É preciso fazer muito mais e melhor com menos

A propósito da Conferência organizada pela União Distrital das IPSS de Aveiro sobre o tema ‘Os Novos Desafios da Solidariedade’, a cuja Direcção apresento os meus parabéns pela iniciativa, pois torna-se necessário, cada vez mais, a sociedade civil tomar iniciativas que conduzam à informação, ao debate das ideias e obviamente a mais democracia, decidi incluir no meu texto mensal, pela sua oportunidade, alguns excertos do texto que foi apresentado naquela conferência.

A questão coloca-se pois em saber quais são as nossas Forças, Fraquezas, Oportunidades e Ameaças que temos de fortalecer e inovar para as enfrentar, tendo em conta os novos e enormes desafios que o exercício da Solidariedade nos traz no presente e no futuro.

AS NOSSAS FORÇAS
Permitam-me salientar a excepcional contribuição que Sua Excelência o Sr. Presidente da República, Prof. Cavaco Silva, tem dado ao tema da Solidariedade, por ter decidido escolher como temas iniciais e principais do exercício da sua magistratura, a luta contra a exclusão social, a pobreza e o exercício da Solidariedade, que, através da sua voz e das visitas que tem realizado a locais problemáticos e aos bons exemplos de instituições IPSS, tem trazido uma dimensão acrescida e uma exposição aos ‘média’ que coloca o tema da Solidariedade, de forma muito forte, no topo da Agenda política.

A FORÇA das IPSS que, através do grande esforço de todos os seus trabalhadores, dirigentes e os milhares de voluntários que nelas participam de vários modos, dão corpo ao exercício da Solidariedade, através das mais variadas respostas que são transversais à sociedade portuguesa. Esta Força das IPSS expressa-se ainda de modo esforçado e competente na utilização dos escassos recursos que lhes são facultados.

AS NOSSAS FRAQUEZAS
As Fraquezas são muitas e de vária ordem, envolvendo vários actores, dos quais irei referir apenas quatro: o Governo, as Autarquias, as Instituições e os ‘média’.
O Governo, que, certamente, todos reconhecemos que apesar do esforço que tem realizado na tentativa de fornecer alguma credibilidade ao país (através da tentativa de atenuar os desequilíbrios provocados por privilégios injustificáveis e os défices em qualificações pessoais e desenvolvimento económico, e que ao mesmo tempo está cercado pela necessidade da consolidação financeira do orçamento, e ainda assim, a sua política expressa de dar relevo à vertente social), tem ficado aquém das expectativas de todos nós e tomado decisões, no âmbito do ATL e outras, altamente prejudiciais às IPSS, e cujas consequências todos conhecemos, causando perturbações na sua gestão afectando negativamente a sua estabilidade ao nível dos recursos humanos e da sustentabilidade financeira e em consequência o nível das respostas à Solidariedade, certamente estes efeitos negativos eram evitáveis se o governo tivesse envolvido as IPSS na definição da sua estratégia e objectivos a atingir naqueles campos que são tão difíceis.

As Autarquias, por alguma indiferença, salvo honrosas excepções, à acção das IPSS, mas também pela tentativa de concorrência, em vez de optar pela cooperação em algumas valências, caso do ATL e outros, que com maior espírito de parceria a Solidariedade seria muito mais bem servida.

As Instituições, pelo seu auto isolamento no seu concelho dado praticamente não existir trabalho em rede entre elas (haverão certamente muitas e boas excepções), pela carência de algumas capacidades de gestão (cujas exigências são cada vez maiores e mais complexas) no planeamento estratégico, no estabelecimento dum ambiente de aprendizagem organizacional, na orientação para o mercado, e na ausência de alinhamento de estratégias e objectivos globais, sectoriais e individuais (certamente também haverão IPSS que fazem excelente trabalho nestas áreas).

Os Média, pela quase total ignorância e indiferença pela acção das IPSS que, falhando na divulgação e valorização dos casos de sucesso e nos valores e princípios da Solidariedade e o falhanço na organização de debates frequentes e programas específicos, contribuem através da omissão, para o acumular da falta de informação, obscurantismo e das dificuldades na redução dos problemas da exclusão, do desemprego e das respostas mais eficazes aos desafios da Solidariedade.

