OPINIÃO

Doutores da mula ruça

1 - Fui para Coimbra estudar Direito em Outubro de 1969.
A Universidade, para a grande maioria dos estudantes, estava de luto: a Crise Académica, iniciada em Abril de 1969, por ocasião da inauguração do Edifício das Matemáticas, com a interpelação feita às autoridades presentes – o Presidente da República, Américo Tomás, o Ministro da Educação, José Hermano Saraiva e outros dirigentes políticos e académicos de então – pelo Presidente da Direcção da Associação Académica, Alberto Martins, pedindo o uso da palavra em nome dos estudantes, tinha conduzido à interrupção súbita da cerimónia, à posterior ocupação da Universidade pela Polícia, à demissão, prisão e envio para o serviço militar obrigatório dos dirigentes estudantis e à consequente greve às aulas e aos exames. Greve cumprida, por parte da grande maioria dos estudantes.
(Um dos testemunhos públicos desse luto foi apresentado pela equipa de futebol da Académica de Coimbra, finalista, nesse ano de 1969, da Taça de Portugal e que se apresentou no Jamor de braçadeira preta.)
Cheguei a Coimbra na ressaca dessa crise – mas a crise tinha deixado o seu legado progressista para o futuro.
Já no ano lectivo anterior, em Maio de 1969, por causa do Luto Académico, tinha sido abolido o ritual da Queima das Fitas, não saindo o respectivo Cortejo, nem havendo lugar à tradicional garraiada na Figueira da Foz.
Todas as manifestações da praxe tinham sido suspensas, logo em meados de 1969 – e assim continuaram no ano lectivo seguinte, que foi o meu primeiro ano em Coimbra.
E também não houve praxe nos anos seguintes, até ao fim do curso.
(Apenas dois ou três grupelhos de estudantes protofascistas, ligados aos grupos afectos ao regime de então, mantinham alguma actividade praxística – mas com o repúdio geral dos estudantes, até pelo facto de tais grupelhos serem constituídos por estudantes que, em regra, haviam furado a greve aos exames.
Ainda dois ou três amigos meus tiveram o cabelo rapado por esses bandos – rapar o cabelo era uma das penas aplicadas pelos “doutores” aos “caloiros” -, pelo facto de andarem fora de casa, à noite, sem a protecção de um “doutor”.
Sair um caloiro de casa, após as 8 horas da noite, sem ser acompanhado por um estudante mais antigo, era, até 1969, uma interdição punida com um rapanço de cabelo.)
Aliás, a intensa actividade associativa e política dos estudantes da Universidade nos anos finais da ditadura, com reuniões clandestinas quase diárias, para suprir o facto de a Associação Académica se encontrar suspensa, e o envolvimento de um significativo número de estudantes nessas actividades, não era compatível com regras tão bizarras como a proibição de sair à noite.

2 – Não foi, portanto, necessário opor-me à praxe em Coimbra – já que ela se encontrava aí suspensa.
A minha militância anti-Queima teve lugar no Porto – onde não havia praxe, no sentido coimbrão, de um código de regras de relacionamento entre estudantes, mas havia Queima das Fitas –, em que, nesses anos entre 1969 e o 25 de Abril, os estudantes ligados ao movimento associativo tentaram boicotar tais manifestações, que considerávamos reaccionárias e aliadas objectivas da ditadura.
Não tenho, portanto, experiência directa da relação com a praxe e nunca vesti uma capa e batina – embora, todos os anos, durante longos períodos em cada ano, veja, à porta do meu escritório, junto à Câmara do Porto, centenas de jovens estudantes, rastejando no chão e com orelhas de burro enfiadas na cabeça, com dísticos e dizeres idiotas e humilhantes para os portadores deles, às ordens e sob o comando de estudantes mais velhos – aprendizes de ditador trajados de preto.
No meu tempo, praxes havia apenas em Coimbra – por ser um meio pequeno e fechado, muito marcado pela frequência da Universidade, para onde vinham estudar jovens de todo o País.
No Porto e em Lisboa, cidades mais abertas e cosmopolitas, onde a população estudantil se não distinguia da restante e os estudantes eram, em grande parte, originários dessas cidades ou arredores, continuando a viver na casa paterna, não havia praxe.
Mas já em Coimbra, mesmo nas modalidades mais inofensivas que a praxe assumia em relação aos estudantes mais novos e indefesos, por comparação com a selvajaria e abjecção dos rituais hoje predominantes, havia um traço que persiste como a matriz de todas elas: a instituição de uma hierarquia entre os estudantes, como fundamento de uma relação de poder de uns sobre os outros.
Em Coimbra – e creio ser igualmente assim nos herdeiros abastardados e tardios da tradição coimbrã, de Macedo de Cavaleiros a Santarém, da Lusófona à Lusíada -, os estudantes do 1º ano são graduados no escalão mais baixo da escala: são os “caloiros”, também chamados carinhosamente de “bichos”.
Como “bichos” que são, podem ser tratados de forma arbitrária e desumana pelos estudantes dos níveis superiores da escala praxística: os “doutores”, a partir da segunda matrícula; e os “veteranos”, com mais matrículas.
O número de matrículas é a pedra de toque da progressão nesta escala, nesta hierarquia: quem tiver mais matrículas, mesmo que não tenha passado do primeiro ano, é o chefe da pirâmide; é o “dux veteranorum”, quer dizer, é o chefe dos veteranos, manda nos outros todos.
(É bom de ver por que razão as novas universidades, tão dependentes das propinas pagas pelos alunos, transigem com umas práticas que têm na perpetuação da frequência da Universidade a legitimação do seu poder arbitrário sobre os outros.
E também as notícias que por vezes nos chegam nos jornais, sobre as relações e a promiscuidade entre certas universidades privadas, algumas lojas maçónicas e os partidos do chamado arco da governação, ajudam a explicar a pusilanimidade dos vários governos com a selvajaria e a boçalidade que marca as praxes académicas – todas elas.)

