ANTóNIO JOSé DA SILVA

O fascínio do poder

O poder, seja este de que tipo for, exerce sempre algum fascínio sobre a maior parte dos homens, e entre os diversos tipos de poder que exercem maior fascínio, está certamente o poder político. Não faltará quem coloque o poder económico no topo das ambições pessoais, mas atingir os mais elevados cargos políticos de um país será, na grande maioria dos casos, a ambição suprema de quem se deixa entusiasmar pelo sonho do poder.

Deve dizer-se que não é sempre e só a ambição do poder que justifica o empenhamento dos cidadãos na sua entrega à luta política. Muitos, é justo reconhecê-lo, fazem-no por idealismo, convencidos de que o seu empenho será útil à causa pública. Uma grande parte, no entanto, junta essa a outras justificações, sobretudo aquela que poderíamos chamar a paixão pelo poder. Aliás, quem não der provas desta paixão tem poucas possibilidades de ter êxito. Acrescente-se, finalmente, que esta paixão, só por si, não é condenável, desde que não ultrapasse os princípios básicos do respeito pela lei, pela verdade e pelos adversários. Em alguns casos, no entanto, o fascínio do poder é tão grande que chega para justificar a alteração das leis constitucionais que regulam as eleições, como aconteceu na Venezuela e pode acontecer também na Bolívia.

Evo Morales, actual presidente boliviano, ficou famoso em todo o mundo, quando venceu as eleições presidenciais daquele país, em 2005. A razão da surpresa geral que se seguiu ao seu triunfo deve-se ao facto de se tratar de um índio, oriundo da etnia dos aimara, e de ser, na altura, dirigente de uma associação ou sindicato de produtores de coca, os chamados cocaleros. O certo é que a eleição de Morales pôs fim a uma longa história de revoluções militares que marcaram de maneira profunda a imagem de um país, aparentemente incapaz de viver num regime democrático estável. Só que o chefe de estado boliviano já eleito pela segunda vez, não poderá cumprir outro mandato, conforme estipula a Constituição.  

No entanto, apesar das dificuldades que experimentou no exercício das suas funções, e não obstante a lua de mel com a maioria dos bolivianos já ter acabado, o presidente dá sinais de apego ao lugar, o que não constitui propriamente uma surpresa já que é tradicional na história da América Latina: à direita e à esquerda. Morales não pode concorrer a um novo mandato, mas o seu partido está empenhado na liderança de um movimento pela reforma do texto constitucional, de modo a permitir que ele possa concorrer. É realmente difícil resistir ao fascínio do poder.

 

Data de introdução: 2017-10-06



















editorial

Voltar a casa

Sucede que a falta de motivação das IPSS para colocarem a sua rede de ERPI ao serviço do escoamento das situações de internamento hospitalar inapropriado, nas condições atualmente em vigor, se afigura amplamente justificada (...)

Não há inqueritos válidos.

opinião

PAULO PEDROSO, SOCIÓLOGO, EX-MINISTRO DO TRABALHO E SOLIDARIEDADE

O risco de retrocesso nos apoios à vida independente
O Orçamento de Estado para 2026 foi justamente elogiado por se abster dos clássicos “cavaleiros orçamentais”, designação pela qual são conhecidas as...

opinião

EUGÉNIO FONSECA

Que espero do novo Presidente da República?
Está próxima a eleição do novo Alto Magistrado da Nação. Temos mais duas semanas para que os candidatos, de forma serena, com objetividade e no âmbito dos...