JOSÉ TIAGO SOUSA, FUNDADOR DA SOLIDARITY SOUL

Se pensarmos só em ajudar o vizinho, ninguém ajuda os sírios fugidos da guerra

José Tiago Sousa é natural de Mindelo, Vila do Conde, tem 24 anos, cursou Economia e está em fase de terminar o mestrado em Finanças.
Fundador da Solidarity Soul, o aluno da Faculdade de Economia do Porto foi o grande vencedor do Prémio Cidadania Ativa, na vertente humanitária, da Universidade do Porto, prémio que recebeu das mãos do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.
O jovem, treinador «encartado» da arte marcial Kung Do Te, diz-se tocado pelo «bichinho» da solidariedade e do voluntariado “pelo gosto pela Filosofia”, em especial devido ao livro «Ética para um jovem», de Fernando Savater, e pela experiência em Norcia, no auxílio às vítimas do terramoto, em 2017.
Na entrega do Prémio, o Chefe de Estado gracejou com José Tiago Sousa, dizendo-lhe: “Com que então, Finanças e Cidadania!”.
De facto, e olhando à temática da tese de mestrado – responsabilidade social do sector bancário –, aparentemente são dois universos distintos ou, talvez, não!

SOLIDARIEDADE – Profissionalmente quais são as suas ambições e perspetivas nessa área?
JOSÉ TIAGO SOUSA – Bem, em termos de saídas, pode ser na banca, em auditoria e outros, já em termos de ambição profissional ainda está muito indefinido. E agora ainda está mais, porque estive doente e passei uma fase complicada em termos de saúde mental, devido à grande sobrecarga que acumulei. É importante falar disto, porque é preciso sensibilizar as pessoas, mas ainda tenho essa questão indefinida. Estou ainda a elaborar a minha tese sobre a responsabilidade social do sector bancário, que é algo que conjuga a área social, aproveitando a experiência que tenho, com a área financeira.

E poderá ser nesse âmbito, mais alargado, que poderá construir o seu futuro profissional?
Gostaria muito de trabalhar na área da responsabilidade social, quer fosse no sector bancário, quer fosse noutra empresa, agora isto levanta dificuldades, porque não está muito desenvolvida. Talvez seja uma área de futuro e que só ainda não esteja muito concretizado atualmente.

E quando sentiu a picada do «bichinho» da solidariedade e do voluntariado?
Penso que tem também que ver com o gosto pela filosofia e a questão da ética. Falo muito do livro «Ética para um jovem», porque nos coloca questões como a de nos pormos no lugar dos outros. Mas julgo que o grande momento foi ter estado em Norcia, em Itália, na primeira missão do European Solidarity Corps a apoiar vítimas de terramoto num contexto muito difícil. Esse foi o momento e foi aí que nasceu a ideia de criar a Solidarity Soul.

Então, foi essa experiência que espoletou…
Sim, e por várias coisas, porque parece-me que a solidariedade é um bocado limitada a certos estereótipos. Por exemplo, há sempre quem pergunta porquê ajudar um país estrangeiro quando há tanto para fazer aqui, mas a verdade é que, em Norcia, houve um terramoto, sentia-se a tristeza nas pessoas que estavam nas instalações provisórias, as vidas que se perderam e os lamentos dos familiares. A verdade é que se só pensarmos em ajudar o vizinho, ninguém ajuda África. Se pensarmos só em ajudar o vizinho, ninguém ajuda os sírios que fogem da guerra. Mas há mais situações, esta é só uma imagem que substitui um conceito muito grande.

E porquê dar esse passo e criar a Solidarity Soul?
Houve várias ideias que me levaram a avançar, desde logo, o poder fazer iniciativas próprias. Por exemplo, como as intervenções na Reserva Ornitológica de Mindelo (ROM), pois sentia que era muito necessária. Nós organizámos duas limpezas, que foram duas grandes limpezas. Posso dizer que somos uma pequena organização que já fez coisas grandes. Uma dessas intervenções, em que estiveram mais de 40 voluntários, limpámos duas toneladas de lixo debaixo de chuva. Agora, de facto, é muito mais difícil ter uma organização do que simplesmente participar, ser voluntário.

Quem constitui a Solidarity Soul?
Somos um conjunto de pessoas, mas tende a ser eu a fazer mais coisas. No entanto, somos um grupo de voluntários, atualmente somos 15, mas já fomos mais, essencialmente oriundos da Universidade do Porto. O Miguel Pinto, que é o nosso vice-presidente, tem também dado um contributo bastante importante.

E é fácil recrutar voluntários na Universidade do Porto?
É difícil, há inúmeras dificuldades, desde os recursos humanos, aos apoios financeiros, que são muito poucos, mas a Universidade do Porto ainda assim foi considerada a mais solidária do país. A avaliação foi feita pelo número de candidaturas de voluntários a prémios, como o do Santander e outros. Por isso, recebeu essa menção e eu acho justo porque dá apoio, inclusive temos uma sala, que é a nossa sede, cedida pela Universidade a preço simbólico no centro do Porto. Há de facto essa preocupação com a responsabilidade social, mas há outras dificuldades… Por exemplo, na época de exames ficamos mais parados, porque há o estudo e cada um tem a sua vida. Uma coisa que acho engraçada nas Associações de Estudantes é que têm sempre um Departamento Cultural muito forte, que é um eufemismo para festas. Por isso, preocupa-me um pouco a sucessão, porque é preciso sempre alguém para liderar o barco, principalmente quando começar a trabalhar, pois esta é uma organização do seio académica.

Nesse momento, em que sair da Solidarity Soul, como vai ser?
Quero manter este espírito voluntário e, como disse, gostava de trabalhar na área da responsabilidade social. Porém, o futuro é sempre uma incógnita.

Para além desta vertente mais ambiental de que já falámos, A Solidarity Soul também faz voluntariado em IPSS?
Sim, fazemos no Centro Social da Sé Catedral do Porto, que fica na Batalha, no apoio ao idoso e no apoio educativo. Já realizámos também uma ação no Hospital de São João, em parceria com a associação de voluntariado de lá.

E no Centro Social que tipo de atividade fazem os voluntários?
Acima de tudo, companhia aos idosos, passar tempo com eles, jogar cartas… Já o apoio educativo é dar explicações a crianças de um contexto social um pouco marginalizado.

E o que significa ter recebido o Prémio Cidadania Ativa, na vertente humanitária, da Universidade do Porto?
Receber este prémio foi muito importante, sobretudo por tê-lo recebido das mãos do Presidente da República. Significa o reconhecimento da participação ativa que tenho na área da cidadania e conjuga com outras vertentes da cidadania, como a vertente desportiva, o ser vogal do Conselho Pedagógico da Faculdade de Economia. É um reconhecimento muito importante para mim, para o que contou muito também as experiências em Norcia (2017) e na Polónia (2018), ter participado no intercâmbio europeu para a avaliação do património cultural e marítimo em Sète (França) e ainda no UNICAH Campus (campus humanitário), em Las Palmas (Espanha), em que representei a Universidade do Porto, e também ter integrado o «Training Course», da Agência Alemã para a Cooperação Internacional, em Bona.

Pedro Vasco Oliveira (texto e foto)

 

Data de introdução: 2019-08-20



















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