ANTÓNIO JOSÉ DA SILVA

Quebec: um resultado contra a corrente

Realizaram-se recentemente eleições parlamentares no Canadá. O triunfo do partido liberal não constituiu propriamente uma surpresa, já que, ao longo da história relativamente curta deste país, ele tem vencido a maioria dos confrontos eleitorais com o partido conservador. Mas nos últimos tempos, uma outra formação apareceu neste jogo eleitoral: o chamado partido do Québec.

O Québec é uma das dez províncias do Canadá, sujos habitantes, cerca de oito milhões, falam francês. Trata-se da mais significativa das especificidades culturais que fazem deste território uma nação, uma especificidade a que se deve juntar uma outra: a religião católica. Língua e religião fazem pois desta província uma “ilha” francófona e católica, num estado que é maioritariamente anglófono e protestante.

Foi em 1950 que surgiu e começou a crescer, no Québec, um movimento de afirmação nacionalista que rapidamente se transformou em movimento separatista. Com o objectivo de consagrar a independência, realizaram-se mesmo dois referendos, um em 1980 e outro em 1995. Em ambos os casos, e contra a maioria das sondagens, acabou por vencer, embora por diferença mínima, o não à independência que ficou adiada para uma oportunidade mais favorável. A última consulta eleitoral seria pois uma boa ocasião para o povo do Quebec se manifestar, de novo, relativamente a este anseio, até porque um dos partidos em luta era precisamente um partido independentista. Aconteceu, no entanto, que este sofreu uma derrota clara.

Foi uma derrota contra a corrente, se tivermos em conta as tentações de separatismo que parece terem invadido muitas regiões do mundo, a começar pela Crimeia, embora este não seja um caso exemplar, por se tratar de uma separação com vista à sua integração na Rússia. Mas a Ucrânia corre ainda o risco de perder outra parcela do seu território, a avaliar pelas movimentações que se vão desenvolvendo na sua região leste, com a exigência de mais um referendo que pode ter o mesmo desfecho da Crimeia.

Depois, temos o caso da Escócia, ainda em processo evolutivo, mas que pode acabar na sua saída do Reino Unido. E a unidade de Espanha corre também sérios riscos com as tentações independentistas da Catalunha. E poderíamos acrescentar ainda outros exemplos mais ou menos sérios ou caricatos. A própria Itália, cujo processo de unificação ainda não tem século e meio, assiste a manifestações, pelo menos folclóricas, a exigir o regresso ao passado, como está acontecer na região de Veneza.

Os movimentos da História passam dialecticamente por fases de integração e de separatismo, mas a tentação do separatismo parece hoje mais forte do que a necessidade da integração. O resultado das eleições no Quebec é pois contra a corrente.

António José da Silva

 

Data de introdução: 2014-05-11



















editorial

Confiança e resiliência

(...) Além disso, há um Estado que muito exige das Instituições e facilmente se demite das suas obrigações. Um Estado Social não pode transferir responsabilidades para as Instituições e lavar as mãos quanto...

Não há inqueritos válidos.

opinião

José Leirião

A necessidade de um salário mínimo decente
Os salários, incluindo os salários mínimos são um elemento muito importante da economia social de mercado praticada na União Europeia. Importantes disparidades permanecem...

opinião

JOSÉ A. DA SILVA PENEDA

Muitos milhões de euros a caminho
O País tem andado a ouvir todo um conjunto de ideias com vista a serem aproveitados os muitos milhões de euros provenientes da Europa. Sobre o que é preciso fazer as coisas parecem...