PADRE JOSÉ NUNO SILVA, COORDENADOR NACIONAL DOS CAPELÃES HOSPITALARES

A maioria dos doentes terminais não tem uma casa para morrer

SOLIDARIEDADE – Qual é a importância da celebração ecuménica para a aproximação e diálogo das diferentes confissões cristãs?
PADRE. JOSÉ NUNO SILVA
- A importância deste acontecimento é grande, na medida em que a caminhada ecuménica permite que todos os crentes em Jesus Cristo possam reencontrar-se na plena unidade. É um caminho complicado, árduo e com muitos séculos de ruptura. O passo como o da cerimónia que realizámos insere-se numa dimensão do diálogo ecuménico, que me parece ser a via mais necessária, ou seja, o ecumenismo prático. Juntarmo-nos para servir os que sofrem e em razão da caridade.

Nestes últimos anos, tem sido um pioneiro nessa abertura do caminho para um diálogo ecuménico…
Não gosto de comentar classificações, mas uma coisa é certa: Estou no hospital há oito anos e esta foi a sétima celebração ecuménica e a primeira com dimensão nacional. Para mim foi imediato perceber, quando fui nomeado capelão e cheguei a esta casa enorme, que é um exílio para quem nela entra vergado pela doença, que esse exílio seria ainda maior se o doente sentisse que esta casa, do ponto de vista religioso, estava colonizada apenas por uma religião. Quem aqui vem e que não fosse católico, sentir-se-ia um estranho, não compreendido, não atendido em termos religiosos e isso aumentava desmedidamente o drama da doença.

Contrariamente a esse caminho de diálogo, o facto é que vários padres e pastores de outras confissões religiosas têm maior dificuldade para entrar nos hospitais e assistir os seus doentes. São os hospitais portugueses apenas para católicos?
Os hospitais são públicos, por isso não são católicos nem para católicos. Os serviços públicos que existem nos hospitais é que são, exclusivamente, católicos. Isto é, são serviços religiosos que resultam de uma regulamentação que procurou apenas corresponder à Concordata entre a Igreja Católica e o Estado Português e que regulamenta o direito da Igreja Católica a assistir os seus doentes. Agora é necessário inverter esse paradigma e tentar perceber que existe outro prisma mais actual e mais autêntico para ver esta questão: não é o direito das igrejas assistirem, mas sim o direito dos doentes a serem assistidos. Se pusermos a questão do lado da pessoa que está doente, suponho que teremos uma abordagem e uma possibilidade de recriar toda esta estrutura de uma maneira muito mais humanizante e muito mais à altura da dignidade extrema, da qual se reveste a vida das pessoas.

Acredita que as alterações previstas no novo diploma legislativo que irá regulamentar a assistência religiosa nos hospitais ao abrigo da Lei da Liberdade Religiosa virão nesse sentido?
Essa lei está para ser regulamentada desde que foi feita, ou seja, desde 1980. É preciso que se diga que já antes dela ser regulamentada, nós fazíamos celebrações ecuménicas e, em muitos hospitais, havia capelães que de sua livre e espontânea vontade auxiliavam os membros de outras religiões que queriam entrar para acompanhar pastoralmente os seus doentes e tinham dificuldades com os sistemas de segurança dos hospitais. A realidade está adiantada em relação à lei. O que vier em termos de regulamentação, e espero que traga algo novo, vem consagrar muito do que está feito. Existe a crítica de que os agentes e outros pastores têm que entrar nos hospitais ao abrigo da Igreja Católica, o que representa uma certa tutela. É preciso esclarecer que não é uma tutela, simplesmente, numa situação real e prática que temos neste momento, em que a única coisa que existe são as capelanias católicas, nós estamos na linha da frente e apenas queremos ajudar. Sabemos a importância que tem para os católicos a assistência espiritual, não podemos não ser os primeiros a querer igual para todos. Quando as administrações dos hospitais ou os seguranças complicam, o que infelizmente acontece com alguma frequência, nós fazemos o possível para desbloquear a situação, mas não significa da nossa parte qualquer vontade de tutelar.

