CASA DO POVO DE VILARANDELO, VALPAÇOS

A função que desempenhamos cabe ao Estado e este não ajuda o suficiente

O Solidariedade regressou à Casa do Povo de Vilarandelo, concelho de Valpaços, 12 anos depois para saber como tem prosseguido a sua ação e se há muitas diferenças entre 2012 e 2024.
Logo à partida, há uma nova presidente da Direção, Isabel Sequeira, que este ano encetou novo mandato. Já, em termos de valências, a instituição neste período de tempo encerrou três – Pré-escolar, Centro de Acolhimento Temporário e ainda o SAD Integrado – e, tal como noticiámos na altura, ampliou para o dobro o lar de idosos.
Assim, hoje, a Casa do Povo de Vilarandelo cuida de 26 crianças em creche, de 60 idosos em ERPI, de 80 no SAD, de 16 em Centro de Dia, para além de acompanhar mais de 300 famílias no âmbito do RSI. Tem ainda uma cantina social, tudo respostas que dá com uma equipa de 80 funcionários.
Sobre como tem sido a vida da instituição, Isabel Sequeira afirma: “A instituição está para continuar, porque as necessidades são crescentes, sobretudo na área dos idosos. Temos uma população, cada vez mais, envelhecida e necessitada, porque muitos vivem sozinhos e não têm retaguarda familiar, pelo que precisam do nosso apoio. A prova disso é que temos uma lista de espera muito grande e se tivéssemos mais 30 ou 40 camas enchia num dia”
E se há 12 anos a instituição está a promover um investimento na ampliação do lar, de 30 para os atuais 60 utentes, “as dificuldades para fazer uma obra nova torna a ideia impensável neste momento, pois seria incomportável”, refere a presidente da instituição, acrescentando: “O grande problema é que a instituição já tem um nível de endividamento muito alto, decorrente de investimentos anteriores que ainda não foram pagos na totalidade. Quando nos dão um apoio de 65% ou 70% é preciso ter o resto e como não o temos, é necessário recorrer a empréstimos bancários. As últimas obras que fizemos na remodelação do Centro de Dia, que estava mesmo necessitado, só na revisão de preços foi um balúrdio e isso não foi financiado”.
Por isso, Isabel Sequeira sustenta que tem de haver cautela, revelando uma perspetiva de futuro que a instituição gostaria de abraçar.
“Neste momento, a instituição não pode pensar em outros investimentos, senão seria cavar um fosso muito grande, que não conseguiríamos ultrapassar. Depois estamos dependentes que o município de Valpaços faça obras num lar em Sonim, que faz parte da nossa área de intervenção, e que tem apenas capacidade para 12 utentes, o que é insustentável de gerir. A autarquia comprometeu-se em construir uma ala para 30 utentes e, então, já será viável a pôr o lar a funcionar. Estamos dispostos a assumir a gestão, desde que as obras estejam concluídas”, argumenta.
Se a situação financeira não é dramática, também não dá grande descanso aos dirigentes.
“Vamos sobrevivendo com o crédito bancário. As comparticipações dos nossos utentes são baixas, porque a maior parte são pensões de sobrevivência do mundo rural. As mensalidades são pequenas e o valor das comparticipações da Segurança Social não chega sequer para pagar os salários, o que nos causa muitos constrangimentos. Requer uma ginástica financeira exigente. O que nos vai salvando é que utilizamos a linha de crédito sempre no limite… Só em salários e encargos com os mesmos, em 2023, foi quase um milhão de euros”, revela Isabel Sequeira, que recorda os enormes encargos que a instituição suportou no período da pandemia de Covid-19.
“Na fase da pandemia, os custos com pessoal foram enormes, porque houve muitos trabalhadores que ficaram aqui durante muito tempo a dormir na instituição. Isto, para além dos gastos com os equipamentos de proteção individual e não só”, conta, lembrando que foi necessário recrutar mais gente para trabalhar: “Os próprios utentes ficaram mais debilitados e precisámos mesmo de reforçar a equipa de funcionários. Isso acarretou-nos custos que ainda não conseguimos superar”.
De momento, o grande constrangimento, para além do financeiro, que os dirigentes da Casa do Povo enfrentam é algo que começa a atingir todo o país: falta de mão de obra para trabalhar nas IPSS.
“Começamos a ter dificuldade em arranjar funcionários, porque este é um trabalho exigente, em termos físicos e emocionais. Desde a pandemia que sentimos os funcionários um pouco em burn out, inclusive algumas pessoas despediram-se, porque o período da pandemia foi realmente muito pesado”, recorda, explicando que “não é um trabalho fácil, há muitos utentes com demência e outros acamados e é preciso ter capacidade física e mental para lidar com estas pessoas da forma correta”.
Depois, os tempos modernos trazem novas realidades a que importa dar atenção e isso, muitas vezes, é um obstáculo à contratação de pessoal: “Hoje é preciso conciliar a vida familiar com o trabalho e nem sempre é fácil, porque aqui há turnos, ou seja, não há fins-de-semana, nem feriados, porque a instituição nunca fecha. Este equilíbrio nem sempre é fácil de alcançar. Depois, ainda conseguimos manter pessoas em Vilarandelo, porque há empregos, mas cada vez é mais difícil encontrar pessoas para trabalhar na instituição”.
Para Isabel Sequeira, a vida difícil das IPSS podia ser facilitada se o Estado assumisse devidamente as suas responsabilidades.
“A função que desempenhamos cabe ao Estado e este não ajuda o suficiente. São as exigências que temos de cumprir, e cumprimos, porque fazemos mais do que nos é exigido, pois não estamos aqui para cumprir os mínimos e assim fica difícil. Por exemplo, os salários têm subido, mas a comparticipação do Estado não acompanha essa subida”, lamenta.
Ainda assim a dirigente olha o futuro com otimismo, apesar de “algumas dificuldades”.
“Vilarandelo sempre conseguiu superar as dificuldades, porque quem cá vive tem um grande apego à terra. E as gentes farão tudo o que puderem para que a Casa do Povo não morra. Já temos alguns jovens que estão ligados aos órgãos sociais e muitos mais ligados ao futsal, à banda de música e ao rancho folclórico da instituição. Esta é uma forma de manter os jovens por perto e de se relacionarem com a Casa do Povo, criando-lhes um sentimento de pertença para que se envolvam”.
E como seria Vilarandelo sem a Casa do Povo?
“São cenários que não queremos imaginar, mas, se não existisse a Casa do Povo, penso que outra instituição ocuparia esse espaço. Agora, não acredito que fizessem tão bem quanto nós, nem que prestassem um serviço melhor do que aquele que prestamos. Nós fazemos toda a diferença em estar aqui em Vilarandelo, não só na vida dos utentes que servimos, mas também na ajuda para que famílias se fixem aqui”, afirma Isabel Sequeira.

 

Data de introdução: 2024-04-10



















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