FUNDAÇÃO AURORA BORGES, SEIA

Altruísmo e empenho resulta em instituição de referência

Começou pela terceira idade e pela infância, cresceu e abraçou a área da deficiência e, agora, gostava também de ajudar na vertente das demências. Situada na freguesia de Santa Marinha, no sopé da Serra da Estrela, a Fundação Aurora Borges é uma das instituições de referência do concelho de Seia e combate com todas as armas a necessidades sociais e ainda a interioridade. Daí ter também um jornal mensal e um programa de rádio, para “dar a conhecer ao Mundo” a instituição e o seu trabalho.
O espírito altruísta de Aurora Borges, natural de Santa Marinha, concelho de Seia, e o empenho de Eduardo Cabral pôs de pé uma instituição essencial no apoio às populações de um território deprimido e vizinho da majestosa Serra da Estrela.
Aurora Borges quis criar com o património que tinha uma instituição de cariz social, sedeada na sua terra Natal, mas não era isso que estava para acontecer.
“Ela tinha feito um testamento em que deixava o seu património ao Centro Paroquial de Seia”, mas depois de uma longa conversa com Eduardo Cabral, decidiu reformular o documento e direcioná-lo para a criação de uma instituição em Santa Marinha.
A opção por uma fundação foi de Eduardo Cabral, o homem que Aurora Borges incumbiu de cumprir o seu desejo e que até hoje tem sido o timoneiro de uma casa que, em 25 anos de vida, tem crescido sustentadamente, tocando já as áreas da infância, terceira idade e deficiência, prestando ainda um diversificado apoio social às comunidades que serve.
Foi Eduardo Cabral que contactou algumas pessoas da terra e, em 1991, nascia a fundação, com um edifício antigo e mais 23.500 contos, que era o património da fundadora ao tempo.
Fizeram-se obras no edifício, criando-se um pequeno lar para 10 pessoas, inaugurado a 15 de fevereiro de 1993.
“A partir daí a Fundação não mais parou de crescer”, diz Eduardo Cabral, lembrando que “aos poucos foi aumentando a capacidade do lar”, mas ainda em 1993 a instituição passa a acolher uma creche que funcionava na freguesia, mas em condições pouco recomendáveis.
Por iniciativa própria, a instituição arranca com um Serviço de Apoio Domiciliário (SAD), que hoje abrange 16 freguesias do concelho de Seia.
Posteriormente, foi construído o novo edifício, que oferece ainda hoje excelentes condições e, assim, foi crescendo o número de utentes apoiados pela Fundação Aurora da Ressurreição Coelho Borges, de seu nome completo.
Atualmente a instituição serve nas diversas respostas sociais mais de 200 utentes (62 em ERPI; seis em Centro de Dia; 55 em SAD; 15 em creche; 15 em Pré-Escolar; quatro em ATL; 24 em Lar Residencial; 20 em CAO; e 24 na Cantina Social), com uma equipa de 90 funcionários.
As respostas de creche e pré-escolar já acolheram 70 petizes, hoje são apenas 15, num equipamento que tem capacidade para 40, reflexo “da grande baixa da natalidade” e também devido ao “elevado desemprego” na região e ao “encerramento de muitas fábricas”.
“Gostava imenso que quem faz as leis descesse à terra para conhecer os custos. Porque se em Lisboa o SAD num único prédio poderá apoiar vários utentes, aqui para chegar a um dos muitos locais a que vamos é preciso andar 90 quilómetros/dia, pois são três idas por dia e sete dias por semana”, revela o presidente da Fundação, acrescentando que é preciso não esquecer “os elevados custos com pessoal e com as viaturas”.
“Faz falta uma diferenciação positiva para as instituições que atuam nestes territórios. Nós muitas vezes somos o 112 da Câmara Municipal para resolver algumas das situações de emergência que surgem”, sublinha, acrescentando: “Temos aqui aldeias completamente desertificadas, com habitações miseráveis, pelo que assim que temos uma vaga em ERPI tratamos de a preencher com as pessoas do SAD que estão em pior situação. Ainda assim, os utentes do SAD tem todas as regalias dos da ERPI, uma vez que fazem aqui fisioterapia e podem vir ao cabeleireiro, sem pagar mais por isso”.
Estes são dois serviços que a instituição também disponibiliza à comunidade em geral, até porque não há outros em Santa Marinha e em muitos lugares em volta.
Situada num território deprimido, com uma população envelhecida e que toda a vida viveu da terra ou na indústria que, entretanto, desapareceu e cujos rendimentos são muito baixos, a gestão exige-se apertada.
“Não temos problemas financeiros e não devemos nada a ninguém. A gestão é feita de forma a que as coisas se mantenham equilibradas. Este novo edifício para a deficiência teve uma ajuda de cerca de 500 mil euros do POPH, mas a Fundação gastou ali mais de 1,2 milhões”, revela Eduardo Cabral, realçando que “o espírito da Fundação nunca se alterou e é muito social”, por isso “onde houver um carenciado a Fundação está lá”.
O presidente e grande obreiro da Fundação recusa a ideia de que “ter uma ERPI é como ter uma galinha de ovos de ouro”, lembrando que “há utentes em ERPI a pagar pouco mais de 300 euros e o máximo é de 600 euros”.
E para que as contas se mantenham equilibradas, Eduardo Cabral sustenta que “é preciso uma gestão rigorosa, sem desperdícios e de grande controlo”.
Sem um apuro substancial para as receitas, a Fundação conta com a fisioterapia, o cabeleireiro e ainda um restaurante que explora no centro da cidade de Seia.
“Dão alguma rentabilidade, mas não aquela que se esperava, especialmente o restaurante. As diárias são a 6,5 euros pelo que não pode dar muito lucro, para além de que implica mais funcionários”, afirma, apontando, porém, que o restaurante “é também um polo de agregação da própria Fundação”.
Quanto ao futuro, os projetos da Fundação passam “por terminar a obra do edifício onde funciona a creche”, e para o qual faltam cerca de 70 mil euros, e aproveitar a casa velha para alargamento da ERPI e colocar lá os serviços clínicos. Por outro lado, “há necessidade de alargar a cozinha e criar mais armazéns” para acomodar mais alimentos.
“De resto, não gosto de fazer muitas projeções, porque de hora a hora Deus melhora e não sei o que vai acontecer dentro de dois ou três anos”, sustenta, acreditando, no entanto, que vai haver um crescimento nas valências: “O Lar Residencial tem muitas possibilidades de fazer muito mais. E se pudéssemos fazíamos um pavilhão só para as pessoas com doença de Alzheimer… Nesse âmbito já temos também um laboratório de neuropsicologia clínica, em parceria com a Elo Comum, onde uma vez por semana há consultas abertas à comunidade”.
O abraço à área da deficiência, em 2014, foi ideia de Eduardo Cabral: “Quem anda na rua vai apercebendo-se das muitas misérias que existem e das lacunas que persistem. E no jornal da Fundação escrevi um editorial em que questionava o que seria dos pais que tinham filhos deficientes e o que seria daquelas crianças um dia. E, então, após alguma maturação, metemos mãos à obra”.

