PROJECTO FAMÍLIA GLOBAL, PORTELA DE CARNAXIDE

Uma estátua por um Centro Comunitário

Em Português corrente, dir-se-ia que o Projecto Família Global - Associação para a Inserção Sócio-Cultural e Profissional da Família, sito na Portela de Carnaxide, concelho de Oeiras, vive com a corda na garganta. Por isso, os seus responsáveis olham com grande preocupação e com enorme incerteza o futuro da instituição, fundada em 1998.
Se logo à partida, o presidente Carlos Ribeiro sustenta que “a instituição não pode fechar portas”, a verdade dos números colocam um manto de incerteza sobre o futuro da mesma. É que, só no primeiro trimestre de 2012, o Projecto Família Global somou um défice de mais de seis mil euros.
Carlos Ribeiro é um dirigente apreensivo com o futuro e revoltado com o presente, pois, juntamente com os seus pares voluntários que fundaram e gerem a instituição, sente-se sozinho na defesa de uma comunidade proveniente de diversos bairros de lata, de diversas etnias e nacionalidades e que vivem grandes carências, estando muitos à beira da exclusão, ou já mesmo excluídos da sociedade.
“A nossa grande dificuldade é que ninguém nos apoia”, desabafa, entristecido.
No boletim informativo da instituição, a Direcção publica as contas, num registo “ao estilo merceeiro”, porque como o presidente afirma “mostram bem como vivemos: A Segurança Social deu-nos 44 mil euros no primeiro trimestre e pagámos-lhe sete mil de impostos”.
Mas a sua principal revolta é com a Câmara Municipal de Oeiras, que no corrente ano ainda não transferiu um cêntimo para a IPSS da Portela de Carnaxide.
“Há uns anos tínhamos apoio da Câmara de Oeiras, que no ano passado nos deu… 2800 euros! Porém, este ano e até ao momento ainda não recebemos um tostão. Já ultrapassámos o segundo trimestre e ainda não recebemos qualquer verba da Câmara. Há promessas da autarquia, por exemplo, em finalizar a construção do nosso Centro Comunitário, que está parada há mais de um ano… Com o dinheiro de uma dessas estátuas que o senhor presidente da Câmara anda a colocar pela cidade chegava para finalizar a obra. Um milhão de euros é o suficiente e ainda sobra”, revela Carlos Ribeiro.
Actualmente, a instituição ocupa todo o rés-do-chão de um dos edifícios que formam o bairro social da Portela de Carnaxide, um espaço alugado à Câmara e que por mês tira do orçamento do Família Global cerca de 1100 euros. Daí, há dois anos, a instituição ter apresentado uma candidatura ao Programa PARES para a construção de um Centro Comunitário, nuns terrenos da autarquia a 30 metros das actuais instalações. Mas um primeiro obstáculo travou as intenções da instituição.
“Quando foi necessário a Câmara dar-nos a prova de que o terreno era sua propriedade, chegou-se à conclusão que, afinal, o terreno não pertencia à autarquia mas a um particular”, conta o presidente, recordando o imbróglio que aí se formou e que, desde Abril de 2011, mantém o propósito da instituição adiado: “Então, perdemos o apoio do PARES, cerca de um milhão de euros. A única solução era avançar com a autarquia a substituir-se ao PARES… Esta obra é daquelas tipo PPP (Parceria Público Privada), em que entram quatro empresas na construção, uma até penso que já faliu, fazem a obra e depois alugam o edifício à Câmara, que pagará uma renda até amortizar o valor investido. Só que a Câmara, neste momento, não gasta nada… Para agravar a situação, e com esta confusão toda, parece que a Caixa Geral de Depósitos lhes retirou o investimento e, para nosso azar, o mesmo consórcio está a fazer uma outra obra, enorme, que é o Palácio dos Congressos, que também está parado… É simplesmente uma obra de 30 milhões de euros, quando aqui necessitamos apenas de um milhão, mas como é uma obra social fica para segundo plano”.
