HENRIQUE RODRIGUES

Hay Gobierno? Soy contra!

1 - É célebre a expressão, atribuída por uns a Che Guevara, por outros a um anarquista mexicano, que constitui o título desta crónica: Hay Gobierno? Soy contra!

Claro que se trata de uma utopia, a de um território sem poderes do Estado e deixado à livre regulação dos indivíduos, como é da tradição anarquista.

E as utopias, sobretudo quando pretendem organizar a vida de uma sociedade, têm-se transformado em regra em universos concentracionários, onde, a pretexto de um futuro radioso, que todavia nunca chega, se sacrificam as liberdades dos que vivem no presente.

No entanto, e aceite o predomínio da razão crítica, não deixa de nos permanecer no espírito essa espécie de memória primordial e o sabor desse veneno de uma liberdade individual sem outro limite do que os outros e a sua própria liberdade.

De modo que tenho procurado manter como regra individual essa espécie de dúvida metódica sobre os méritos ou os deméritos dos diversos Governos que, consoante os turnos, me têm pastoreado – nem sempre me conduzindo a verdes prados, é certo …

E aplico-lhes os critérios com que escolho os melões da minha terra, chamados de “casca de carvalho” – caríssimos (como os Governos), em regra abóboras (como os Governos), de vez em quando “au point” (como raramente os Governos).

Mas só se sabe que classificação lhes cabe, abrindo-os e experimentando-os.

Desde 1975 que cumpro, com religiosa perseverança, o dever e o prazer de votar – em todas as eleições.

Tenho variado muito, ao longo dos anos, nas minhas escolhas: as expectativas são, em regra, escassas e castigo mais do que premeio.

Algumas vezes, tenho escolhido o vencedor, que tem formado Governo.

É com esses que sou mais exigente; mas não há maneira de ficar depois satisfeito com o desempenho – e toca a defenestrá-lo na primeira oportunidade.

De qualquer modo, louvaminhas a quem manda já há muito quem faça – e com proveito: esses que promovem a pitonisas os governantes, mal estes tomam posse, da boca dos quais passam a só sair pérolas ou dogmas, verdades indiscutíveis, sob pena de excomunhão.

Mesmo que sejam notórios disparates.  

Prefiro, pois, ficar do lado da crítica, da reticência, da contradição - do “doce veneno da dúvida”, como lhe chamava David Mourão-Ferreira.

 

2 – Por cá, temos Governo novo, com programa por estrear.

O PS abandonou os seus “compagnons de route” dos últimos quatro anos, passando a governar à vista, à moda dos novos costumes sociais e familiares: em vez do casamento da Geringonça, união de facto: sem papéis.

A formulação e estrutura do Programa de Governo apresentado e aprovado no Parlamento apresenta muitas diferenças relativamente ao anterior; digo melhor, aos anteriores.

Parece muito proclamatório, com excessiva componente retórica e com muita vacuidade em matéria de substância.

No entanto, como os Programas de Governo não são para cumprir, mas apenas para desobriga do preceito, daí não virá mal ao mundo …

Como escrevi acima, e como sucede com os melões, só depois de abertos é que se lhes conhece o sabor e o cheiro.

Há, no que me parece adequado resumo, dois tópicos que assumem particular relevo: a questão do abandono e desertificação do interior do País, e a vontade de reverter esse caminho; e a questão das alterações climáticas, que constitui hoje preocupação universal e que é tratada transversalmente – palavrão hoje muito na moda quando se prometem generalidades.

Deixo para uma próxima crónica o que penso sobre a reanimação do Portugal Antigo, e o papel da regionalização para uma verdadeira devolução de poderes.

Quanto ao enunciado no Programa do Governo no que toca às alterações climáticas, ele representa a preocupação com o futuro a médio e longo prazo, prevendo-se a degradação das condições de vida dos nossos filhos e netos.

Trata-se, certamente, de um diagnóstico respeitável; mas a capacidade e a vontade de intervenção do Governo nesse domínio será porventura escassa.

Por um lado, trata-se de um fenómeno com origem no modelo global do desenvolvimento do capitalismo, a nível mundial, e dos efeitos que o aumento da produção industrial, designadamente na China, causará no clima mundial – em benefício da saída da pobreza extrema de milhões de chineses.

Por outro, e como é típico das democracias liberais, os Governos têm ciclos de vida curtos – em Portugal, quatro anos -, sendo difícil abraçar causas cujos efeitos só serão apercebidos a médio ou longo prazo, já há muito terminado o mandato do Governo em causa.

Os Governos trabalham para as eleições seguintes; e esse modo de actuação é pouco compatível com um tempo longo para os resultados.

 

3 – Por outro lado, a enunciação dessa preocupação com o mundo que vamos deixar à nossa descendência constitui um tópico perene.

É certo que a antevisão que hoje fazemos do futuro é mais catastrofista do que a que os nossos pais faziam para o nosso tempo.

Como diz, e bem, o Bloco de Esquerda – secundado por Rui Rio -, não há planeta B.

Mas já este pessimismo – temperado com a esperança -, quanto ao futuro, atravessava o tempo da geração que nos precedeu.

Faz por estes dias 100 anos que nasceu Jorge de Sena; que, na “Carta aos Meus Filhos Sobre os Fuzilamentos de Goya”(x), escreveu:

“Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.

É possível, tudo é possível, que ele seja

Aquele que eu desejo para vós /…/

Um mundo em que tudo seja permitido,

conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,

o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.

/…/ E, por isso, o mesmo mundo que criemos

nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa

que não é só nossa, que nos é cedida

para a guardarmos respeitosamente

em memória do sangue que nos corre nas veias,

da nossa carne que foi outra, do amor que

outros não amaram porque lho roubaram.”

(Jorge de Sena, Metamorfoses, poema escrito em Junho de 1959)

 

Henrique Rodrigues – Presidente do Centro Social de Ermesinde   

 

Data de introdução: 2019-11-07



















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