ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE PSICOGERONTOLOGIA, LISBOA

Sociedade precisa aprender a lidar com as dinâmicas do envelhecimento

É uma população crescente no planeta, cada vez há velhos mais velhos e, segundo algumas projeções, já não falta muito tempo para que a esperança média de vida chegue aos 100 anos. Por isso, e porque é uma realidade com que as sociedades se estão a deparar agora, porque, pelas mais diferentes razões, cada vez vive-se mais, é necessário adaptarem-se para que essas pessoas, cada vez com mais idade e em maior número, possam continuar a ter uma vida digna. Viver muito não é um problema, morrer precocemente é que o é.
É neste contexto que a Associação Portuguesa de Psicogerontologia (APP) se movimenta, “desenvolvendo um trabalho, essencialmente, de contributo para a mudança de mentalidades face às pessoas mais velhas e ao envelhecimento”, refere Maria João Quintela, presidente da instituição que não tem respostas sociais típicas, nem atípicas.
“Queremos ajudar e contribuir para ultrapassar estereótipos negativos face ao envelhecimento, à idade e às pessoas mais velhas, queremos contribuir para a dignificação do envelhecimento e dos mais velhos e, sobretudo, queremos influenciar a opinião pública, contribuir para a formação dos prestadores de cuidados e das pessoas comuns sobre a área do envelhecimento. Queremos divulgar muita informação atualizada sobre a área do envelhecimento, em especial ligadas à saúde mental e à gerontologia, mas também estabelecemos muitas parcerias com outras entidades, de universidades a IPSS, para o desenvolvimento de investigação e para o aprofundamento das múltiplas áreas que se relacionam com o envelhecimento humano”, explica.
Na prática congrega conhecimento, tenta disseminá-lo e, ao mesmo tempo, procura as boas práticas para as divulgar no sentido de serem replicadas por quem lida e cuida com os mais velhos.
“Tentamos encontrar um espaço para poder divulgar informação o mais possível, mas também contribuir para a formação de opinião. Para isso estamos em articulação com entidades nacionais e estrangeiras, nomeadamente, sociedades científicas, para ampliar este movimento de influência sobre a opinião pública”, afirma Maria João Quintela, acrescentando: “Pretendemos ter uma forte componente de mudança de mentalidades para que o envelhecimento e a longevidade sejam consideradas algo positivo e não negativo. Queremos contribuir para a imagem positiva das pessoas mais velhas e é nesse sentido que surgiu o prémio que instituímos. Queremos ainda ajudar a construir novas formas de estar perante o envelhecimento”.
Esta uma área muito dinâmica e com que as sociedades estão ainda a dar os primeiros passos para que o envelhecimento seja uma realidade plena de dignidade e em que cada vez mais se identificam mais e novas necessidades.
“É uma área evolutiva, porque os velhos de hoje não têm as necessidades dos de ontem e têm outro tipo de aspirações, pelo que a ciência da gerontologia tem que acompanhar essa evolução, que tem que ver com as necessidades humanas. Nós queremos que os estereótipos negativos que ainda hoje são veículo para algumas formas de discriminação, de maus tratos, de falta de respeito e de falta de atenção específica e qualificada perante os mais velhos tendam a desaparecer e que se construa uma sociedade melhor para todas as idades e ao longo da vida”, defende a presidente da APP, sublinhando: “Queremos também fomentar a ideia de que os velhos não podem e não devem ser objeto de discriminação e queremos uma sociedade para todas as idades e que todas as idades do envelhecimento sejam consideradas um ganho, uma conquista da civilização”.
De facto os velhos de ontem são os novos de hoje e isso faz com que o envelhecimento seja um enorme desafio do futuro próximo, especialmente, para as sociedades ocidentais e do Hemisfério Norte.
“A APP vê o aumento da longevidade como um ganho muito grande e uma conquista das novas tecnologias, de várias ciências, do urbanismo à medicina, e de muitas outras coisas. Hoje em dia, as sociedades mais envelhecidas são, no fundo, aquelas em que as pessoas conseguem viver mais tempo”, congratula-se, mas chama atenção para uma questão muito pertinente: “Naturalmente, isso é um ganho, mas não nos podemos esquecer que há dois fatores essenciais para o envelhecimento populacional, que são o aumento da longevidade e, por outro lado, a baixa da natalidade. Por isso, é muito importante olhar, hoje, para as políticas de família e de natalidade, áreas que é necessário empreender. Onde não nascem crianças, os mais velhos têm como única culpa continuarem a estar vivos! Não podem ser culpados por estarem vivos muito tempo e nós queremos que as pessoas vivam muito tempo. A necessidade que há é a de encontrar formas de apoiar as famílias e a natalidade para que se renovem as gerações. Hoje, de facto, por variadíssimos motivos, entre os quais a dificuldade de as pessoas conciliarem as vidas profissionais, muito exigentes, com a vida familiar, por vezes os mais jovens nem têm condições para terem o primeiro filho”.
Perante a “enorme quebra da natalidade”, Maria João Quintela defende que “há que pensar nas outras gerações no sentido, por um lado, da prevenção das doenças e da promoção da saúde ao longo da vida para que essa longevidade aconteça em todas as idades, mesmo nas mais novas” e, “por outro lado, a sociedade, ao longo da vida, tem consumos exagerados de açúcar, de gorduras e outros, que depois vão determinar mortes precoces por doenças crónicas”.
Importante para Maria João Quintela é o conceito de envelhecimento ativo da Organização Mundial da Saúde que trouxe “uma forma muito diferente de ver a saúde”, ou seja, “não chega ser saudável e depois não participar na sociedade, viver isolado e não contar com a ajuda de ninguém, ter dificuldade de acesso aos serviços ou ter medo de sair à rua”.