Para o Projecto Família Global o novo equipamento é fundamental, não só para poder disponibilizar mais respostas à população, mas igualmente para poder tornar a instituição mais sustentável e, para já, o efeito tem sido contrário.
“Já investimos na obra cerca de 800 mil euros e a sua conclusão está pendurada pela falta de 900 mil euros”, acusa Carlos Ribeiro, explicando: “Com o novo Centro Comunitário poderíamos alargar a nossa resposta em creche de 16 bebés para cerca de 60, o que nos dava mais margem de manobra”.
A gestão do PFG não é fácil e nos tempos que correm tem sido ainda mais complicada, como afirma o seu presidente.
“No princípio tínhamos uns mecenas que nos ajudavam e ainda tínhamos umas verbas depositadas, mas temos andado a gastá-las ao longo dos anos. Fizemos uns cursos, há dois anos, no âmbito do POPH, o que também nos deu um pequeno lucro, mas entretanto o Estado acabou com isso… Portanto, é com essas verbas que temos vivido, só que essas verbas estão a chegar ao fim… E quando chegarem ao fim, não sei como será”, lamenta, acrescentando: “Não era preciso muito… se a Câmara de Oeiras nos desse, todos os anos, 10 mil euros já era suficiente… Este valor, para os subsídios que a Câmara dá a outras colectividades, é insignificante… E se não tivéssemos que pagar os cerca de 1100 euros mensais de renda pelos espaços que ocupamos, tudo seria diferente. É que por ano são mais de 12 mil euros”.
Carlos Ribeiro está muito apreensivo quanto ao futuro próximo da instituição, sustentando: “Para ser sincero, não sei o que será… Por enquanto, estamos a fechar a torneira a muita coisa, mas também ninguém nos faz descontos em nada, nem na água, na luz ou no gás… Temos andado a ir buscar o pouco dinheiro que temos em stock, mas quando este acabar, não sei como será... A porta é que não pode fechar”.
Para agravar a situação da instituição, as comparticipações das famílias são muito baixas, pois é uma população muito carenciada: “Projecto Família Global nasceu para ajudar uma população muito carenciada, mas para podermos fazê-lo precisamos de apoios, porque as próprias famílias não têm condições. Repare, há crianças na creche que pagam 20 euros/mês, pessoas no Apoio Domiciliário a pagar cinco euros… Como estamos localizados numa zona muito carenciada, não podemos exigir mais e como os valores das mensalidades são mínimos, estamos sempre aflitos”.
A instituição dá resposta de Creche (16 bebés), ATL (41 crianças), Serviço de Apoio Domiciliário (45 utentes) e tem ainda uma lavandaria social, uma loja solidária e um gabinete de apoio médico, onde é feito um acompanhamento médico-pediátrico a crianças e jovens. E em todas as valências, à excepção do ATL, e até mesmo para as que ainda não estão no activo, há grandes listas de espera.
No adiado Centro Comunitário, a FPG quer instalar um Centro de Dia e um gabinete de dentista, cujo “equipamento já está há um ano em Portugal encaixotado, pronto para ser instalado”, o que não pode porque as instalações ainda não estão concluídas.
Por outro lado, Carlos Ribeiro confirma que as solicitações têm crescido muito, especialmente, em termos de Banco Alimentar.
“Os pedidos de ajuda têm, de facto, aumentado, essencialmente no Banco Alimentar… Neste momento, apoiamos cerca 190 famílias, o que se traduz em mais ou menos de 600 pessoas”, sustenta, referindo que, no apoio integrado, a instituição presta auxílio a 311 famílias.

Pedro Vasco Oliveira (texto e fotos)

 

Data de introdução: 2012-09-14



















editorial

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Publica-se neste número do “Solidariedade” o texto do acordo com a FSUGT, na parte que contempla também os novos valores de remunerações acordado para vigorar a partir de 1 de janeiro de 2024.

Não há inqueritos válidos.

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