ANTÓNIO JOSÉ DA SILVA

Os populistas e o descrédito do populismo

Nas últimas semanas, foram muitas as notícias protagonizadas por políticos que cultivam aquilo que vulgarmente se chama populismo, um vírus que vem marcando fortemente a vida política de muitos países. Embora o conceito de populismo não seja unívoco, pode dizer-se que ele não designa propriamente uma ideologia, catalogada como sendo de esquerda ou de direita, mas sim um estilo de governação baseado em respostas simplistas para os problemas pontuais e imediatas do povo. Ou, pelo menos, de uma parte do povo com o qual o líder faz questão de se identificar. De qualquer modo, se nem sempre é fácil definir o populismo, não parece muito difícil identificar os políticos a que chamamos populistas.

Embora oriundos ou próximos de ideologias diferentes, os políticos populistas apresentam geralmente alguns traços comuns. Defendem, geralmente, um patriotismo a toda a prova, mas confundem muitas vezes esta virtude com nacionalismo doentio e xenófobo, descobrindo sempre inimigos de estimação a quem podem responsabilizar pelas dificuldades que atingem o seu povo que, assim, pode ser facilmente manipulado e mobilizado contra um inimigo comum, real ou inventado. Tendem ainda a fazer do exercício do poder uma missão de tipo mais ou menos messiânico e, com essa tendência, procuram encobrir os seus tiques ditatoriais. O populismo é um vírus que está espalhado por muitos países e regiões do mundo, desde o continente asiático aos restantes continentes. Podemos assim registar alguns dos seus exemplares mais notórios nos tempos que correm, acreditando que a grande ameaça que esse populismo enfrenta advém dos seus próprios intérpretes, alguns dos quais tudo parecem fazer para o desacreditar.

Começamos naturalmente por Donald Trump, o presidente daquela que é ainda a mais forte das potências mundiais. Já é cansativo recordar aqui o eco profundamente negativo da maioria das suas intervenções políticas, e dizemos profundamente negativo, quer no conteúdo quer na forma de que se revestem. De qualquer modo, a última dessas intervenções, relativa à utilização de desinfectantes no combate à Covid terá excedido tudo o que seria desculpável para quem foi investido no exercício daquelas funções.

Ainda no continente americano, temos o caso de Jair Bolsonaro, o populista que é presidente do Brasil. Depois das suas declarações iniciais e polémicas sobre esta pandemia, ele veio agora agitar a política brasileira com intervenções públicas que se situam na área da aplicação da justiça, isto em casos que envolvem os seus próprios filhos. Para todos os que defendiam e defendem a sua incapacidade legal para continuar na presidência do país, este foi o melhor argumento com que poderiam sonhar na campanha pela sua demissão. Trata-se de um argumento que o próprio Bolsonaro acabou por lhes oferecer, dando assim razão a quantos que pensam que os grandes golpes contra o populismo político vêm precisamente de alguns dos seus intérpretes mais conhecidos, por estarem a desacreditar por completo o seu comportamento político.

 

Data de introdução: 2020-05-06



















editorial

PANDEMIA . VACINAÇÃO . PRESIDENCIAIS

Antes das festas da quadra natalícia, verificava-se uma tendência de descida da epidemia de COVID-19 em Portugal. Tendência, porém, que não se consolidou. Pelo contrário: confrontamo-nos agora com um número de contágios e de...

Não há inqueritos válidos.

opinião

EUGÉNIO FONSECA, PRES. CONF. POR. DO VOLUNTARIADO

Estratégia Nacional de Combate à Pobreza
Quando escrevo este texto de opinião ainda nada se sabe das conclusões da Comissão, criada para o efeito, e que era suposto ter terminado o seu trabalho no passado dia 15 de dezembro....

opinião

JOSÉ LEIRIÃO

A Prenda de Natal
Para responder à mais profunda crise desde a segunda guerra mundial, a União Europeia, após alguns fracassos devido à oposição de alguns Estados Membros,...