DANIEL SAMPAIO, PSIQUIATRA, ESCRITOR

A criança e a família não estão na agenda política em Portugal

Nasceu em Lisboa, em 1946. Médico, especialista de Psiquiatria, coordena no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, o Núcleo de Estudos do Suicídio, destinado ao atendimento de jovens em risco de suicídio. O seu trabalho tem sido caracterizado por uma especial atenção aos problemas da adolescência, tendo conduzido muitas sessões de trabalho com professores, pais e alunos das escolas básicas e secundárias.
Foi um dos introdutores, em Portugal, da Terapia Familiar, a partir da Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar (fundada em 1979). Desde 2005 que está à frente de uma comissão técnica nomeada pelo Ministério da Educação para avaliar os projectos de educação sexual existentes nas escolas.
Autor de vários livros, entre os quais se destacam "Inventem-se Novos Pais" (1994), "Voltei à Escola" (1996) e, mais recentemente, "Árvore sem voz" (2004), não se considera um escritor. Os seus livros têm como ponto de partida as experiências que viveu em mais de trinta anos de profissão. E que vive ainda! A próxima obra está pronta e será lançada em Outubro.
Nesta grande entrevista ao Solidariedade, Daniel Sampaio, fala do défice de autoridade dos pais em relação aos filhos e na necessidade de se incluir as temáticas da família e da criança na agenda política portuguesa, entre muitos outros temas.

SOLIDARIEDADE - Está a liderar, desde 2005, uma comissão de diagnóstico para a introdução da Educação Sexual nas escolas. Qual é o balanço que faz, neste momento, da introdução da disciplina, tendo em conta que na altura mostrou-se desfavorável há inserção dessa matéria como uma disciplina isolada?
DANIEL SAMPAIO
- A lei da educação sexual é de 1984, tem 22 anos e, portanto, há escolas que têm muito boas práticas, que têm um trabalho muito bom com os alunos, com os professores, com os pais, com o centro de saúde e têm já experiência de trabalho de alguns anos. Por outro lado há escolas que estão a começar a iniciar esse trabalho, estão a começar a estruturar programas e há outras onde há muito pouco. O que nós estamos agora a fazer é uma proposta que permite a introdução do tema Educação para a Saúde até ao nono ano, que começa já no primeiro ciclo. Tem carácter obrigatório e, dependendo de cada escola, pode ser incluída nas disciplinas de Área Projecto, ou na opção Escola, ou no Estudo Acompanhado ou na Opção Cívica, que são áreas não disciplinares, que os alunos têm que frequentar, mas que não têm um conteúdo muito concreto. Nós propomos que a Educação para a Saúde seja incluída nessas áreas curriculares não disciplinares, em que os alunos possam fazer trabalhos de pesquisa, sejam orientados pelos professores e que possam ir adquirindo conhecimentos. O nosso modelo é um modelo transversal, ou seja, aproveita o que é dado nas disciplinas e, ao mesmo tempo, tem essa inclusão nessas áreas que já defini.

SOLIDARIEDADE - Qual será o papel dos pais? Tendo em atenção que existem diferentes culturas e religiões que encaram as questões da sexualidade de forma muito diversa…
DANIEL SAMPAIO
- A heterogeneidade não faz mal nenhum. Os alunos precisam de informação, mas essa informação tem que ser comentada por eles, têm que ter sítios próprios, para quando tiverem dúvidas poderem esclarecê-las. A escola tem cada vez mais alunos de diversas etnias, com culturas diferentes, com religiões diferentes, mas eles recebem a informação. Têm é que ter adultos para falar sobre isso. Por exemplo, a Internet tem tudo ao dispôr, é preciso é que os alunos reflictam sobre isso. A escola tem um papel complementar da família, ela vai acrescentar aquilo que a família não deu. Se, por exemplo, a família deu uma perspectiva contra as relações sexuais antes do casamento, a escola tem que mostrar que, para uma grande maioria das pessoas, neste momento, isso é normal, ou seja, dar uma informação complementar à da família. É preciso que a família participe neste processo, sobretudo com os jovens com menos de 16 anos. Não se devem tratar estes temas sem que os pais saibam que eles estão a ser tratados na escola. É preciso prudência, justamente devido às diferentes sensibilidades.

