ANTÓNIO JOSÉ DA SILVA

A Síria, os Estados Unidos e a Rússia

Pode dizer-se que a Síria está hoje no centro dos problemas que afectam as relações entre os Estados Unidos e a Rússia, que é como quem diz, no centro dos problemas que põem mais gravemente em risco a paz mundial. O aumento da tensão entre Washington e Moscovo chegou mesmo à Organização das Nações Unidas, onde, há poucos dias, os representantes de cada um dos países fizeram acuações mútuas de grande violência verbal. O pretexto para essa disputa foi o recente ataque a um comboio humanitário que provocou dezenas de mortos, além de ter destruído toda a ajuda alimentar que transportava.

Esse comboio dirigia-se, de emergência, para as proximidades de Alepo, a segunda cidade síria, que tem sido fustigada sistematicamente por bombardeamentos ferozes levados acabo pela aviação russa e pelas forças do presidente Assad. Nesta cidade e seus arredores, as populações vivem há muito numa situação de fome e de múltiplas carências que o referido comboio humanitário ia procurar suprir ou, pelo menos, diminuir. Além dos bens que se perderam, o ataque aéreo terá feito dezenas de vítimas civis, entre os voluntários que seguiam nos camiões enviados pelo Crescente Vermelho. Não foi a primeira vez que aconteceu uma tragédia assim, mas esta atingiu uma dimensão que fez despoletar fortes reacções entre os países que estão particularmente envolvidos no processo de cessar fogo para aquele pais. Particularmente significativa pela sua dureza relativamente ao governo de Assad foi a reacção da ONU.

Como sempre acontece em casos semelhantes, a tragédia teve imediato aproveitamento político. Os Estados Unidos, a responsabilizar o regime de Damasco, e os seus protectores de Moscovo, pela destruição dos alimentos tão necessários, e pelas mortes de civis inocentes que estavam ao serviço de uma causa de solidariedade urgente. A Síria e a Rússia, a negar veementemente qualquer responsabilidade nessa ocorrência e a recordar o recente ataque da aviação aliada contra uma coluna militar governamental que terá feito algumas dezenas de mortos. De qualquer modo, e todos o reconhecem, o bombardeamento de um comboio alimentar, nestas circunstâncias, assume contornos muito mais condenáveis, pelo que Damasco e Moscovo tentam, a todo o custo, negar que se tenha tratado de um ataque. Terá sido apenas um acidente natural.

Seja como for, o facto é que as relações entre os Estados Unidos e a Rússia estão a chegar a um grau de degradação alarmante, e todos sabemos como isso é perigoso para a Paz mundial.

 

 

Data de introdução: 2016-10-15



















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