A população portuguesa é maioritariamente católica. É viável a existência de outras capelanias de outras confissões religiosas dentro dos hospitais?
Efectivamente esse é um dos dados mais difíceis de gerir. De facto, em termos de volume de trabalho para os assistentes religiosos das outras religiões, não haverá muitas regiões do país onde se justifique haver agentes assumidos pelo próprio sistema para trabalhar exclusivamente numa única instituição.

O Estado cumpre as suas responsabilidades nesta matéria de apoio espiritual aos doentes?
O Estado cumpre aquilo a que é obrigado por lei. Salvo algumas excepções, que parecem querer multiplicar-se, de administrações hospitalares, ou seja, não directamente o Governo, que se recusam a contratar capelães e a cumprir as responsabilidades a que estão obrigados. Não sabemos o que a nova lei irá trazer de novo, mas uma certeza é que o Estado não pode demitir-se do seu papel. O estado assume como tarefa sua prestar cuidados de saúde, depreende-se que são cuidados de saúde integrais. Não se podem prestar cuidados de saúde amputados de uma dimensão fundamental, que é a espiritual e religiosa. Espero que o novo enquadramento legal seja mais favorável do que aquele em que estamos, em que podemos chegar à situação disparatada de ter um capelão para 799 camas.

Da sua experiência diária com os doentes, comprova essa necessidade e apelo à dimensão religiosa, como forma de ajuda para suportar o sofrimento?
A saúde não pode deixar de ser espiritual. Sou um crítico acérrimo do conceito definido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), julgo que em 1948, em que saúde ficou definido como o estado de completo bem-estar bio-psico-social. Sendo assim não haveria ninguém saudável (risos). Nem vou referir a questão do mecanicismo e o facto de ignorarem a dimensão espiritual, até porque, creio que é na articulação entre o bio, o psico e o social que o espiritual surge e se afirma como o ponto de convergência entre todas estas dimensões. Mas o facto de apenas ter deixado o espiritual implícito levou a que muita gente esvaziasse o conceito de saúde da dimensão espiritual e religiosa. Não é possível conceber cuidados de saúde sem pensar na dimensão espiritual e religiosa. O homem é um ser espiritual e a abertura à transcendência faz parte da condição humana. Comprovo de facto essa necessidade e é curioso reparar que até mesmo a OMS, que em 1948 não foi capaz de explicitar a dimensão espiritual, quando muito mais tarde se viu confrontada com a necessidade de definir o que são cuidados paliativos, explicitou essa dimensão. Por um lado é bom, porque significa que há um reconhecimento de que fazia falta, por outro lado, dá a impressão de que a questão espiritual só chega quando chega a hora de morrer. Esse é um dos grandes equívocos da nossa civilização.

Foi precisamente aqui, na capelania do Hospital de S. João que surgiu o primeiro assistente espiritual português, e, curiosamente, uma mulher? Um sinal de mudanças dos tempos?
Um assistente espiritual é uma pessoa, não clérigo, segundo a alteração introduzida em 1992 à Lei da Liberdade Religiosa de 1980. Essa alteração veio criar a figura do assistente espiritual, que pode ser um diácono, um religioso ou uma religiosa. Apesar da Lei ser de 92, a sua aplicação prática demorou a ocorrer. Chegámos à situação de ter hospitais com lugares para capelães abertos e não providos, pois há falta de padres, quando tínhamos a possibilidade de optar pela figura do assistente espiritual. A primeira tentativa de nomear uma assistente religiosa bem sucedida foi precisamente aqui, no hospital S. João, há cerca de cinco anos. Existem ainda muito poucos assistentes espirituais no país.

