ASSOCIAÇÃO SOCIAL E CULTURAL DA FREGUESIA DE BRITELO, PONTE DA BARCA

Ainda há na zona muitas habitações sem casa de banho nem eletricidade

Em dezembro próximo, a Associação Social e Cultural da Freguesia de Britelo celebra o 20º aniversário. A instituição do concelho de Ponte da Barca serve uma população muito envelhecida num território que ainda tem alguns casos em que as habitações não têm casa de banho nem eletricidade. Estando já aplicar todas as orientações e recomendações emanadas pelas autoridades, a instituição, reconhecendo o esforço e dedicação das trabalhadoras nesta hora difícil de combate à Covid-19, decidiu atribuir um subsídio de risco no valor de 100 euros/mês a cada funcionária.
Apesar de ter nascido com o objetivo de conseguir construir uma Estrutura Residencial Para Idosos (ERPI), a Associação Social e Cultural da Freguesia de Britelo desenvolve apenas a resposta de Serviço de Apoio Domiciliário.
No entanto, e face à falta de condições das habitações de vários utentes, estes passam os dias na instituição, que está, de momento, a providenciar a criação de um centro de dia.
Atualmente, e desde que a pandemia da Covid-19 se abateu sobre Portugal, os utentes têm que ficar nos seus domicílios, o que nem todos ainda percebem muito bem, uma vez que preferem passar os dias na Associação.
“Os utentes estão sempre a perguntar às funcionárias quando é que voltam para a instituição”, começa por dizer Joana Cruz, diretora de serviços da instituição, confessando que, no início, teve “alguma dificuldade em mantê-los em casa”.
Assim que foi dado o primeiro alerta pelas autoridades da Saúde, a Associação pôs em prática o seu plano de contingência.
“Começámos logo a funcionar em espelho, com duas equipas, uma a trabalhar e a outra em casa, trocando a cada cinco dias”, explica, avançando que, para já, “não foi preciso reforçar o quadro de pessoal, mas a diretora de serviços está aqui de bata a lavar panelas”.
Reconhecendo o empenho e disponibilidade das trabalhadoras, “a Direção da Associação decidiu atribuir um subsídio de risco a cada uma no valor de 100 euros/mês”, sublinha Joana Cruz.
Quando o SOLIDARIEDADE visitou a instituição a Covid-19 ainda era só um problema chinês, por isso ainda foi possível ver, conversar e fotografar os utentes na instituição, que ocupa o edifício de uma antiga escola primária.
Depois de um período mais conturbado, a instituição apostou na melhoria dos serviços e na angariação de mais utentes, com o fito na sustentabilidade. Hoje serve 30 idosos com uma equipa de oito funcionárias.
“Na criação da Associação o objetivo, como está nos estatutos, era a criação de um lar de idosos, no entanto, para tal é preciso muito dinheiro e outra capacidade que, para já, a instituição ainda não tem”, afirma Joana Cruz, acrescentando: “Porém, desde que cá cheguei, em 2015, o objetivo é estabelecer um centro de dia. Temos que dar um passo de cada vez. Não podemos ir do SAD logo para o lar de idosos. Vamos, primeiro, passar por um centro de dia, criando as melhores condições para que os utentes aqui possam estar durante o dia, assegurando-lhes alguns serviços quando eles ao fim do dia vão para casa. O propósito é tratá-los com qualidade, prevenindo e adiando a institucionalização”.
Para Joana Cruz, se a instituição fizer “um trabalho com mais proximidade e mais individualizado a cada utente consegue prevenir aquilo de que os idosos mais receio têm, que é a ida para o lar”.
Como foi possível observar, no edifício da antiga escola primária decorriam obras de beneficiação do espaço interior, a fim de criar condições para a implementação do centro de dia.
“Temos esta obra em curso, com o objetivo de conseguirmos licenciar o centro de dia para 20 utentes. Temos utentes que já passam os dias aqui na instituição. Apesar de serem utentes de SAD, passam o dia connosco, porque não têm condições em casa”, explica a diretora de serviços, revelando as mudanças que já introduziram na instituição: “Por isso, optámos por ter mais uma funcionária e assim podemos fazer a recolha dos utentes, que aqui passam os dias, fazendo as mais diversas atividades. São cerca de 10 que passam o dia na instituição”.
Na prática, o centro de dia já funciona, estando em falta o licenciamento e o acordo de cooperação com a Segurança Social, daí as obras que estão a decorrer.
Ao serviço estão seis carrinhas, não todas para o SAD, porque, para além da recolha dos utentes, a instituição desenvolve também muitas atividades ao longo do mês, pelo que são necessárias viaturas para transportar os utentes.
Em termos de SAD, a instituição abrange o território das freguesias de Britelo e Lindoso.
