ANTÓNIO JOSÉ DA SILVA

Os refugiados como moeda de troca?

Nos últimos tempos, a Turquia tem merecido um destaque muito significativo nos Meios de Comunicação Social. O agravamento das suas relações com Moscovo, na sequência do derrube de um avião militar russo e o endurecimento da sua política repressiva para com a comunidade curda que habita no país, de modo especial para com o chamado partido dos trabalhadores, o PKK, justificavam, só por si, todo esse relevo. Mas foi a tragédia dos refugiados que veio colocar aquele país no centro das atenções dos “Media”, sobretudo dos europeus.

Nos últimos meses, a Turquia tornou-se local de passagem, mais ou menos prolongada e difícil, para centenas de milhares de homens, mulheres e crianças que fogem à violência e à guerra que vêm destruindo as suas vidas nos seus países de origem, nomeadamente a Síria, o Iraque e o Afeganistão. Por via desse afluxo contínuo, o seu território foi-se enchendo de refugiados que, a partir dali, tentam encontrar os caminhos que os levarão para a Europa pacífica e rica com que sonham.

A União Europeia parece ter demorado demasiado tempo a tomar consciência do papel incontornável que a Turquia representa na solução deste drama, até que o governo de Ankara decidiu apresentar a factura dos custos financeiros e humanos do acolhimento ou da passagem desses milhares de deslocados pelo seu território. Começou então um “negócio” cujos termos não estão claramente definidos e cuja conclusão pode ainda estar longe. O governo de Erdogan pretende muito mais que os três mil milhões de euros que Bruxelas estaria disposta a despender para compensar financeiramente todo o esforço a que a Turquia foi e é chamada nesta conjuntura. O dobro dessa quantia parece estar agora em cima da mesa, mas Ankara pretende obter outras compensações, que são de natureza política.

Há já vários anos que a Turquia pretende integrar a União Europeia, mas essas pretensões nunca foram atendidas. As razões desta reacção negativa são diversas e foram claramente expostas por Sarkozi quando este era presidente da república francesa e não foram ainda postas em causa pelos grandes líderes europeus. Foram e são razões de ordem geográfica, cultural e demográfica, mas não suficientes para levar a Turquia a desistir do seu propósito. Agora que a Europa precisa da Turquia, Erdogan aumenta o preço do seu “serviço”, transformando os refugiados em moeda de troca. E, mais dia menos dia, vai conseguir os seus objectivos.

António José da Silva

 

 

Data de introdução: 2016-04-09



















editorial

Autonomia das IPSS

Um provedor para zelar pela autonomia de todas as IPSS só seria admissível se fosse escolhido pelo conjunto de todas as IPSS, de todas as suas origens, de todas as afinidades e de todas as Entidades Representativas. 

Não há inqueritos válidos.

opinião

EUGÉNIO FONSECA

Estado e Sociedade - complementaridade e cooperação
As relações entre o Estado e as diferentes Organizações da sociedade civil têm sido alvo de muitos debates, mas permanecem em muitas mentes algumas...

opinião

PAULO PEDROSO, SOCIÓLOGO, EX-MINISTRO DO TRABALHO E SOLIDARIEDADE

Creche gratuita: o compromisso cumpre-se com vagas
A gratuitidade das creches é um compromisso político forte com as famílias e, para muitas delas, uma esperança concreta. Mas só é real quando se traduz numa vaga...