A Regulação

1 - O meu filho mais velho está desempregado há um ano.
Trabalhou durante sete anos, como Jacob a Labão, numa entidade pública, entremeando, como sucede com tantos milhares de trabalhadores, contratos de trabalho a termo certo com recibos verdes.
Também aos serviços do Estado chegaram as restrições orçamentais, e com elas os despedimentos.
Os primeiros a serem despedidos foram os contratados a prazo, com o termo dos respectivos contratos.
Nessa leva lá lhe calhou a vez.
Recebe, de subsídio de desemprego, cerca de 450 euros.
Suponho que é a estes subsídios que o Dr. Vítor Constâncio chama generosos, acusando-os de desincentivarem os seus beneficiários de procurar emprego.
A gente com o tempo habitua-se a tudo … Mas confesso que não figurei nunca ver um antigo secretário-geral do Partido Socialista a exprimir sobre as prestações sociais a displicência e o tom crítico que marcaram as suas declarações sobre o subsídio de desemprego e a correspectiva, a seu ver, preguiça, em nada distintas da posição do Dr. Paulo Portas sobre o Rendimento Social de Inserção.
O próximo passo será com certeza o de proclamar que os beneficiários do RSI deveriam ficar fechados em casa, com a vergonha de viverem à custa do Estado, e proibi-los de ir à tasca ou ao café, como quer a direita.
Les bons esprits se rencontrent.
Numa ocasião em que o Governo anuncia, a propósito do debate do Orçamento de Estado, o alargamento do prazo de atribuição do subsídio de desemprego, numa justa percepção dos efeitos da crise internacional sobre os rendimentos e o modo de vida das pessoas e das famílias, creio que o Ministro do Trabalho bem dispensaria essa contribuição para o debate de tão ilustre compagnon de route.

2 - Sou dos que se habituaram a associar essa palavra “generosos” ao lado bom da semântica – à solidariedade, à atenção aos desfavorecidos e aos pobres; ou, noutro registo, mais político, à tolerância, ao progressismo, à liberdade.
Em muitos de nós, mais velhos, ainda ecoa, embora lá bem longe e fundo no tempo e na esperança, o apelo aos “generosos ideais de Abril”.
E o Partido Socialista, quando merecia mais o nome, também declinava o mesmo léxico, voltado para a correcção das injustiças.
Mesmo quando prosseguia políticas mais centristas, permanecia a má consciência da traição que o exercício do governo sempre faz aos princípios.
Foi o PS que, numas legislativas, lançou o refrão, bem achado: “ele não merece, mas vota no PS.”
A crer nas sondagens, parece que estamos na mesma.
(Sobra ainda Manuel Alegre, a recordar os compromissos principais do imaginário socialista. Mas quase como o último abencerragem de uma estirpe extinta.)

3 - Ora sucede que o sentido dos “generosos” de Constâncio não bebe dessa tradição socialista da solidariedade, mas do desdém parvenu pelos mais pobres – como se a responsabilidade pelos males do País fosse mais deles, e não de quem saca ao modo antigo os recursos de todos, como o Dr. Vítor Constâncio deveria saber, pois que lhe pagam para os vigiar.
A esse estranho alheamento pelos valores fundadores do Partido que chegou a chefiar, com odor de santidade, se os leitores estão bem lembrados, soma-se a circunstância de o Governador do Banco de Portugal ter um ordenado, pago pelos contribuintes, de milhares de contos por mês – o salário mais alto do Regime, como nos seus sound-bytes certeiros lembrou (o igualmente céptico quanto às virtudes das políticas sociais) Paulo Portas.
Quem sabe? Lá teria razão o Dr. Mário Soares quando o não quis a chefiar o Partido que fundara, e fez o que pode e não pode para o afastar.
Com sucesso, como estamos lembrados. Já foi há tanto tempo …

4 – A ocasião para essa posição neoconservadora quanto às prestações sociais, que Bush não desdenharia sufragar, veio ainda por seu maior mal a calhar em plena crise da Banca, com toda a gente, estranha à tribo dos banqueiros e ministros e ex-ministros candidatos a serem-no, a acusar o Governador de incompetência quanto à verificação das malfeitorias com que pelo visto imaginosos gestores alegram a monotonia dos seus dias, a saltar do governo para as empresas e a pular das empresas para o governo, com escala nos off-shores dos mares do sul.
Mas estavam à espera de outra coisa?
Alegar que não tinha meios para investigar os Bancos, quando manda há 8 anos no Banco de Portugal e pode fazer nele as reformas que entender, não é digno de tão alto salário.
E é de mau gosto, nesse quadro, virar-se para – não, virar-se contra – os desempregados.
Para regular com proficiência a banca e os banqueiros, mister é primeiro ter bem regulados os valores dentro da cabeça.
O senhor Governador deve antes meter-se com os ricos.
E deixar os pobres em paz.

* Presidente da Associação Ermesinde Cidade Aberta

 

Data de introdução: 2008-12-10



















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