“Temos pedidos de outras freguesias, mas há uma outra instituição numa freguesia vizinha, que é maior, pelo que não se justifica andarem várias carrinhas a fazer os mesmos percursos. É algo insustentável. Sempre que nos chega um pedido dessa freguesia, primeiro encaminhamo-los para essa outra instituição”, refere Joana Cruz, que lembra: “Estas são as duas maiores freguesias do concelho de Ponta da Barca e para levar as refeições a Lindoso são 15 quilómetros para cada lado. E fazemos três viagens, porque levamos pequeno-almoço, almoço e lanche”.
Sendo uma instituição pequena, situada num território envelhecido e com muitas carências a nível social.
“Temos que fazer um grande esforço para manter as contas equilibradas, vamos tenteando o dinheiro, mas é difícil, porque a situação financeira não é folgada”, refere o tesoureiro Luís Soares, que adianta: “Este é um meio muito isolado e ainda agora as coisas estão melhores em termos de acessos, mas mesmo assim... E a Associação será, dentro em breve, a grande entidade empregadora aqui da zona. Temos uma população muito velha e que precisa de muito apoio e cada vez de mais serviços”.
“Temos alguns utentes com reformas bastante avantajadas, cerca de 10% do total, que eram funcionários da EDP, guardas florestais e fiscais, mas esses utentes têm muita idade e são cada vez menos. O resto são pessoas com reformas da agricultura”, sustenta Joana Cruz.
Para equilibrar as contas, para além das comparticipações dos utentes e da Segurança Social, a instituição conta com a quotização dos associados e promove ainda algumas iniciativas de angariação de fundos.
“Como os nossos estatutos preveem também serviços aos associados, como transportes e acompanhamento a consultas médicas, temos desenvolvido essa vertente, o que constitui uma fonte de receita. Os transportes a utentes e a associados são pagos à parte e são uma boa receita que temos, por vezes, paga mesmo o combustível do mês”, revela a diretora de serviços, que sobre a situação financeira refere: “É equilibrada e apertada e não dá para grandes voos. O acordo com a Segurança Social não leva em conta se temos que andar 15, 20 ou 30 quilómetros, o tipo de caminhos que temos que percorrer, como alguns que só dá para passar arranhando os espelhos das carrinhas ou outros que as carrinhas nem passam. São acordos iguais para toda a gente, mas devia considerar estas situações. Devia haver uma descriminação positiva”.
Joana Cruz sublinha que as condições de habitabilidade de muitas pessoas nas freguesias que a instituição serve são muito precárias.
“Ainda temos por aqui muitas habitações sem casa de banho e sem eletricidade. Por isso é que as pessoas preferem estar aqui e de inverno a situação piora, porque as casas não têm condições. Nesse sentido, tentamos que estejam aqui connosco e que vão só para casa para comer a sopa que levam daqui e depois dormir”, afirma, destacando que a média etária dos utentes está acima dos 80 anos. “A mais velha tem 95, mas é gente muito autónoma. É gente rija. Gente de ainda tomar o bagacinho de manhã!”, revela, sorrindo.
Contando ter o centro de dia pronto a entrar em funcionamento em 2021, Joana Cruz revela que a Associação integra ainda o Plano Operacional de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas (PO APMC), até 2023, distribuindo alimentos a 68 pessoas necessitadas dos concelhos de Ponte da Barca e Arcos de Valdevez.
E se os caminhos que as carrinhas da instituição têm que percorrer para servir os utentes nas suas casas são um problema constante, a Associação depara-se com uma dificuldade ainda maior.
“A grande dificuldade prende-se com os recursos humanos. É muito difícil contratar pessoal. Encontrar a pessoa certa para trabalhar com idosos, que necessitam de uma especial atenção, é muito difícil. Neste trabalho, apenas quem gosta é que consegue ser capaz. A formação não é suficiente para se fazer este trabalho, é preciso ter gosto por aquilo que se faz. Neste momento, escasseia quem goste de trabalhar com idosos”, assevera Joana Cruz, sublinhando: “Aqui trabalhamos como uma família e isso vê-se no relacionamento com os utentes e com os fornecedores. Por isso, o presidente da Câmara de Ponte da Barca diz que nós trabalhamos com o coração”.
Como seria Britelo sem a Associação?
“Era muito diferente. E as pessoas, cada vez mais, têm consciência disso e dizem que ainda bem que existe a Associação. Se não fosse a Associação o que era deste ou daquele…”, refere Joana Cruz, rematando Luís Soares: “Se calhar, a maior parte dos utentes que aqui estão já não estavam vivos”.

 

Data de introdução: 2020-04-06



















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