AS OPORTUNIDADES
As oportunidades são evidentemente, as carências nas acções e as omissões que foram identificadas como fraquezas aos respectivos Actores no capítulo precedente, serem transformadas em Forças através da realização efectiva de acções positivas e da valorização e prática do espírito do serviço, da parceria, do envolvimento, do debate e do compromisso.
Ao Governo, Autarquias e Instituições penso que todos tem de FAZER MUITO MAIS E MELHOR COM MENOS, os recursos humanos, físicos e financeiros são escassos ou em alguns casos muito insuficientes, mas todos, mas mesmo todos temos de assumir esta realidade que é a de que temos de ser todos muito melhores do que temos sido, se queremos vencer os desafios da Solidariedade e levar este país para a frente, que todos nós sabemos que, embora muito pequeno, foi muito grande no passado, cabe-nos a nós desempenhar agora esse papel aqui e agora.

Uma referência específica para as Instituições que é a necessidade de melhorar e aumentar o seu âmbito de acção afim de conseguirem antecipar as mudanças, e conseguir respostas mais consistentes e em tempo útil.

Penso que os seguintes necessitam de alguma reflexão pelas IPSS:
1) Melhorarem as suas capacidades e competências técnicas nos campos do planeamento estratégico, definição de políticas e estratégias, estabelecimento de objectivos, um ambiente de aprendizagem organizacional, uma orientação para o mercado, mais eficiência no desempenho e orientação para a satisfação dos utentes e outras partes interessadas.

2) Adoptarem medidas para obterem outros recursos financeiros, que não apenas, os subsídios do Estado e as receitas provenientes das mensalidades pagas pelos utentes, é indispensável identificarem outras origens e apoios privados e tomarem iniciativas na organização de eventos de angariação de fundos.

3) Cooperarem e funcionarem em rede localmente e regionalmente de forma a ser possível maior aproveitamento de sinergias, recursos e maior abrangência nas respostas aos mais necessitados.

4) As relações com as Autarquias devem ser de cooperação e complementaridade com o objectivo de pensar na satisfação dos utentes e na utilização mais eficiente dos dinheiros públicos. É necessário estabelecer mais Parcerias com o objectivo específico de combater a exclusão, a pobreza e o desemprego. Penso que estes são problemas que tem de ser resolvidos em conjunto pelas IPSS, outras partes interessadas e autoridades locais, um Presidente de Câmara tem de assumir que estes são problemas seus e deve cooperar com os parceiros adequados para os resolver, e não de atirar a responsabilidade da sua resolução para o governo, que está longe.

5) As IPSS tem de ser mais efectivas, no sentido de influenciar mais os poderes públicos, sendo necessário construir uma grande plataforma social incorporando as organizações de cúpula agora existentes como a CNIS, União das Misericórdias e Mutualidades afim de criar uma forte união das organizações do serviço social sem fins lucrativos, para assim serem mais efectivas com os poderes públicos.

6) As IPSS tem de conhecer melhor e estabelecer um relação recíproca com os chamados Stakeholders (Partes Interessadas) com quem funcionam, por exemplo:
- os utentes alvo (utilizadores dos serviços)
- os concorrentes ( em termos do acesso aos recursos)
- os intermediários (decisores, famílias, grupos de referência)
- os doadores (particulares e públicos)
- os reguladores (O Estado, a tutela, o reconhecimento que estes devem ter pelas IPSS)
- os trabalhadores da instituição (gestores, assalariados, voluntários)

AS AMEAÇAS
A dificuldade que Portugal está a encontrar para atingir o nível médio de crescimento económico da União Europeia, o que em conjunto com as necessidades de consolidação orçamental, é de facto um obstáculo ao desenvolvimento e talvez à manutenção do nível actual de segurança social e financiamento da solidariedade.
A nossa postura individual, em que tudo exigimos do Estado e nada queremos dar em troca, geralmente não queremos e evitamos pagar impostos; procedendo assim como queremos melhorar as nossas condições e principalmente as dos nossos filhos se enjeitamos agora essa responsabilidade ?.

A ameaça do SILÊNCIO da Sociedade Civil, perante todo este cenário de crise em que estamos mergulhados, é necessário a emergência da sociedade civil no debate de todas as questões económicas, sociais e ambientais. O envolvimento pelas autoridades é fundamental, mas se esse envolvimento não acontecer tem de ser a sociedade civil, ela própria, a tomar a iniciativa de através de Encontros, Conferências, Seminários, etc.

Concluindo, penso que todos temos de fazer uma auto avaliação aos nossos consumos e condutas, temos de reexaminar os nossos objectivos e padrões de vida, é necessário voltar aos princípios éticos, morais e de serviço ao próximo.

* Economista. Presidente do Conselho Fiscal do Centro Social Paroquial de Azambuja

 

Data de introdução: 2006-11-12



















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