OPINIãO

Portugal, meu avozinho

1- Quando eu andava na escola primária – como então se chamava -, na transição dos anos 50 para os anos 60 do século passado, a parede junto do estrado onde se situava a secretária do professor – de frente para os alunos, portanto –, além das inevitáveis fotografias do Presidente da República e do Presidente do Conselho, respectivamente Américo Tomas e Oliveira Salazar, tinha igualmente pendurada uma espécie de quadro, com os dizeres: “Chamamo-nos Portugal e nascemos há 8 séculos.”
Havia, espalhados pelas paredes da sala, outros ícones gráficos: por exemplo, um mapa-mundi, onde se assinalavam com a mesma cor os territórios sob o domínio português, para dar com clareza a noção da extensão e da dimensão pluricontinental do Império, bem como um dístico com os mandamentos civis hierarquizados: “Deus, Pátria, Família”.
Toda essa parafernália iconográfica tinha a função de fazer nascer ou reforçar nos catraios o patriotismo acrítico que constitui ingrediente de todos os regimes autoritários, como era então o regime em Portugal.
Para tanto, realçava-se o que, da nossa história, podia ser apresentado como sucesso, dando aos miúdos que então aprendiam a ler, a escrever e a contar, a ilusão de que o país pelintra, injusto e pobre que conheciam de sua casa e da sua vida era afinal uma potência no concerto das nações.
Mas alguma verdade existia por trás da propaganda.
Na verdade, então era já de mais de 8 séculos o passado de Portugal como Estado independente – iniciado pelo fundador, Afonso Henriques, em data todavia incerta: para uns, a Batalha de S. Mamede, em 1128, em que o Rei Fundador afrontou a sua Mãe, a Condessa D. Teresa; para outros, o Tratado de Zamora, entre D. Afonso Henriques e o primo, D. Afonso VII de Leão e Castela, em 1143; para outros, finalmente, a outorga, pelo Papa Alexandre III, da Bula “Manifestis probatum”, reconhecendo a independência do novo Estado, em 1179.
Era verdade a propaganda: já tínhamos mais de 8 séculos.
E hoje já vamos em quase 900 anos de vida como Estado, a celebrar dentro de 15 ou 30 anos.
É incerto, como vimos, o ano da Fundação.
Mas já não o é o da Refundação, do início de uma nova era.
Esse será o ano de 2013 – este mesmo, em que nos encontramos.


2 – Não creio que D. Afonso Henriques, o Rei Fundador, tenha então conscientemente pensado que o seu acto inaugural iria prolongar o País durante tanto tempo.
Mas seguramente não terá configurado que um seu sucessor tardio viria a afirmar fruste e tíbio esse acto fundador, considerando que o Estado Português estava mal fundado, que os seus alicerces eram ilusões e quimeras – e que era preciso, portanto, fundá-lo de novo.
Quer dizer, refundá-lo.
Podíamos bastar-nos com uma simples Restauração, como com D. João IV e os 40 conjurados do 1º de Dezembro.
Isto é, limitarmo-nos a uma reparação, a um conserto, a uns melhoramentos … a um restauro!
Restaurar é, com efeito, pegar no mesmo e pô-lo melhor, mais apresentável.
Mas era pouco para tão vasta ambição: e a ambição é mesmo a da epopeia de fundar um outro País.
Não sei é se haverá bons soldados para tal combate.
Não vejo, na verdade, nas hostes do novo exército das Quinas, equivalentes contemporâneos de Egas Moniz, de Soeiro e Gonçalo Mendes da Maia, de Giraldo Geraldes, o Sem Pavor.
Soldados que construam um País – se País houver a construir – como um País deve ser: um território de coesão e de inclusão, onde caibam todos e todos sejam cidadãos de direito.
Um País que seja Portugal, como tão bem o caracterizou o poeta brasileiro Manuel Bandeira:
“Como foi que temperaste/Portugal, meu avozinho/Esse gosto misturado/De saudade e de carinho?/ … / Ai Portugal de Camões,/Do bom trigo e do bom vinho/Que nos deste, ai avozinho/Esse gosto misturado/ Que é saudade e que é carinho.”

3 – Os sinais que anunciam os novos amanhãs não são prometedores.
Não são só os bons soldados que não se vêem no horizonte.
Falta também quem cante a epopeia.
Um exemplo de um desses aedos da nova Cruzada: vem lavrando nas redes sociais um incêndio crescente de revolta e de desprezo, ateado por um deputado da maioria, Carlos Peixoto – é justo pôr-lhe o nome! -, que, do alto das suas funções de Pai da Pátria, achou apropriado, numa crónica publicada no ionline, que colocou no facebook e que fez publicar no jornal lá da terra, proclamar que a nossa Pátria tinha sido contaminada pela “peste grisalha”.
(“Peste”, certamente para se aproximar do espírito dos tempos iniciais, em que a peste dizimava reis e vassalos – embora nos tempos medievais a peste matasse as pessoas e para o nosso deputado a peste “sejam” as pessoas.)
Trata-se de um jovem deputado, que tem feito o seu percurso profissional e político entre fundações municipais e a Assembleia da República e que intuiu que o ar do tempo está de feição para proclamações fracturantes, de eugenia das gerações mais velhas, dos “avozinhos” de Manuel Bandeira – que são, segundo a propaganda oficial, um peso para o orçamento e um ónus para as novas gerações, com os seus “direitos adquiridos”.
Crónica, ademais, escrita em mau português, a fazer-nos recear que a refundação do País, com tais obreiros, venha a ser acompanhada também da refundação da língua.
(E podem fazê-lo.
Na verdade, segundo a versão vigente, o poder de legislar não deve conhecer limites, nada estando vedado à vertigem refundadora.
Já assim sucedeu com o incompetente Acordo Ortográfico, que nos quer obrigar a escrever à brasileira.
E, como o ministro Miguel Relvas prefere a inovadora forma “ouvisto” - “visto e ouvisto” - para o particípio passado do verbo ouvir, que nós estávamos habituados a formular pela forma, talvez grisalha, de “ouvido” – “visto e ouvido” -, ainda se lembram de fazer uma lei a mudar as regras da flexão verbal – já que a gramática constitui certamente uma obsolescência desse mundo antigo a exterminar!)

4 – Carlos Peixoto – é nome a reter, já que percorre caminhos de futuro.
Há-de chegar longe.
Ainda pensei se assim o devia apresentar, nominalmente, à admiração dos meus leitores.
Entendi que sim, e que ele merece a nitidez do nome na brancura da página.
Lembrei-me do O’Neill, no poema com que termino a crónica:
“Podes …, /pôr umas asas brancas, arvorar /um ar contrito, /dizer que não, que não foi contigo, /disfarçar-te de andorinha, de sobreiro ou de velhinha, /podes mudar de nome, de vila ou de cidade /- és como um percevejo num lençol.”

Henrique Rodrigues – Presidente da Direcção do Centro Social de Ermesinde

 

Data de introdução: 2013-02-08



















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