SOLIDARIEDADE - Actualmente, nota-se uma diminuição da autoridade dos pais sobre os filhos. Fala-se na chamada geração “canguru”, com o prolongamento da adolescência e da dependência dos filhos em relação aos pais. Em que medida esse aspecto influencia as relações familiares?
DANIEL SAMPAIO
- Esse é um tema muito importante, porque há claramente em muitas famílias um défice de autoridade dos pais. Mas temos que ser prudentes quando falamos nisto, porque há logo um conjunto de pessoas a dizer que é preciso bater nos filhos, que os pais têm que ser autoritários, têm que os proibir, os professores têm que ser mais severos. É muito perigoso pensar assim. O autoritarismo não funciona. As crianças, os jovens, principalmente, têm uma consciência muito grande dos seus problemas, dos seus direitos, conquistaram esses direitos e já não aceitam ser espancados ou humilhados como acontecia no princípio do século XX. Não é possível voltar atrás. Mas é preciso dar autoridade aos pais e essa autoridade constrói-se na relação e na infância. Não é na adolescência. As famílias devem instituir rotinas, criar regras. Aí a criança começa a reconhecer a autoridade dos pais, sobretudo se isso é feito com amor. A criança interioriza essas regras e a autoridade constrói-se na relação. Depois, quando chega à adolescência, se os pais acompanharem este movimento, já têm alguma autoridade. Os pais não devem dizer que sim a tudo aos filhos adolescentes, devem ter muito cuidado com as horas de entrada e de saída em casa, com os dinheiros, com a Internet, com o álcool, com as drogas. Desde muito cedo na adolescência, entre os 12 e os 13 anos, devem exprimir os seus pontos de vista.

SOLIDARIEDADE - Os pais não devem, portanto, assumir o papel de companheiros dos filhos?
DANIEL SAMPAIO
- Exactamente. Devem compreender, devem conhecer os amigos dos filhos, devem saber o que é que os jovens pensam. Há um autor brasileiro que diz que os pais devem adolescer, no sentido de compreender um bocadinho os adolescentes, mas têm que continuar adultos no sentido de, por exemplo, dizer, «eu não concordo que tu comeces a tua vida sexual aos 14 anos, é muito cedo»; «eu sou contra a que tu vás a uma discoteca com 14 ou 15 anos e estejas até às seis da manhã a beber álcool». Não quer dizer que os filhos não possam desobedecer, porque muitas vezes desobedecem, isso é normal. Mas têm que saber exactamente o que é que os pais pensam.

SOLIDARIEDADE – Pode considerar-se que a geração actual é mais rebelde, atendendo ao aumento da violência e da indisciplina nos jovens?
DANIEL SAMPAIO
- Não, considero que não. O que acontece é que essas coisas são muito mais mediatizadas do que eram antigamente, aparecem muito mais nos jornais e na televisão. Há, claramente, uma excessiva proximidade de gerações, um tema que tem sido objecto de investigações. Em muitas famílias, os filhos perderam a noção de que devem respeitar os pais, manter a hierarquia familiar. Isso é uma consequência de uma proximidade excessiva que houve a partir dos anos 80 entre as gerações. São os “pais camaradas”. Começou nos anos 60, mas é sobretudo a partir dos anos 80 que mais se divulgou. São uns pais muito permissivos, demasiado tolerantes, que acham que não se deve traumatizar as crianças, que não se deve dizer não.

SOLIDARIEDADE - Talvez uma consequência de décadas de depressão psicológica, com o Estado Novo?
DANIEL SAMPAIO
- É sempre assim. Os movimentos de ideias são consequências a movimentos anteriores. Até aos anos 50, as crianças não tinham direitos nenhuns, quando não tinham pais eram metidas em reformatórios e quando estavam em casa, eram postas a dormir, a comer e ninguém se preocupava em falar com elas. A partir dos anos 50 começou a perceber-se que um bebé sente coisas, que uma criança emite opiniões, que um adolescente também pensa. Então, começaram a surgir movimentos no sentido dos direitos das crianças: contra os maus-tratos, contra o abuso sexual. Depois seguiu-se um período de excesso. Deu-se demasiada importância e enfraqueceu-se a autoridade dos pais. No final do século XX, começou-se a reflectir sobre isso. Mas, reforço, é perigoso. Já há muitas pessoas a defender que é preciso voltar-se à dimensão autoritária, na qual não acredito.

