EUGÉNIO FONSECA, EX- PRESIDENTE DA CÁRITAS

Sair da Cáritas sem deixar de o ser

O mote de um dos poemas de Geraldo Vandré diz: esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Esta recomendação evidencia a razão pela qual, no início deste meu último mandato como Presidente da Cáritas Portuguesa, que agora
findou, eu ter prevenido a autoridade eclesiástica competente de que este seria o meu último mandato. Mais tarde, soube que a minha decisão sintonizava com a vontade dos bispos, facto que veio dar maior consistência à minha vontade.

Não foi fácil aceitar esta exigente missão. D. António Francisco Marques, 1.º Bispo de Santarém, homem simples e bondoso, lançou-me o desafio de aceitar ser presidente da Cáritas Portuguesa. Nunca tive a coragem de responder afirmativamente ao seu convite, apesar de várias insistências, pois tinha consciência de que iria substituir uma figura ímpar, na área social, do nosso país que é Dr. Acácio Catarino. Só passados dois anos, já D. António tinha falecido, aceitei assumir o cargo que iniciei em finais de junho de 1999.

Na ocasião, fiz questão de manter uma das atividades que era muito acarinhada pelo meu antecessor. Apesar dos muitos esforços por manter esse Programa, não durou mais que cinco anos. Tive pena, pois tinha um significativo alcance social na superação das dificuldades que tornavam o atendimento de determinados casos de precariedade socioeconómica mais difícil de solucionar.

Impressionava-me a capacidade de resiliência do meu antecessor, que fiz questão de ser ele a manter a colaboração com os técnicos das Cáritas Diocesanas que integravam o Programa. Se esta atividade se tivesse mantido, talvez a Cáritas tivesse dado um contributo importante para uma maior eficácia nesse atendimento social de proximidade.

A prioridade foi criar um mínimo de condições logísticas e funcionais. Ainda me sensibiliza a heroicidade do meu antecessor que, apesar de tão limitadas condições de funcionamento tudo fazia por manter viva a Cáritas e responder às solicitações. Criar uma equipa de voluntários, trazer a sede mais para o centro da cidade de Lisboa e reforçar o pessoal assalariado, que na altura contava apenas com uma técnica, um motorista e uma senhora que, a meio tempo, assegurava a higienização das instalações, foi uma das preocupações. A Sede foi, então, transferida para a “casa da porteira” num imóvel, propriedade da Cáritas Portuguesa. Ao mesmo tempo, iniciaram  se as visitas às Cáritas diocesanas para dar cumprimento a uma das fundamentais finalidades desta instituição oficial da Igreja que é a animação da pastoral social. O que interessava era que, em cada Diocese, existisse uma Cáritas. Conseguiu-se que 20 das 21 Dioceses as tenham agora, já estruturadas e a funcionar com a especificidade de cada uma das suas Igrejas particulares, investindo umas mais em gestão de equipamentos sociais, outras na criação e acompanhamento de Grupos Paroquias de Ação Social, embora nem todos tenham vindo, a designar-se, como deviam, por Cáritas Paroquiais. Há ainda Cáritas Diocesanas que têm estas duas vertentes em complementaridade.

Deixo a Cáritas com a insatisfação de não ter conseguido a criação de uma verdadeira “rede Cáritas”. As assimetrias existentes não facilitam um planeamento de intervenção social e pastoral mais apoiado e articulado. É imperioso que surjam, por parte da Conferência Episcopal, orientações bem concretas e assumidas com determinada convicção, para uma adequada organização da Pastoral Social.

Nunca contestei a autonomia pastoral das Dioceses, pois incorreria num erro eclesiológico. Esta realidade, bem entendida, potencia um conhecimento mais preciso das comunidades humanas abrangidas por elas; aumenta a diversificação de recursos dada a variedade de meios endógenos de cada região do país; aumenta a criatividade estimulada por culturas diferentes; facilita um acompanhamento mais persistente das iniciativas. Estas boas possibilidades, em Igreja, só o são quando partilhadas ou, como se dizia em referência às primeiras comunidades cristãs, “postas em comum” (Cfr. At. 2, 44). A autonomia não se pode sobrepor ao dinamismo de comunhão. Pior ainda quando se confunde autonomia com independência.

Esta é uma das limitações que nunca tive a arte de ajudar a superar. Em termos gerais valeram a pena estes anos de serviço aos pobres, através da Cáritas. Saí da instituição Cáritas, mas jamais deixarei de me esforçar por ser “cáritas” junto dos “últimos” da sociedade. Deixei uma “trincheira”, mas, até ter condições pessoais, não abandonarei o “combate”.

Das muitas mensagens que tenho recebido, transcrevo uma, que julgo ande a circular nas redes sociais e que diz: Tudo tem o seu tempo… A maior das árvores um dia foi semente…Não é preciso apertar o passo, mas acalmar o coração …No tempo certo virá, e será de forma tão linda e divina que dirás: Valeu a pena meu Deus, obrigado!

 

 

Data de introdução: 2020-12-09



















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