PAULO PEDROSO, SOCIÓLOGO, EX-MINISTRO DO TRABALHO E SOLIDARIEDADE

Medir e diminuir o isolamento. Sobre as comunidades cuidadoras.

Durante o mês de outubro, a GNR voltou à estrada para concretizar o “Censos Sénior”, que realiza desde 2011. Este ano sinalizou mais de 44 mil idosos a viver sozinhos ou isolados, predominantemente nos distritos do interior do país.

O isolamento dos mais velhos é um dos problemas por resolver nas sociedades em que as pessoas que têm vidas longas se multiplicarão e em que o progresso permitirá que essas vidas sejam por cada vez mais tempo saudáveis.

A manutenção do laço social entre as pessoas isoladas e as comunidades em que vivem será progressivamente mais um problema e uma questão para as políticas públicas.

É preciso refletir sobre o cuidado como conceito que vai além da prestação de cuidados de saúde e de apoio às funções vitais. Uma sociedade do cuidado preocupa-se com o bem-estar de todos os seus membros e faz disso uma obrigação assumida pela coletividade.

Os autores do Manifesto do Cuidado[1] propõem que olhemos para as “comunidades cuidadoras” de um modo que vá além de ver o cuidado como parte das obrigações recíprocas entre familiares próximos e passe para as regras sociais e para a organização da vida coletiva.

Uma comunidade cuidadora, segundo esta proposta assenta em três princípios. O primeiro é o da entreajuda. As comunidades de vizinhança e a capacidade de nelas nascerem grupos informais ou organizações formais de entreajuda são um elemento importante numa sociedade em que todos cuidam de todos. Em Portugal temos na rede das IPSS e das associações locais, assim como nas autarquias locais, uma infraestrutura adequada à promoção de formas de entreajuda. Mas muitas destas instituições têm hoje um foco predominante na prestação de serviços e uma visão fragmentada da pessoa a cuidar. Não é demais repetir que o cuidado é holístico e à pessoa. Neste contexto, seria muito positivo que do Estado surgissem incentivos à auto-organização das comunidades para a entreajuda e às instituições solidárias para atuarem além do espartilho dos serviços e valências em que atuam.

O segundo princípio referido na proposta do Manifesto do Cuidado é o da existência de espaço público que promova a partilha. Espaços verdes agradáveis e seguros, praças acessíveis e acolhedoras, a eliminação de barreiras físicas que confinam as pessoas às suas casas, uma rede de transportes que consiga levar as pessoas em segurança e conforto além dos locais isolados em que vivam, fazem parte da construção de comunidades de entreajuda. E a organização de atividades de produção e troca, das hortas comunitárias aos mercados informais, de momentos de convívio à partilha de hábitos culturais, também não pode ser negligenciada. Podemos também imaginar modelos de habitação cooperativa. Uma sociedade em que se facilite o contacto entre vizinhos é seguramente uma sociedade cuidadora. A este propósito, a medida de habitação colaborativa apresentada pelo Governo, de que aqui falei em artigo anterior é um passo. Mas importa que seja a promoção do espaço público e não apenas a prestação de serviços numa área coletiva a pessoas isoladas.

O terceiro princípio é o da partilha. A partir da inspiração da partilha de livros das bibliotecas públicas podemos imaginar e organizar “bibliotecas das coisas”, modos organizados de partilha de objetos e utensílios, diminuindo o desperdício numa ótica de circulação e reutilização. E podemos estender o princípio à partilha de recursos imateriais e ideias, como já se faz nas universidades seniores voluntárias e nas experiências dos bancos de tempo.

Uma sociedade da entreajuda, do espaço público e da partilha faz parte das utopias realizáveis, podendo ser edificada a partir das bases associativas existentes no país, se fermentada numa cultura de responsabilidade coletiva e participação social. Numa sociedade cuidadora, a prioridade é dada ao reforço do laço social entre membros de uma mesma comunidade, combatendo o isolamento, para além de todos os outros fatores que geram a necessidade de cuidados.

A ação da GNR insere-se meritoriamente neste tipo de preocupação. O policiamento comunitário, conceito que a GNR abraça no “censos sénior”, é uma forma de cooperação entre a polícia e a comunidade. O policiamento comunitário assenta numa ideia de reforço da segurança com medidas preventivas de base participativa e implica o trabalho em rede com a sociedade local. Esta iniciativa da GNR é uma ótima base para o desenvolvimento de uma cultura participativa de promoção de segurança combatendo o isolamento social.

Ou seja, a operação “censos sénior”, que se felicita, é parte da construção das comunidades cuidadoras de que necessitamos, para que o isolamento social seja diminuído e não apenas medido.

 

[1] The care collective, The Care Manifesto – the Politics of Interdependence, Londres, Verso, 2020

 

Data de introdução: 2023-11-08



















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