CIRE - CENTRO DE INTEGRAÇÃO E REABILITAÇÃO DE TOMAR

Desejo de ampliar o lar residencial travado pela falta de financiamento

O grande desejo dos dirigentes do CIRE, de Tomar, era conseguirem contornar as dificuldades de financiamento e levar avante o projeto de ampliação do lar residencial, de 14 para 30 camas, e da criação de uma residência autónoma, para cinco utentes. Porém, a vontade do CIRE é travada pelas dificuldades financeiras, que, em certa medida, são agravadas pelos constas e prolongados atrasos no pagamento das formações. Para piorar a situação, não abriram candidaturas na região centro para realizar este tipo de investimentos.

Bem se pode dizer que o CIRE – Centro de Integração e Reabilitação de Tomar é filho do Verão Quente de 1975, apesar de não ter sido o momento político que Portugal viveu a ditar a criação da instituição que trabalha na área da deficiência.
“Esta casa tem uma história muito engraçada. Tudo começou em 1975, numa época em que as pessoas de extrema-esquerda andavam a ocupar casas, entre as quais uma vivenda junto à praça de touros. Entretanto, os sócios fundadores desta casa conseguiram convencer algumas dessas pessoas de que precisavam de uma casa para dar início à atividade da instituição”, conta o presidente Luís Salgueiro, que acrescenta: “Posteriormente, os sócios fundadores conseguiram legalizar a situação com os proprietários e fizeram um trabalho extraordinário para conseguir equipar a casa e comprar a primeira carrinha”.
Decididos em criar uma instituição que apoiasse as pessoas com deficiência de Tomar, “numa altura em que não havia apoio para as pessoas com deficiência como há hoje, todo o caminho, que a instituição teve nesse espaço, foi uma luta imensa”, afirma o presidente eleito em 2017 e na sua primeira experiência nos órgãos sociais do CIRE.
Mais tarde, a instituição mudou-se para um outro espaço, que “ainda hoje é a sede do CIRE e onde funciona ainda o Apoio Sócio Educativo, o CRI e a creche”, mas é , por volta de 1990, quando se transfere para o equipamento onde agora funciona, que “o CIRE ganha dimensão, sendo hoje uma instituição muito grande, muito respeitada e reconhecida”, sublinha Luís Salgueiro, dizendo, com orgulho, que “a imagem que a instituição tem na comunidade é muito boa”.
O novo equipamento foi construído por fases e por valências, tendo começado, em 1990, com o Centro de Reabilitação Profissional (CRP).
Atualmente, o CIRE tem sete valências, a saber: CAO (90 utentes), CRP (64), Lar residencial (14), CRI (150 alunos apoiados nas escolas), Núcleo Local de Inserção (250 famílias, cerca de 800 pessoas), creche familiar «Miminhos» (59 bebés e 15 amas) e ainda Apoio Sócio Educativo (16).
Para acompanhar todos estes utentes, a instituição tem um corpo de 105 funcionários (entre trabalhadores do quadro e prestadores de serviços).
Tal como muitas outras IPSS espalhadas pelo país, as necessidades da comunidade exigem investimentos, mas falta-lhe capacidade financeira para os mesmos.
“Muitos dos nossos utentes vêm de agregados familiares com muitas carências. Por exemplo, se os orçamentos fossem autónomos por valência, a creche não se aguentava, tal como o Apoio Sócio Educativo. Todos os anos temos respostas que dão milhares de euros de prejuízo, porque são valências que dão resposta a famílias descaracterizadas e algumas sem rendimentos, o que não nos possibilita aumentar as mensalidades. O Estado manda a verba certa, sem qualquer atraso, mas se autonomizasse as valências algumas fechavam no mês seguinte. Por exemplo, o valor atribuído ao Núcleo Local de Inserção é o mesmo há 12 anos, nunca foi atualizado. Neste caso, a verba que vem nem para os salários dá! Ainda assim, o CAO e as formações é que vão equilibrando as contas. O que nos causa mais problemas é a Formação, por causa dos atrasos”, afirma o presidente do CIRE.
A questão dos atrasos no pagamento das formações é igualmente transversal a todas as instituições que são entidades formadoras nesta área da deficiência.
“O que acontece é que a instituição é entidade formadora, mas para ter formações tem que garantir o financiamento e enquanto o dinheiro não vem, a casa tem que o assegurar. Mas como fazê-lo se não tem capitais próprios? A instituição tem que recorrer à banca, o que custa milhares de euros e a aflição todos os meses, porque nunca sabemos quando vem o dinheiro. A verdade é que ainda somos credores de seis meses relativos a 2017, apesar de já ter chegado algum dinheiro deste ano, mas que já foi gasto, claro”, acusa Luís Salgueiro, sublinhando: “A maior dificuldade é esta, porque o dinheiro é gerido dia-a-dia e ao tostão, pelo que era melhor que viesse em duodécimos. Esta questão do financiamento é o maior problema e não é de agora, é já de há muitos anos”.