RÁDIO E JORNAL

Este mês de julho, dia 22, faz 26 anos o Jornal de Santa Marinha, propriedade da Fundação Aurora Borges e que, curiosamente, conta mais um ano de vida do que a proprietária!
“Como em todas as coisas, achei que tínhamos de arranjar um meio de comunicação para transmitir ao mundo a Fundação. Dizer o que fazemos e como pensamos e daí nasceu o Jornal de Santa Marinha, sempre com intenção de promover a Fundação. Hoje é um jornal com bastante tiragem, que é muito bem aceite e que já está no online também”, explica Eduardo Cabral, relevando o lema do jornal, atualmente, mensal: “O Jornal de Santa Marinha faz censura. No entanto, está aberto a todas as opiniões, desde que não ofendam pessoas ou instituições”.
Este é um serviço que não entra na folha de cálculo, mas é mais um serviço público que a Fundação presta num território deprimido, desertificado e envelhecido, pois esta é uma forma de desenvolvimento que estas comunidades também têm direito, ou seja, o desenvolvimento cultural.
Entretanto, a vertente comunicacional diversificou-se, mas Eduardo Cabral reconhece que foi por força “de um bichinho pessoal”.
Uma vez por semana, a Fundação tem um programa de rádio de uma hora, na Rádio Antena Livre, de Gouveia, e na Rádio Escuro, de Vila Nova de Paiva.
O programa nasceu em 2016, chama-se «A voz da solidariedade» e é transmitido todos os fins-de-semana. Durante uma hora, o programa dá voz a diversos temas importantes e atuais da sociedade, ligados à cultura, saúde, desporto, etc. Gravado no estúdio da própria instituição, criado de raiz para o efeito, tem frequentemente convidados que abordam os temas em debate.
Para Eduardo Cabral, “é fundamental as instituições comunicarem o que fazem” e “também para as pessoas saberem o que se passa”.
E como seria Santa Marinha, ou mesmo o concelho de Seia, sem a Fundação Aurora Borges?
“O concelho de Seia está muito bem servido de instituições, nós somos uma peça no meio de todas as outras. Tirando uma ou duas instituições, fomos pioneiros. Essa é uma satisfação que temos e, depois, criamos muito emprego. Agora, tenho a sensação de que as pessoas também nos têm como uma referência”.

 

Data de introdução: 2018-07-12



















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