3 – Criticando o papel da Universidade do seu tempo na formação dos estudantes numa gramática da obediência e da submissão, já escrevera Eça de Queiroz, tão actual nisso como nas “Farpas”.
Retiro, de “O Conde d’Abranhos”, o seguinte passo:
“Têm alguns espíritos ávidos de inovação … sustentado que o sistema da Sebenta (como na sua jovial linguagem lhe chama a mocidade estudiosa) é antiquado. Eu considero, porém, a Sebenta como a mais admirável disciplina para os espíritos moços. O estudante, habituando-se, durante cinco anos, a decorar todas as noites, palavra por palavra, parágrafos que há quarenta anos permanecem imutáveis, sem os criticar, sem os comentar, ganha o hábito salutar de aceitar sem discussão e com obediência as ideias preconcebidas, os princípios adoptados, os dogmas provados, as instituições reconhecidas. Perde a funesta tendência – que tanto mal produz – de querer indagar a razão das coisas, examinar a verdade dos factos; perde, enfim, o hábito deplorável de exercer livre-exame, que não serve senão para ir fazer um processo científico a venerandas instituições, que são a base da sociedade. O livre-exame é o princípio da revolução. A ordem o que é? – A aceitação das ideias adoptadas. Se se acostuma a mocidade a não receber nenhuma ideia dos seus mestres sem verificar se é exacta, corre-se o perigo de a ver, mais tarde, não aceitar nenhuma instituição do seu país sem se certificar se é justa. Teríamos então o espírito da revolução, que termina pelas catástrofes sociais …”
E, mais adiante: “Não menos maravilhoso parecia ao Conde o sistema das relações entre o estudante e o lente.
O hábito de depender absolutamente do lente, de se curvar servilmente diante da sua austera figura, de obter por meio de empenhos que a sua severidade se abrande, forma os espíritos no salutar respeito da autoridade. O sentimento excessivo da dignidade pessoal leva ao amor exagerado da independência civil. Cada um se torna por este modo o seu próprio dono, o seu chefe, o seu Rei, o seu Deus. É a anarquia! Assim educado, durante cinco anos, a curvar-se, a solicitar, a sorrir, a obedecer, a lisonjear, a suplicar, a depender, o bacharel entra na vida pública disciplinado, e, em lugar de ser o homem que quer tomar na vida o lugar que lhe convém …, vai humildemente colocar-se, com um sorriso, no lugar, na fila, no cantinho que lhe marcam os que governam. Assim se forma uma imperecível harmonia social.”

4 – Ora, andamos desde as Luzes e a Revolução Francesa a lutar pela consagração efectiva, pelos Estados modernos e civilizados, da inviolável liberdade de cada um e da intocável igualdade entre todos.
Enfim, pela dignidade essencial dos cidadãos.
As hierarquias, sem mérito que as sustente, que a praxe institui violam grotescamente esses princípios – e violam, nessa medida, a Constituição.
Constrangem a liberdade – e afrontam a igualdade.
Não podem ser toleradas: nem por nós, alunos, pais, cidadãos; nem pelas autoridades do Estado.
Mesmo que a propaganda procure ocultar a abjecção – sobretudo quando se quer ser convencido por essa propaganda.
Ora, o que o Estado tem dito, com o seu silêncio, aos “doutores” e “veteranos”, é mais em forma de assim:
É fartar, vilanagem. Vale tudo menos tirar olhos!
Que digo eu? Até tirar olhos vale!

Henrique Rodrigues – Presidente do Centro Social de Ermesinde

 

Data de introdução: 2014-02-04



















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