A Igreja e a hierarquia eclesiástica são reticentes a esta mudança?
Temos um conceito muito clericalista de Igreja. Lembro-me perfeitamente quando a irmã Fernanda (assiste espiritual do Hospital S. João) começou a trabalhar cá e começou a constar-se esse facto surgiram questões do género: “Mas o que é que vai para lá fazer uma freira? Não dá a Santa-Unção, não confessa”… Este exemplo é apenas um que ilustra a incompreensão profunda do que é o trabalho dos capelães e dos assistentes espirituais, que é infinitamente mais do que administrar sacramentos. Não estou a falar apenas das estruturas hierárquicas da Igreja, que à semelhança de quase todas as instituições, também têm dificuldade em mudar.

No que concerne à prestação de cuidados paliativos aos doentes que análise faz do panorama em Portugal?
Estamos a caminhar. Está-se a fazer muita coisa em termos de formação e também se aposta na criação de novas unidades. Os cuidados paliativos são uma emergência nacional, para além de serem uma emergência global. Mas o que é que vão ser os cuidados paliativos? Vão ser a palavra definitiva de solidariedade da sociedade para quem morre? Ou serão a definitiva exclusão de quem morre da sociedade, lugares à margem para onde se deslocariam aqueles que, por estarem a morrer, já não servem?

Esse será o grande dilema á associado à prestação dos cuidados paliativos?
Este é um dilema que tem que ser preocupação. Temos que nos ocupar deste dilema antes, porque, efectivamente, os cuidados paliativos vivem permanentemente sobre esta linha de risco: tornarem-se na expressão última da solicitude da sociedade para com quem morre ou derraparem para “morredouros”, para onde se evacuam aqueles que já não querem ser vistos nem ninguém quer vê-los. Isto articula directamente com outra questão, a eutanásia, e com toda a cultura através da qual entendemos e lidamos com o sofrimento. Faço votos para que as IPSS se empenhem nesta causa, mas que a reflictam muito bem, porque esta é uma causa tão emergente, mas tão ambígua nas possibilidades de concretização.

A transferência da morte de casa para o hospital é uma necessidade da sociedade moderna?
A maioria dos doentes terminais não tem uma casa para morrer. O que os doentes têm é uma casa vazia o dia todo. É preciso que nos deixemos de irrealismos: não foi a morte que saiu de casa, foi a vida. O modelo da família mudou, a mulher saiu de casa e tudo mudou. Não sou defensor da morte no hospital, por isso é que sou defensor dos cuidados paliativos. Fazendo uma breve análise marxista, tivemos uma tese que era a morte em casa. Depois uma antítese que é a morte no hospital. Criemos uma síntese: a morte em cuidados paliativos. Isto é, uma morte que reúna o melhor das duas anteriores, ou seja, tudo aquilo que o hospital oferece de melhor ao morrer e tudo aquilo que a família e o lugar casa oferecia de positivo ao morrer e que se perde no hospital. Ter doentes a morrer em casas desertas? Não.

Como é que classifica a situação de funcionamento das capelanias hospitalares portuguesas?
Estamos num momento de viragem. Por um lado vai sair nova regulamentação, por outro, temos organizado em conjunto com a Faculdade de Teologia da Universidade Católica e o Instituto de Ciências da Saúde, um curso de especialização com nível de mestrado para a formação dos capelães hospitalares. Nesse curso inscreveram-se 60 pessoas, quase todos capelães. Nós, capelães, sempre defendemos que para o ser não basta ser padre, é preciso ter formação específica e há algum tempo atrás ninguém queria ouvir falar disso. Agora esse facto já é reconhecido, até pelos próprios bispos. As substituições de capelães estão também a renovar os quadros. Isto é uma alteração importante na imagem do capelão, que tradicionalmente é a do padre, também em fim de vida, que vai para o hospital porque no hospital é só sacramentar.

Portanto, ser capelão vai mais além do que é ser padre?
Para mim foi quase uma reordenação. Estes últimos oito anos foram uma refundação de mim.

 

Data de introdução: 2007-04-03



















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