ANTÓNIO JOSÉ DA SILVA

Cidades Mártires

Em todas as guerras de grande dimensão, há sempre cidades que são particularmente atingidas pela irracionalidade dos combates e, sobretudo, dos bombardeamentos aéreos. São cidades que bem podiam passar à História como cidades mártires. Vamos lembrar particularmente três, duas delas ainda em pleno martírio.

Em Abril de 1937, uma esquadrilha de quarenta aviões alemães, ao serviço do general Franco, levou a cabo um bombardeamento inesperado e brutal sobre Guernica, uma pequena e desconhecida cidade basca que, aparentemente, não tinha qualquer importância militar no contexto da guerra civil espanhola. Esse bombardeamento, que arrasou aquela povoação, ficou para a História como uma das páginas mais negras daquele conflito, e foi imortalizado no famoso quadro de Pablo Picasso que todos conhecem ou de que todos já ouviram falar.

Recentemente, um jornal do país vizinho fazia uma breve alusão a este episódio da guerra civil espanhola, a propósito dos bombardeamentos que aviões sírios e russos vêm fazendo sobre a cidade de Alepo, na Síria. Ao contrário do que aconteceu com Guernica, trata-se, neste caso, de uma grande cidade, a segunda daquele país, em população e em importância histórica, e é sobre ela que, nas últimas semanas, os modernos bombardeiros da aviação da Síria e da Rússia têm descarregado as suas bombas, a um ritmo que não conhece descanso. O resultado tem sido a destruição do seu património histórico e cultural e a morte de centenas ou milhares de civis indefesos, entre os quais muitas crianças. As imagens que no chegam, via televisão, dão-nos uma ideia aproximada do horror e da loucura a que chegou esta guerra.

Ao contrário do que aconteceu com a tragédia de Guernica, que precisou de alguns anos para se tornar conhecida em todos os seus contornos, o que se passa em Alepo chega quase instantaneamente a todo o mundo e está a agravar ainda mais as já tensas relações entre os países do Ocidente e a Rússia. O cancelamento da viagem oficial de Vladimir Putin a Paris foi apenas a expressão mais próxima e visível desse agravamento. O regime de Bashar al Assad não é apenas responsável pelo incremento da tragédia dos refugiados, mas também pelas ameaças que se erguem hoje à Paz no mundo. Imaginar que Holande não incluiria Alepo na agenda da sua reunião com o presidente russo seria naturalmente impensável, mas assim não entendeu Putin.

Depois de Alepo, na Síria, podemos falar agora de Mossul, no Iraque. O exército iraquiano e as forças internacionais que o apoiam apostaram tudo na reconquista cidade que, em 2014, foi assumida como capital do novo califado ou do estado islâmico. Mesmo que a aviação norte-americana não seja tão cega como a força aérea russa que tem bombardeado Alepo, a população de Mossul está condenada a sofrer as consequências dramáticas da reconquista da cidade que é, em importância, a terceira do país. É mais uma cidade mártir a juntar ao rol de tantas outras… 

 

Data de introdução: 2016-11-11



















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