instituição teve uma comparticipação da Segurança Social de 227 mil euros, tendo também a Câmara participado com algum dinheiro, a população contribuiu com donativos e o Centro Social pediu um financiamento de 300 mil euros, a pagar em 15 anos.
A este propósito, António Bastos deixa um lamento: “Para conseguir esse empréstimo os membros da Direção tiveram que dar um aval pessoal, que é sempre uma situação confrangedora, porque muitas vezes os elementos da Direção saem e continuam com as responsabilidades. Neste momento, estamos a negociar com a Caixa geral de Depósitos a libertação do aval dos diretores da altura. Não faz sentido, porque a instituição tem a garantia do imóvel e a garantia de todas as receitas”.
E os encargos com a obra não se ficaram por aqui, pois os 300 mil euros iniciais não chegaram para obstar à derrapagem orçamental, pelo que a instituição fez acordos particulares “com algumas pessoas para fazerem empréstimos sem juros e isso permitiu ganhar algum fôlego e hoje o empréstimo ainda tem algum peso nas contas da instituição, mas está controlado”, afirma o líder do Centro Social, que sublinha a grande preocupação dos dirigentes com a sustentabilidade do Centro.
“Uma das coisas que nos preocupa sempre é a sustentabilidade da nossa instituição, e das instituições em geral, que é uma situação extremamente complicada, atendendo às exigências que são feitas e aos custos de funcionamento. Por exemplo, o PARES II obrigava à instalação do AVAC, que é um custo que não faz sentido, pois estamos numa zona que não o exige”, sustenta António Bastos, que se mostra agradado com a situação financeira da instituição: “Quanto às contas da instituição, temos a situação controlada. O equilíbrio financeiro é uma preocupação constante, sempre com o objetivo na sustentabilidade”.
Como muitas instituições espalhadas pelo território nacional, o Centro Social de Pindelo está inserido num meio rural, envelhecido e deprimido.
“O que noto, como dirigente, é que há pouca sensibilidade para o Interior e as populações mais desfavorecidas”, acusa António Bastos, deixando uma crítica concreta ao Estado: “A comparticipação da Segurança Social é igual para todos, seja em Lisboa, Porto, Aveiro, Arouca, Viseu ou outra localidade qualquer, mas essa comparticipação devia ter em conta o rendimento per capita, ou seja, devia haver uma majoração para as zonas que são mais pobres em termos de rendimento per capita e isso é que é solidariedade”.
Ana Magina, diretora-técnica da instituição, acrescenta que a população de Pindelo é constituída por “pessoas que toda a vida trabalharam na agricultura e a sua pensão é de sobrevivência, muito baixa”, situação que não contribui favoravelmente para o equilíbrio financeiro da instituição.
“Há aqui uma situação que é pouco solidária a nível nacional entre as instituições, ou seja, a Segurança Social devia majorar aquelas que têm menos rendimento pelo pagamento dos utentes”, sustenta António Bastos, acrescentando: “É uma situação que não faz muito sentido, mas a nossa principal preocupação é a qualidade do serviço, porque entendemos que só se manterão as instituições que tiverem qualidade, e a formação contínua, que nos dá essa qualidade. Quando a Segurança Social, em colóquios, nos diz que uma resposta social numa IPSS só custa um terço daquilo que custa numa resposta do próprio Estado, isto quer dizer alguma coisa, só que depois o resto não funciona”.
Com 16 funcionários ao serviço e “apesar de haver algumas indústrias em diversas áreas na freguesia, a instituição já é um dos grandes empregadores de Pindelo”, sublinha o presidente da instituição, que lembra: “É preciso olhar também para a componente social a nível da empregabilidade das instituições, que também fazem girar a economia local”.
Para além das respostas sociais atrás referidas, o Centro Social de Pindelo promove o Clube Sénior, valência atípica e sem qualquer comparticipação estatal, que movimenta 45 idosos da freguesia.
“É uma forma de apoiar e de integrar as pessoas da comunidade na instituição, o que nos permite também ter um bom relacionamento com a comunidade”, diz António Basto, ao que Ana Magina acrescenta: “É um espaço de partilha, é um clube em que as pessoas vêm de forma livre e espontânea, onde há atividades diversas e sessões formativas e informativas todas as segunda-feira”.
Apesar de as novas instalações terem alargado a resposta da instituição, nem todos os desejos dos dirigentes foram concretizados.
“Atendendo a que, aquando da elaboração do projeto, foi equacionado que se incluíssemos um Lar havia fortes probabilidades de o projeto não ser aprovado, então colocámos de parte o Lar. Parece que, na altura, a verba disponível para os lares era reduzida”, sustenta António Bastos.
E se a construção de um lar é desde sempre uma ambição da Direção, outro projeto, de mais fácil concretização, paira no ar, como revela o presidente: “Também equacionamos fazer um Centro de Dia. No entanto, há a possibilidade de nestas instalações podermos vir a criar um Centro de Dia, porque é relativamente fácil fazer uma adaptação neste equipamento e instalar aqui essa resposta. O Lar já implica a aquisição de um terreno e a construção de uma instalação autónoma”.
A ambição de criar uma ERPI prende-se, essencialmente, com a necessidade que os dirigentes identificam na comunidade que servem.
“Aqui também se sente a necessidade de um lar, porque esta é uma resposta que normalmente está cheia em todo o lado e, depois, o crescente envelhecimento da população e a longevidade empurra, cada vez mais, as pessoas para estas soluções. É evidente que o SAD é sempre uma boa aposta, até porque no meio rural as pessoas costumam ter um quintal e gostam de estar em casa, desde que tenham algum apoio”, destaca António Bastos, com Ana Magina a dar uma achega: “Aqui ainda se privilegiam as relações de vizinhança porque é um meio pequeno, o que facilita a permanência das pessoas em casa, pelo que o SAD é uma boa resposta”.
Porém, esta situação acarreta algum prejuízo para o Centro Social, pois, de tempos a tempos, perde utentes.
“No dia-a-dia vamos reconhecendo nos nossos utentes de SAD a necessidade de algumas ajudas que nós ainda não estamos preparados para dar e até para as quais não tivemos formação, em especial quando implica doenças do foro mental. As equipas deviam estar apetrechadas com técnicos de forma a poderem dar resposta a essas situações. O que temos feito quando nos surgem situações limite, como doenças do foro mental ou pessoas sem retaguarda familiar, é encaminhá-las para uma resposta de Lar, em ligação com outras instituições e a Segurança Social”, afirma Ana Magina.
“Para já não temos mais projetos pensados, porque defendemos que as Direções devem ser rotativas e não devemos lançar novos projetos para outros os terminarem. Por vezes embarca-se em obras megalómanas e depois é um problema. Aqui trabalhamos sempre com os pés assentes na terra e tentamos ter projetos viáveis e que sejam sustentáveis, porque fazer é fácil, difícil é mantê-los a funcionar bem. A resposta que temos vindo a dar à população pode melhorar se for mais abrangente, mas de momento não há nada de novo pensado”, sustenta António Bastos.
Através de um Banco Solidário, a instituição apoia ainda 35 famílias carenciadas, especialmente com roupas e alimentos.

 

Data de introdução: 2016-08-07



















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