JOSÉ A. DA SILVA PENEDA

As contas da tragédia dos incêndios de 2017

Exerço as funções de Presidente da Assembleia Geral da União das Misericórdias Portuguesas (UMP) e é com satisfação que constato que entre a Confederação das Instituições Particulares de Solidariedade (CNIS) e a UMP há uma articulação muito positiva que tem funcionado em torno de problemas que, sendo comuns, obrigam a uma atuação concertada, nomeadamente no que se refere ao diálogo com o governo.

Nesta época da luta contra a pandemia essa articulação tem sido uma realidade. Isso deve-se, em grande medida, ao conhecimento dos problemas e à capacidade de liderança revelada pelo Senhor Padre Lino Maia, no caso das IPSS e pelo Dr. Manuel de Lemos na UMP. A estas personalidades se deve muito do que se tem resolvido em situações causadas pela falta de articulação entre entidades oficiais que, em muitos casos, resultam da falta de conhecimento do que verdadeiramente se passa no terreno.
Nos últimos três meses tenho sido testemunha da angústia e do medo que acompanharam a vida diária de muitos dos dirigentes e trabalhadores das Santas Casas da Misericórdia e das IPSS. A dedicação de que deram provas em circunstâncias muito adversas deve merecer o mais profundo reconhecimento dos portugueses.

A exemplo do que aconteceu devido à última crise vivida durante a época da troika, mais uma vez ficou patente o papel insubstituível desempenhado pelas instituições sociais na resolução de muitos problemas, especialmente relacionadas com pessoas em situações de alto risco. A prova é que os dados até agora conhecidos comparam muito favoravelmente com os de instituições idênticas na Europa.

Mas tarda que esse reconhecimento se traduza numa atitude diferente por parte do Estado, especialmente no que tem a ver com o conteúdo das formas de cooperação que se vão desenvolvendo com a progressiva acumulação de sacrifícios por parte das instituições.  As políticas sociais só serão eficazes se beneficiarem, na sua conceção e ação, da colaboração por parte de quem está perto dos problemas. E esse conhecimento está em larga medida, como fruto da experiência vivida nas IPSS e nas Misericórdias. Não aproveitar esse valioso capital adquirido na vivência quotidiana é um desperdício incalculável para o País. Não perceber isto é miopia política.

Sinceramente, temo que esta miopia alimente o cansaço e o desânimo de muitos dos dirigentes das instituições sociais que só têm resistido, graças à força interior que possuem, ao seu sentido de missão e à responsabilidade que assumiram perante os seus conterrâneos.

Já sabemos que quando as coisas correm bem não são notícia, mas quando há uma instituição que por desleixo ou incúria não fez o que devia, a nuvem é tomada por Juno e são os muitos milhares de instituições sociais que ficam com a imagem desgastada perante a opinião pública. Vem isto a propósito do que se passou na última Assembleia Geral da UMP realizada no dia 27 de junho, em Fátima, em que foram aprovados, por unanimidade, o Relatório de Atividades e a Conta de Gerência do exercício social de 2019.

Para além da Assembleia se ter também congratulado com a forma como as Santas Casas da Misericórdia geriram os efeitos da pandemia, o ponto que gostaria de sublinhar neste artigo, foi a gestão financeira da recuperação de habitações provocada pelos fogos que deflagraram, em junho de 2017, nos concelhos de Pedrógão Grande, Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos, Góis, Pampilhosa da Serra, Sertã e Penela.

Recordo que a tragédia vivida naqueles concelhos emocionou o País e foram muitas as iniciativas que foram surgindo com o objetivo de apoiar as vítimas. Entre muitas dessas iniciativas realizou-se um espetáculo que mobilizou muitos artistas e que decidiram entregar o dinheiro da receita arrecadada à União das Misericórdias. Outras entidades “engrossaram” o montante para apoio às vítimas da tragédia e a Fundação Gulbenkian decidiu fazer uma parceria com a UMP com o objetivo de recuperar as casas de habitação destruídas pelos incêndios. Na altura surgiram vozes que tiveram eco na comunicação social de que não haveria certezas sobre o modo como seria aplicado esse dinheiro dando a entender que algum seria perdido pelo caminho, indo parar a bolsos de gente pouco escrupulosa. Foi na altura que decidi assumir publicamente um compromisso segundo o qual no fim do processo, seriam apresentadas as contas ao detalhe, cêntimo a cêntimo.

Foi o que aconteceu nesta Assembleia Geral. Foi aprovado o Relatório de Execução Financeira do Apoio à Reconstrução das Casas naquela zona do País, devidamente auditado pelo Revisor Oficial de Contas e, nesse relatório, aparecem todos os donativos recebidos pela União das Misericórdias e todos os gastos efetuados discriminados casa a casa e fatura a fatura.

O compromisso assumido ficou assim cumprido e desse facto demos nota à agência Lusa que emitiu uma nota para todos os órgãos de comunicação social. Já passaram vários dias e nem uma linha apareceu a dar conta do facto.

Imaginem se fosse uma qualquer instituição social a não cumprir qualquer mínimo, o ruído que surgiria em tudo que fosse jornal ou televisão.

 

Data de introdução: 2020-07-09



















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