Por tudo isto, o presidente da instituição de Tomar, sustenta que a situação financeira do CIRE “está bem, mas estes atrasos no pagamento das formações acarretam problemas”.
Para além disso, “poderia haver algum dinheiro para investir na casa, mas é preciso travar, pois a gestão tem que ser feita ao dia”, afirma, lamentando a “falta de capacidade de investimento” para os projetos que pretendem implementar.
“Temos uma excelente relação com a banca e quando precisamos de dinheiro conseguimos, mas temos que impor limites, pois não podemos fazer loucuras que ponham em causa a sustentabilidade da instituição”, argumenta, revelando: “Ainda no último exercício registámos 20 mil euros de resultado positivo, mas depois com os juros que temos que pagar à banca, ficámos novamente a zero. Já com as amortizações, ficámos com um resultado contabilístico negativo de 60 mil euros. O resultado de exploração tem sido sempre positivo. Agora, se os dinheiros da formação não atrasassem, a gestão seria diferente e não teria que ser feita ao dia. Por outro lado, daria para fazer alguns investimentos e lançar mais projetos, que os temos, mas não temos financiamento. Não podemos ter um plano de investimentos. Por exemplo, sei que vou pagar os vencimentos ao pessoal no fim do mês e os impostos, ainda não sei é como… É uma ginástica muito grande e só o enorme gosto pela instituição que todos temos permite fazermos o trabalho que fazemos”.
Entre os vários projetos que a atual direção tem, o principal é a ampliação do lar com o único intuito de responder a uma necessidade que a Segurança Social diz não existir, mas que o CIRE sente todos os dias.
“A nossa maior necessidade é ampliar o lar residencial, que atualmente tem 14 camas e gostaríamos de passar para 30. Temos o projeto feito e tudo tratado, mas agora não abrem candidaturas nem para lares nem para residências autónomas. Nós temos o lar e queríamos criar uma residência autónoma, porque houve uma mãe que doou uma casa aqui nos arredores e que precisávamos de preparar para cinco utentes. A prioridade é o lar, que juntamente com as cinco vagas da residência, já daria resposta à lista de espera e, por certo, mais pretendentes apareceriam”, sustenta Luís Salgueiro.
O projeto, hoje, custaria cerca de 600 mil euros, mas “o problema é o financiamento e não abriram candidaturas para a região centro”, lamenta, lembrando a resposta que ouve da Segurança Social: “A resposta que nos dão é que aqui ainda não se justifica criar mais vagas, mas o que é certo é que na nossa realidade justifica-se e muito. A família da maioria dos utentes é a instituição. Sem financiamento não conseguimos avançar e mesmo assim ainda calhava ao CIRE qualquer coisa como 100 mil euros”.
Para além destas respostas tipificadas que a instituição dá, o CIRE tem ainda um conjunto de atividades que visam estimular ainda mais a integração dos seus utentes. É nesse sentido que surge o rancho folclórico e o grupo de teatro, que frequentemente leva a instituição (às) comunidade(s). 
Visando o empoderamento dos jovens que frequentam a instituição, foi criado o GAU – Grupo de Auto Representação, no qual “um grupo de jovens utentes, apoiados por técnicos, reúnem todos os meses para debaterem assuntos da vida diária”, explica José Lagarto, assessor da direção, acrescentando: “É uma espécie de assembleia, que pretende estimular o sentido crítico, a opinião e a sensibilidade sobre as mais diversas matérias. Fazem isso regularmente, porque é uma mais-valia para os utentes, que assim se sentem úteis representando os seus colegas que não tem condições para participar neste fórum”.
E como seria Tomar sem o CIRE? “Sabendo que há estas necessidades, que estas pessoas existem e precisam de ser apoiadas, Tomar seria mais pobre se não tivesse uma resposta. A nossa sociedade tem orgulho, não das pessoas necessitarem disto, mas da maneira como aqui são tratadas. Eles aqui são felizes. O melhor era o CIRE não existir, mas se não existisse Tomar seria mais pobre e as famílias teriam muito mais problemas. Depois, a equipa do CIRE é muito boa e é família para os utentes”.

 

Data de introdução: 2018-09-13



















editorial

Os pobres e as Instituições de Solidariedade

(...) Se o Sector Social e Solidário é um muito importante pilar do Estado Social, corre sérios riscos de colapso porque o Estado não está a corresponder às expectativas criadas aquando da celebração do Pacto de...

Não há inqueritos válidos.

opinião

ANTÓNIO JOSÉ DA SILVA

América Latina: uma outra deriva?
Em democracia, nada é definitivo. E nada é definitivo, porque a democracia pressupõe a realização cíclica de eleições, e os resultados dessas...

opinião

PADRE JOSÉ MAIA

Greves e serviços mínimos...
Após um longo tempo de quase ausência de greves, proeza atribuída às políticas de reversão de direitos dos trabalhadores e, em geral, de todos os portugueses...