Só sábios éramos sete…

1 - Quando eu estudava Direito, em Coimbra, antes do 25 de Abril, vários professores estavam ausentes, por fazerem parte do Governo.
O mesmo sucedia na Faculdade de Direito de Lisboa, que era, com a minha, a grande fornecedora do Governo e da Assembleia Nacional.
Não vinha daí grande vantagem para a eficácia governativa. Por um lado, quem mandava era Salazar, que não considerávamos o maior português de sempre, e mandava sozinho; por outro lado, a preparação jurídica não confere, como aliás nenhuma outra, competência para decidir, e decidir bem. E alguns professores havia que não tinham produzido ao longo da carreira, maior conhecimento do que o que estava na sebenta, que repetiam, sem uma novidade, ao longo de 30 anos.

Creio que a ideia que presidia ao convite a esses mestres para irem para os lugares do poder político era a de que ao conteúdo simbólico desses altos cargos convinha o ar grave e solene da borla e do capelo, bem como o facto de se tratar, na maioria dos casos, de gente respeitada e que se dava ao respeito.

Tinha muitos vícios a Universidade do meu tempo. Vícios que me parece que perduram, alguns até mais refinados, nas Universidades públicas de hoje: a gravidade e o ar solene, com o corpo vergado ao peso de ciência inútil, não é apanágio apenas de professores capazes, mas também dos enfatuados e dos tolos, aliás mais destes do que dos primeiros.

Mas, como sistema, parece-me bem que a escolha dos governantes, como dos deputados, recaia em quem deu profissionalmente provas de competência e saber. E sou também de opinião que ao exercício de cargos públicos vai bem alguma gravidade, de porte e de comportamento.

Nessa medida, é natural, e saudável, que o poder político se vá abastecer às Universidades de gente qualificada para o melhor exercício dos cargos de governo.

2 - Mas o que se passa hoje é o contrário. Isto é, em vez de serem os governos a irem municiar-se nas universidades, são estas que vão aos governos, e aos partidos que os suportam, recrutar os seus professores.

Os últimos dias da nossa vida pública têm sido alegrados pelos episódios da Universidade Independente, que ao que percebi, tem como dona uma universidade angolana (tanto assim que até houve um advogado a sugerir que, se em Portugal continuarem a prender os dirigentes dessa Universidade, o Governo angolano poderá retaliar, como fez com o caso Mantorras).

(Parece que há dois grupos, distribuindo-se os arguidos irmãmente por ambos: um, chefiado pelo Reitor, ou ex-Reitor, que já vai na terceira universidade que dirige – verdadeiramente um turbo-Reitor - e se caracteriza pelo uso de linguagem castiça; em entrevista, esclareceu que o Vice-Reitor é que tratava das “massas”, e que os documentos dos registos da Universidade, ao fim de alguns anos, “iam para o maneta” . Já não peço muita gravidade, mas alguma não seria fora de propósito. Sempre é um Reitor...- e que é amigo do Primeiro-Ministro; outro, chefiado pelo dito Vice-Reitor que tratava das massas, e que se encontra em prisão preventiva, e que é amigo do anterior Primeiro-Ministro.)

Mas há um fenómeno comum, nesta Independente como na Moderna, que foi também a nossa distracção há pouco tempo e a que esteve igualmente ligado o anterior Primeiro-Ministro e o próximo – e anterior – líder de um partido do Governo; ou na Lusíada, a que esteve ligado, para variar, um outro ex-Primeiro-Ministro; ou noutras mais discretas: a gente levanta uma pedra e sai do buraco um importante político, ou militante de um partido que foi, é ou vai ser poder. E que ou é professor, ou director, ou administrador, ou accionista de uma, ou de mais do que uma, dessas universidades privadas…

Ora, o que podem ensinar, o que sabem para ensinar, esses professores que fizeram o seu currículo, que tiraram o seu curso, que fizeram o seu mestrado, que se doutoraram na escola dos interesses do bloco central: a pequena manobra partidária, os negócios à sombra do Estado, os trabalhos a mais, as obras públicas desnecessárias ou inúteis, as comissões, as caneladas, as traições, enfim, o que o Eng. João Cravinho deixou dito?

3 - É certo que, ao vermos o que vai por essas escolas, e concretamente o que tem vindo a nu nesta Independente, e o que está a ser investigado pela polícia, como já foi noutras, fica-nos a suspeita de que os mestres afinal foram bem escolhidos, de acordo com o que queriam que ensinassem.
(Embora talvez só nestas matérias. Para tirar dúvidas, pelo menos no que diz respeito à minha área, o Direito, passei pela Almedina, para ver as obras cientificas de fôlego dos mestres que os jornais dizem que ensinam nelas - e não havia.)

Aliás, para substituir os professores que forem presos, ou que forem expulsos pelo grupo vencedor, e para manter o nível, as competências e as áreas de especialização, sugiro que vão recrutar os substitutos de entre os dirigentes do futebol.

Não têm curso?

Pedem equivalência.

 

Data de introdução: 2007-04-02



















editorial

Confiança e resiliência

(...) Além disso, há um Estado que muito exige das Instituições e facilmente se demite das suas obrigações. Um Estado Social não pode transferir responsabilidades para as Instituições e lavar as mãos quanto...

Não há inqueritos válidos.

opinião

José Leirião

A necessidade de um salário mínimo decente
Os salários, incluindo os salários mínimos são um elemento muito importante da economia social de mercado praticada na União Europeia. Importantes disparidades permanecem...

opinião

JOSÉ A. DA SILVA PENEDA

Muitos milhões de euros a caminho
O País tem andado a ouvir todo um conjunto de ideias com vista a serem aproveitados os muitos milhões de euros provenientes da Europa. Sobre o que é preciso fazer as coisas parecem...