EUGÉNIO FONSECA

Para uma “Magnífica Humanidade”

Não vou abordar o conteúdo específico da Encíclica “Magnifica Humanitas”, do atual Papa, “sobre a salvaguarda da pessoa humana na Era da Inteligência Artificial”, porque já muito foi escrito por peritos do digital e, também, porque não tenho competências bastantes para abordar o assunto em apreço. Também não conseguirei, por falta de espaço, abordar o que me parece interessar a quem esteja relacionado com a economia social, em particular, aos que têm a responsabilidade de dirigir IPSS.

Trata-se de um documento do magistério da Igreja católica, por isso alicerçado em fundamentos bíblicos e da tradição da mesma Igreja, mas ele foi escrito a pensar em «todos os homens e mulheres de boa vontade” (16 e 47). Porém, proponho-me evidenciar, apenas, alguns dos contributos que visem, como pede Leão XIV, fomentar o diálogo com todos os que estão interessados em defender e promover a dignidade humana. Ora, este é um dos valores que norteiam as ações relacionadas com a solidariedade e a justiça social, promovidas pelas IPSS em cooperação com o Estado e outras instâncias da sociedade. Mais que deixar a minha opinião, vou citar algumas das interpelantes e fundamentadas opiniões do Papa, cuja principal preocupação não é «renunciar à tecnologia, mas impedir que ela domine o ser humano» (111), chamando a nossa atenção para «alguns desafios que dizem respeito à nossa forma de viver este tempo» (90).

Por esta razão, antes de entrar nos domínios da inteligência artificial e reconhecendo, como já o tinha feito o Papa Francisco, que estamos «a viver uma rápida fase de transição, uma “mudança de época” (6), e a entrada na era digital, Leão XIV elenca os princípios do Pensamento Social católico. Todos são compatíveis com a identidade, missão e valores das IPSS, com particular realce para os relativos à dignidade indelével dos seres humanos e a construção do bem comum. Quanto ao primeiro, o Papa recomenda que na «era da inteligência artificial, em que a dignidade humana corre o risco de ser ofuscada por novas formas de desumanização, temos o dever urgente de permanecer profundamente humanos» (15); no que respeita ao bem comum diz que é a sua busca «que dá vida a um povo, compreendido não como mera soma de indivíduos, mas como realidade viva na qual as pessoas aprendem a reconhecer-se interligadas e corresponsáveis pela res publica.» (62).  Para defender o respeito por cada pessoa nesta “era da inteligência artificial”, Leão XIV convida não só a “refletir sobre o bem comum”, mas, também, sobre o destino universal dos bens, a subsidiariedade, a solidariedade e a justiça social.» (46). Estes princípios não podem ser ignorados, realço, por quem se compromete na direção e gestão de instituições de solidariedade.

Uma das preocupações referidas pelo Papa diz respeito aos infoexcluídos. No combate a este problema, as IPSS podem ter um preponderante papel. Apesar do Papa se dirigir, especificamente, às “organizações sindicais”, julgo que faz sentido incluir neste desafio todos os setores da economia social que «são chamadas a abrir-se às novas formas de trabalho e aos novos trabalhadores, para os representar e defender num cenário em que, sem escolhas corajosas, se preveem mais pobreza e desigualdades, com uma multidão de excluídos rodeados por máquinas e sistemas automatizados que usurparam o seu lugar.» (155). Seria benéfico que as IPSS promovessem ações de “alfabetização digital”, para «permitir a todos, em particular aos mais fracos, uma vida verdadeiramente humana, sem que ninguém fique para trás.» (77).

Recomendo a leitura desta encíclica. Garanto que ela ajuda a rasgar noves horizontes.

 

Data de introdução: 2026-06-11



















editorial

Autonomia das IPSS

Um provedor para zelar pela autonomia de todas as IPSS só seria admissível se fosse escolhido pelo conjunto de todas as IPSS, de todas as suas origens, de todas as afinidades e de todas as Entidades Representativas. 

Não há inqueritos válidos.

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