SOLIDARIEDADE - No caso dos jovens institucionalizados, surgem situações muito dramáticas. Por exemplo, o caso recente dos menores acusados pelo Ministério Público do assassinato de um travesti no Porto. O que é que pode passar pela cabeça desses menores para cometer um acto de tamanha violência?
DANIEL SAMPAIO
- O que acontece é que essas instituições não trabalham com as famílias. É preciso trabalhar com as famílias para evitar a institucionalização. Muitas famílias têm muitos problemas, mas quem é que as ajudou a alterar o seu caminho? Portanto, o caminho mais fácil é retirar a criança aos pais e metê-la numa instituição. Depois, a criança já está institucionalizada e continua-se a não trabalhar com a família e a criança vai ficando na instituição.

SOLIDARIEDADE - E as instituições, nomeadamente, as IPSS, estão capacitadas para receber essas crianças?
DANIEL SAMPAIO
- Essas instituições têm muitas carências, nomeadamente os Centros Educativos. É uma problemática mundial, mas nuns sítios está melhor resolvida do que noutros. Normalmente esses centros são locais com más instalações, com poucos técnicos. É necessário fazer um grande investimento. É preciso ter professores muito treinados, psicólogos, assistentes sociais muito competentes. Mas isso custa caro. As pessoas ficam entregues a monitores, que até podem ter uma grande dedicação, mas que não têm especialização para desempenhar certas funções.

SOLIDARIEDADE - Bem ou mal têm sido as IPSS a assumir esse papel, por falta de respostas do Estado…
DANIEL SAMPAIO
- Em Portugal existem cerca de dez mil crianças em instituições e cinco mil em famílias de acolhimento. Temos 15 mil crianças e é impossível que o Estado tenha recursos para tudo. O que é preciso é haver supervisão. Essas instituições têm que ter vigilância e os técnicos que lá trabalham têm que reportar o que lá se passa e as dificuldades que têm. Tem que haver um acompanhamento dessas instituições. Nos países evoluídos do norte da Europa essas instituições são permanentemente vigiadas. O Estado tem um papel de vigilância, de verificação.

SOLIDARIEDADE - Outro caso é o da Casa do Gaiato. Pode considerar-se que o modelo tradicional adoptado por estas instituições, o de assumir as crianças como filhos, está ultrapassado e tem que ser alterado?
DANIEL SAMPAIO
- É preciso ter muito cuidado com a crítica que se faz às instituições, porque a verdade é que é muito difícil estar com essas crianças ou jovens. Não devemos logo condenar as pessoas que assumem esse papel. Mas é evidente que devemos reflectir sobre as questões de que já falamos. A autoridade, hoje em dia, não é passível de ser construída com castigos físicos, já ninguém aceita isso. É preciso ajudar essas pessoas a desenvolver trabalho com as crianças e adolescentes de modo a construir uma autoridade saudável. Há inúmeras coisas como, por exemplo, trabalho em grupo, teatro, expressão plástica, jogos. Há uma série de técnicas interactivas que permitem que essas questões sejam trabalhadas. Costuma acusar-se frequentemente as Comissões de Protecção de Crianças e Jovens, mas é preciso perceber que essas pessoas são voluntárias, trabalham em part-time e não têm apoios. São cidadãos de boa vontade, como eu costumo dizer. Um professor, um médico, um autarca vai para a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens, mas depois, reporta a quem? Escreve um relatório, mas depois quem é que o ajuda no dia-a-dia com essa criança? É um problema de política. O que acontece é que a criança e a família não estão na agenda política em Portugal. Já estão em muitos países, mas aqui ainda não.

SOLIDARIEDADE - No passado dia 10 de Junho foi distinguido pelo Presidente da República, Cavaco Silva, com a Ordem do Infante D. Henrique. Não teria sido mais gratificante recebê-la das mãos do anterior Presidente da República, seu irmão?
DANIEL SAMPAIO
- O meu irmão (Jorge Sampaio) nunca faria isso nem eu aceitaria uma condecoração das mãos dele. Ambos temos uma vida intensa, dez anos mais intensa a dele que a minha, mas temos isso muito bem definido. Ele poderia pensar que eu merecia a condecoração, mas nunca o faria nem eu aceitaria.

Texto: Milene Câmara e V.M. Pinto
Foto: Luís Silva

 

Data de introdução: 2006-07-08



















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