“Este conceito de envelhecimento ativo veio dizer-nos que há três pilares muito importantes: a participação, a segurança e um contexto de solidariedade entre gerações”, destaca Maria João Quintela, explicando: “Por um lado, não chega ter saúde e estar 11 horas em frente a um televisor, sentado num cadeirão, por muito bom que ele seja, é necessário conviver e que as pessoas sintam que as outras se interessam por elas, daí a importância da qualidade do relacionamento familiar”.
Tendo a CNIS até já instituído o selo das IPSS Amigas do Envelhecimento Ativo, percebe-se, até pela vasta rede de apoio a idosos que elas desenvolveram, que o papel das IPSS no apoio e na promoção do envelhecimento ativo é fundamental.
“As IPSS têm uma função insubstituível neste conceito de proximidade, de atuação em função do conhecimento das realidades e das necessidades das pessoas e das famílias a nível local, englobando todos os atores das comunidades. As IPSS têm uma ação humanizada, próxima e sem paralelo com quaisquer outras entidades, porque a resposta das IPSS é muito completa, pois vai do acordar ao deitar e muitas vezes desde a infância até ao final da vida”, sustenta, defendendo uma maior aposta no Serviço de Apoio Domiciliário: “A aposta no SAD é uma questão é fulcral, essencial e urgente. Penso mesmo que as IPSS já vão mais à frente, mas carecem de enquadramento e de apoios para desenvolverem o que já em muitos locais não seria possível se não fossem as instituições sociais, que é ir ao encontro das pessoas, sem as desenraizar do seu meio e prestar-lhes cuidados no domicílio. Esse será, provavelmente, o paradigma do futuro. Cada vez mais, as pessoas demonstram que querem permanecer o mais tempo possível nas suas casas. Isto já se faz em muitos locais, mas seria importante que o paradigma fosse de a atenção ser dada no domicílio e no meio habitual dos cidadãos, criando sinergias de boa vizinhança. É preciso envolver as comunidades no apoio aos mais velhos”.
Isto porque, frisa Maria João Quintela, “a liberdade e a vontade das pessoas em continuar mais tempo no seu domicílio exige que as respostas do Estado não coloquem as instituições num beco sem saída”.
E para que isto seja possível há que formar cuidadores para essas pessoas idosas, muitas delas, por vezes, dependentes.
“É uma tarefa que exige cada vez mais que saibamos lidar com ela por três razões essenciais. A primeira, é porque todos nós somos cuidadores de nós próprios, portanto ao cuidarmos de outrem também devemos ter preocupações em cuidar de nós próprios para o fazermos da melhor forma. Uma das maneiras é perceber o que se passa e ter conhecimentos básicos para poder prestar cuidados com o mínimo desgaste e exaustão. Hoje os cuidados chamados de longa duração podem durar meses ou anos e isso exige que tenhamos cada vez mais conhecimentos”, afirma, prosseguindo: “Por outro lado, também porque nós não somos apenas recetores passivos de cuidados. O principal cuidador somos nós, somos nós e mesmo o que é cuidado tem uma palavra a dizer e tem que ser respeitado e objeto da maior abertura para poder expressar as suas inquietações e sintomas. A pessoa está no centro dos cuidados.
E por fim, a sociedade deve ter cada vez mais conhecimentos sobre a natureza humana e a evolução no envelhecimento para que isso não constitua e não se fale disso apenas como um problema”.
Nesse sentido, a APP em parceria com a sua congénere espanhola vai iniciar um curso online para cuidadores de pessoas idosas dependentes, que em Portugal vai para a terceira edição, no sentido facilitar formação e informação de maneira regulada aos cuidadores familiares para dar os cuidados necessários a pessoas idosas dependentes em a sua casa. No entanto, o curso, que este ano teve um novo recorde de inscrições, serve também para que os profissionais das IPSS possam renovar conhecimentos e adquirir outros, pois esta é uma área em constante evolução.
Com o objetivo de reconhecer quem, apesar da muita idade, ainda é ativo e participativo na sociedade portuguesa, a APP instituiu o Prémio Dra. Maria Raquel Ribeiro, com o qual distingue séniores com 80 e mais anos que ainda constituem uma mais-valia para Portugal.
“A APP lançou em 2012 (Ano Europeu do Envelhecimento Ativo e da Solidariedade entre Gerações) o Prémio Envelhecimento Ativo Dra. Maria Raquel Ribeiro, que pretende enaltecer a continuidade de participação social útil das pessoas longevas, nomeadamente, o prémio destina-se a pessoas com 80 e mais anos que ainda são ativas e participativas na sociedade portuguesa, independentemente do seu currículo e percurso de vida”, refere Maria João Quintela, revelando quem é a personalidade que dá nome ao prémio: “O nome do prémio é o reconhecimento pelo muito trabalho que a Dra. Maria Raquel Ribeiro fez no âmbito do envelhecimento. Ela foi a primeira mulher presidente da primeira Comissão Nacional para a política da terceira idade. Por ser esta mulher pioneira e que se mantém ativa e participativa na sociedade, quisemos honrar esse pioneirismo com a instituição do prémio e, assim, enaltecer o papel ativo dessas pessoas”.
O prémio é simbolizado por um nascer do Sol, significando “um apelo a que consideremos sempre e em todas as idades a possibilidade de projetos de vida e a assunção de novas atividades e novas funções, mesmo sob o ponto de vista de transmissão de conhecimentos e de experiências” e “simboliza também a capacidade de interesse que as pessoas podem e devem ter em todas as fases da vida”.

 

Data de introdução: 2018-09-04



















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