TGV Lisboa-Madrid

1 - O recente episódio do recrutamento de residentes em Cabeceiras de Basto para virem, em camionetas, reforçar a moldura humana da festa da vitória de António Costa em Lisboa – e que constitui a versão em sénior das crianças contratadas a 30 euros para idêntico papel na apresentação pública de um novo programa tecnológico para as escolas feito na mesma semana pelo Primeiro-Ministro – trouxe-me à lembrança que esta deslocação de cabeceirenses para Lisboa é costume antigo.

As pessoas do meu tempo ainda se lembram de estudarem, no liceu, um poema de Sá de Miranda, poeta português da Renascença, do Século XVI, “Carta a António Pereira, Senhor de Basto”.

Nesse texto, cujo título completo é “Carta a António Pereira, Senhor de Basto, quando se partiu para a Corte co’a casa toda”, o poeta recorda, com saudade, os tempos em que vira “correr pardaus em Cabeceiras de Basto”, quando aí caçava com o conde de Basto, e lamenta que a mudança do amigo, com a família e a criadagem, para Lisboa, para a Corte, faça diminuir, como diríamos hoje, a qualidade de vida dos que persistem em ficar – como era o caso de Sá de Miranda.

Estas duas migrações, separadas por 500 anos de intervalo, representam ainda hoje as principais formas de mobilidade da província para a capital:

- O apelo aos mais capazes dirigentes e às elites que se revelam um pouco por todo o País, e que cedo percebem que só em Lisboa têm vias de sucesso pessoal – deixando a representação social e política do interior em mãos cada vez mais desvalorizadas. E que são a versão moderna do Senhor de Basto.

- A sedução aos descamisados, que têm das grandes cidades a noção ingénua da opulência para todos – e que vão sobrecarregar os subúrbios de gente e de violência quando se dão conta de que a riqueza afinal é só para um pequeno grupo, onde eles não cabem. Estes são como os cabeceirenses arregimentados como figurantes para uma festa que não era sua e a que não sabiam que iam.

Também esta deslocação das populações rurais do interior, pobres e sem instrução, para a periferia da capital foi objecto de tratamento poético pelo mesmo Sá de Miranda, na mesma Carta a que me tenho vindo a referir:

“Não me temo de Castela/
Donde inda guerra não soa/
Mas temo-me de Lisboa,/
Que, ao cheiro desta canela/
O reino nos despovoa.”

Passaram 500 anos – e nada mudou.

2 - Sá de Miranda não se temia então de Castela, tradicional ameaça da nossa independência e reino contra o qual se construiu a identidade de Portugal.

Parecia na ocasião não haver razão para temores – estava-se em plena euforia da expansão portuguesa, com as Descobertas, e nunca o país foi tão forte no contexto externo.

D. João II realizou, aliás, profundo trabalho político para realizar a União Ibérica mas sob o domínio português, inviabilizada pela morte precoce do Príncipe Herdeiro, o Infante D. Afonso.

Essa presença forte do País, como se sabe, durou pouco tempo.

Poucas dezenas de anos passados sobre esse optimismo de Sá de Miranda, Portugal perdia, em 1580, a independência para a mesma Castela que não era a seu juízo razão para temer – só a reconquistando em 1640.

Ao longo dos séculos, a defesa da independência fez-se defendendo a fronteira. E o Estado Português era o dono de todos os fortes e castelos que pontuavam –e em muitos casos ainda pontuam – a linha física que separa os dois países.

Ouço os especialistas da economia e gestão – a que hoje parece que se reduz o pensamento político – dizer que, abolidas as fronteiras e aberto ao acesso de todos o espaço europeu, a defesa da independência nacional se não faz nos nossos dias com exércitos e com fortes, mas com o controlo dos sectores centrais da economia.

Se é assim, estamos conversados. À velocidade com que os novos castelhanos vêm tomando posições dominantes nos sectores vitais da nossa economia, e mesmo na propriedade do solo, de independentes já temos pouco.

3 - Mesmo assim, não foi sem perplexidade que li que, também por estes dias, o respeitado Nobel português, José Saramago, aventou com grande à-vontade um cenário de uma próxima União Ibérica, irmanando-se, a crer na imprensa, com o Ministro Mário Lino.

Habituado a ouvir o Partido Comunista, a que julgo que o Nobel ainda pertence, a defender com intensidade a independência nacional – e sentindo ainda a ecoar a força retórica com que Álvaro Cunhal pontuava as suas intervenções “na defesa dos interesses do nosso Povo e da nossa Pátria”- causa-me alguma estranheza a vertigem unionista de um dos intelectuais mais venerados no nosso País, a confirmar-me que mesmo a ortodoxia já não é o que era. (Mas a pensar, cá para comigo, que, pelo menos nisto, antes fosse!)

É certo que, por outras bandas do espectro político, muitos dirigentes, políticos e ex-governantes (e governantes?) são hoje considerados peões – ou barões, que é palavra porventura mais adequada, até pelo regime monárquico em vigor no nosso vizinho do lado - dos interesses espanhóis em Portugal.

Também aqui tudo é igual ao que sempre foi: já no Interregno, entre 1383 e 1385, por morte do Rei D. Fernando, muitos fidalgos portugueses se passaram para a castelhana Rainha D. Leonor e para o Conde Andeiro, perdendo a guerra para o Mestre de Aviz, depois D. João I. E o mesmo sucedeu em 1580, quando se passaram igualmente os fidalgos portugueses que sobraram do desastre de Alcácer-Quibir – pelo menos, boa parte deles - para Filipe de Espanha, que com o seu apoio foi sagrado Rei de Portugal em Tomar.
4 - Dizia há pouco que dantes a independência era defendida ao longo da fronteira, e que a raia ainda está pontuada dos fortes e castelos que constituíram essa linha de defesa.

Pertenciam então ao Estado.

Não sei se ainda pertencem. Ou se a privatização de tudo o que mexe e de tudo o que está quieto já chegou a esse domínio.

Mas tenho para mim que não morro sem assistir à instalação, nesses fortes e nesses castelos, onde tantas vezes com heroísmo se defendeu a independência de Portugal, de uma rede de Paradores Nacionales. 

*Presidente da Associação Ermesinde Cidade Aberta

 

Data de introdução: 2007-08-09



















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