ANTÓNIO JOSÉ DA SILVA

Uma promessa esquecida

No passado dia um de Outubro, realizou-se o referendo sobre a independência da Catalunha. A consulta, que provocou uma grande expectativa mediática, traduziu-se num resultado maciçamente favorável a essa independência, mas foi considerada ilegal pelo governo de Espanha, por se ter realizado à margem da Constituição e de todas as regras que esta impõe para a validação de uma tal consulta.

Por coincidência, e uns dias antes deste, teve lugar um outro referendo que, pese embora a sua importância, não motivou o mesmo interesse da Comunicação Social. Falamos da consulta realizada no Curdistão iraquiano, e que tinha também como questão central e única a independência daquele território. Apesar das pressões internacionais, interessadas em evitar qualquer destabilização deste território, a consulta acabou por se realizar e teve um resultado que não deixa dúvidas: os curdos do Iraque querem mesmo ser independentes.

Pode dizer-se que são algumas as semelhanças entre a situação política dos curdos iraquianos e a dos catalães, de tal modo que, ainda recentemente, houve quem classificasse o Curdistão como a Catalunha do Médio Oriente. É preciso lembrar, no entanto, que as diferenças políticas entre os dois territórios são bastante maiores que as semelhanças. A começar logo pelo facto de podermos falar de uma Catalunha no singular e de não haver um só Curdistão.

Os curdos constituem um povo a quem, no rescaldo da primeira guerra mundial, as potências vencedoras da Alemanha e do império otomano prometeram um lugar na comunidade internacional com o estatuto de estado livre e independente, eles que viviam ao longo de um vasto território onde conservaram a sua língua e guardaram a sua história e a sua cultura. A promessa foi assumida no Tratado de Sèvres, em 1920, mas dois anos depois, a promessa já estava esquecida. Pelo Tratado de Lausanne, de 1923, o território dos curdos foi dividido entre o Iraque, a Turquia, a Síria e o Irão, países onde, desde então, vêm sofrendo, mais ou menos ciclicamente, as agruras correspondentes a quase todas as minorias.

Foi no Iraque, nos tempos de Sadam Hussein, que os curdos viveram os tempos mais perigosos da sua história recente. Na sua loucura persecutória, o ditador iraquiano recorreu mesmo ao lançamento da bombas de gás para os tentar submeter definitivamente, uma decisão que teve como consequência a classificação de Sadam como criminoso de guerra. Por coincidência, foi neste país, que eles alcançaram recentemente uma relativa autonomia, uma espécie de recompensa por terem estado, desde o princípio, na frente da batalha contra as loucuras do “estado islâmico”.

No entanto, os curdos iraquianos querem mais do que essa relativa autonomia: querem a independência que lhes foi prometida, e logo depois negada, há quase um século. Uma promessa que, apesar de tudo, não será cumprida nos tempos mais próximos.

 

Data de introdução: 2017-11-09



















editorial

COOPERAÇÃO (Conclusões do Encontro Nacional)

A rede capilar de serviços sociais prestados pelas IPSS em todo o País, a todos, mas preferencialmente aos mais desprotegidos, desde o litoral urbano às periferias despovoadas do interior, corresponde a um mandato e possui um fundamento constitucional.

Não há inqueritos válidos.

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A América Central de novo em foco
Há uns anos atrás, alguns países da América Central motivaram um grande interesse da opinião pública internacional. Tudo porque ali se travava uma guerra, embora...

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“PORTUGUESES: satisfeitos com o governo …insatisfeitos com a VIDA”!
Foi exatamente esta a mensagem que o jornal PÚBLICO adotou, recentemente, como título de primeira página.