OPINIÃO

A semana de ouro

1 - Escrevo esta crónica entre o 25 de Abril e o 1º de Maio.
Trata-se da semana de ouro do nosso calendário cívico, ficando-lhe bem melhor a cor dourada do que à regra que querem levar à Constituição para o limite do défice.
Com os anos, vamo-nos afeiçoando mais a olhar para o nosso tempo passado do que a projectar-nos para o tempo futuro, cada dia mais escasso, que nos cabe.
Não se me levará a mal, portanto, que convoque o espírito da festa de 1974, dessa semana inicial, inteira e limpa, como escreveria Sophia de Mello Breyner, para tutelar a crónica e oficiar este encontro mensal com os leitores do Solidariedade.
“Uma terra sem amos” – era o que se cantava, antes e depois da Revolução de Abril.
Uma terra sem donos – diríamos na linguagem de hoje, já limpa da poeira e do jargão novecentista.
Mantenho essa ambição para Portugal: um país decente, um país de iguais.
Mas está ainda longe o dia em que todos estarão de pé, uns perante os outros: todos diferentes na sua individualidade; mas todos iguais nos seus direitos.
Ainda há muitos – há, aliás, cada dia mais - que têm de ficar rente ao chão, ajoujados ao peso do jugo, para que outros – poucos, e sempre os mesmos – possam sobre eles levantar-se.
Hoje mesmo a imprensa nos avisava, em mais um episódio dessa novela que já leva 4 anos de histórias mal contadas, de que o Estado Português vai assumir as dívidas da elite do Regime que se aboletou no BPN, somando 6.500 milhões de euros aos 3.500 milhões que já lá enterrou para safar a troupe e vender o banco aos angolanos.
São 5 anos de subsídio de férias e de Natal que serão confiscados aos pensionistas e reformados, só para cobrir os desfalques e o dinheiro mal ganhado que foi parar ao bolso de umas escassas dúzias desses artistas de várias modalidades.
E que nunca será cobrado aos devedores, como veremos.
(Embora a história do corte dos subsídios ainda vá ter muito para andar, já que, praticamente sem excepção, todos os constitucionalistas vêm advertindo de que esse confisco, no que toca às pensões e às reformas, é inconstitucional e como tal será declarado pelo Tribunal Constitucional, se o julgamento for feito por juízes e não por comissários políticos.)

2 – Não é só neste plano mais rasteiro, de, através do Estado, essa gente nos vir impunemente roubar que se percebe que a ideia de igualdade entre todos os portugueses ainda não vingou.
Uns são, na verdade, mais iguais do que os outros.
As comemorações do 25 de Abril, há dias, mostraram-nos o mesmo, agora a nível mais elaborado, no plano simbólico.
O que o 25 de Abril nos trouxe, após alguma perturbação inicial, foi apenas a democracia.
Mas isso é tudo: podermos escolher, em liberdade, quem queremos que nos governe e podermos remover do mando quem achamos que merece ser expulso.
É o que temos feito.
O 25 de Abril, no que é a sua herança estabilizada há muito, não é um programa de Governo, nem um manifesto ideológico.
Não pode ninguém pôr-se de cima, à varanda, a decretar quem tem ou não direito de comemorar a Revolução Democrática de Abril ou a atestar que Governos cumprem ou não a herança dessa Revolução.
Nem o dr. Mário Soares.
É certo que o dr. Mário Soares foi adquirindo, com o tempo, uma espécie de estatuto de impunidade, como os príncipes do Renascimento – aos quais Maquiavel anotou o privilégio de estarem acima da lei.
Nada se lhe leva a mal.
É em função desse estatuto que não se percebe como alguém possa ter tido o atrevimento de mandar parar o automóvel em que viajava com excesso de velocidade e que se ofende se é multado pela Polícia, como se fosse um de nós.
Não se questiona que lhe sejam atribuídos pelo Estado, enquanto ex-Presidente da República, como sucede, pensão vitalícia, carro, motorista e outras mordomias.
(Embora já não sejam efeito necessário das funções que exerceu os recursos públicos que têm sido igualmente atribuídos à Fundação Mário Soares.)
Mas essas regalias têm na outra face o cumprimento de deveres: e um deles será, seguramente, além de comemorar a Revolução no sítio privilegiado dela, o Parlamento, o de convencer, por palavras ou por gestos, de que se considera um português como os outros.
Porque isso já tem que ver com a herança de Abril, que lhe é tão cara.

3 – Aqui há uns anos, Miguel Sousa Tavares, numa crónica num jornal, lembrava que tinha aprendido de sua Mãe, Sophia de Mello Breyner, que pela cara de um sujeito se lhe tirava a pinta do carácter.
Que lhe bastava olhar para uma cara para saber se estava perante um vigarista ou um homem honrado.
Concordo.
Essa foi uma das razões por que, numa das minhas variadas deambulações eleitorais, contribui para eleger Miguel Portas.

(P.S. – Embora por razões que me são alheias, o texto da última crónica que publiquei no Solidariedade não saiu bem: para além de a formatação do texto, nomeadamente a divisão em parágrafos, não corresponder à do texto por mim elaborado, ocorreu também a eliminação dos travessões, figurando como texto seguido o que eram segmentos intercalados, definidos pelos referidos travessões, tornando incompreensível o sentido de várias frases; ocorreu ainda a eliminação de umas aspas, na expressão latina “favor laboratoris” – em português “em benefício do trabalhador -, o que conduziu a ilegibilidade do texto no contexto referido.
Sou muito sensível no que toca ao respeito pela língua e pela sua escrita.
Peço desculpa, embora sem culpa, aos meus leitores.)

HENRIQUE RODRIGUES - Presidente do Centro Social de Ermesinde

 

Data de introdução: 2012-05-06



















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