Praxes, claques e outras caricaturas

1 - Fomos recentemente informados pelos jornais de que o Futebol Clube do Porto cortou relações com a claque dos Superdragões.
Notícia curiosa, essa, e causa de algum espanto: é que, quando assistimos a comportamentos mais bizarros dessa claque, nunca percebemos se ela age assim por vontade sua, ou a mando de alguém. Pelo que, no caso concreto, ficámos sem saber se houve apenas um excesso de entusiasmo na lapidação do carro do treinador, ou se tudo foi planificado para ser como foi.
Foi, aliás, uma perplexidade desse tipo que nos sobrou quando assistimos, nos tempos mais recentes, ao papel das claques no afastamento de José Mourinho ou de Derlei do clube das Antas.
Desta claque, como de outras, de outros clubes, a ideia que retemos é que são assim como que uma guarda privativa dos chefes, dos dirigentes, sempre disposta ao combate a um simples sinal.
Tais combates são quase sempre desordeiros; outras vezes trágicos - como numa final da Taça de Portugal, aqui há alguns anos.
A fama que as precede é semelhante à dos Hunos sob Átila e todos correm a refugiar mulheres, crianças e bens, à simples ameaça da sua passagem - de que são exemplo as estações de serviço das auto-estradas.

2 - A mesma semana foi também liberal nas notícias que nos trouxe sobre as praxes: foram as mães dos soldados russos que criaram um movimento de desobediência civil após uma série de mortes de recrutas nas praxes iniciáticas do exército russo; e foi, entre nós, o julgamento das sevícias impostas a uma aluna - uma "caloira" na linguagem dos "doutores" - da escola Superior Agrária de Santarém.
Do que aqui, no nosso exemplo doméstico, se tratou foi de pegar na rapariga pelos pés e enfiar-lhe a cabeça num balde de bosta de boi, até a aluna desmaiar, entre outros mimos, quase todos de "fetiche" sexual.
Aliás, esta compulsão à prática mimética - às vezes à prática real - de actos de natureza sexual é nota comum à maior parte dos casos de praxes denunciados na imprensa, o que vem mostrar o nível dos "doutores".
Tais praxes constituem - dizem os seus defensores - uma forma saudável de integração dos jovens alunos no meio escolar.
A gente podia pensar que só os alunos mais velhos, os que praxam, se acobertavam nesta história da integração, como pretexto para auto-justificarem as verdadeiras sevícias - os crimes, a falar verdade - que praticam.
Mas não. Ouvidos sobre os excessos da praxe, os reitores, ou os directores das escolas logo tratam de branquear os excessos e de os justificar pela mesmíssima integração. Ou até de sancionar os alunos que, com coragem, denunciam os abusos, como sucedeu no Instituto Piaget, em Macedo de Cavaleiros.
Ora, destes doutores - por extenso, professores doutores -, podemos esperar que ensinem aos alunos a forma de organização social das ovelhas, tese em que porfiaram ao longo de 20 anos de esforçado estudo, e cujo modo de andar - a quatro patas - constitui modelo que serve para as pessoas.
Como diria o Eça, porém, dessas escolas os bacharéis não saem cidadãos; saem duma forma que os dobra pelo cachaço - habituados a obedecer e a serem humilhados para a vida toda. (É por isso que nenhum aluno teve a coragem de depor como testemunha).
3 - Quer num caso, quer noutro, do que se trata é da existência de grupos, ou de bandos, ou de trupes, organizados e cuja actuação, umas vezes criminosa, outras apenas ordinária, significa limitação efectiva e prática da nossa liberdade.
É que é num país civilizado e livre que queremos viver. Nem toda a gente o quer. Zonas do mundo há em que a intolerância, as penas cruéis e degradantes - em que a lapidação não tem como destinatário o automóvel de Co Adrianse, mas mulheres -, o terrorismo, o rapto e assassínio de quem pensa diferente, constituem, não motivo de repulsa, mas coroa de glória.
Também o início deste mês nos deu conta de alguns sinais desse ódio, desta vez à liberdade de imprensa, por um jornal livre dum país livre ter publicado caricaturas de Maomé - caricaturas que aliás alertavam para muita daquela violência abusivamente praticada em seu nome.
As reacções, violentas, como nos vamos habituando a ver, de alguns países muçulmanos tiveram eco em alguns dos nossos dirigentes, do mundo ocidental, que logo vieram estender o dedo acusador ao que chamavam abuso de liberdade de imprensa.
Para justificar a censura, Salazar não diria melhor.

Já agora: porque não um auto de fé? 

* Presidente da Direcção do Centro Social de Ermesinde

 

Data de introdução: 2006-02-20



















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