MADEIRA

Mais de 300 congressistas discutem Terceiro Sector

Foi com música que arrancou o 1º Congresso das IPSS e Misericórdias da Madeira e foi com música que terminou o primeiro dia de trabalhos. No auditório do hotel Meliã Madeira Mare, as honras de abertura do evento couberam ao coral da Santa Casa da Misericórdia de Vila Verde, distrito de Braga, mas foi com a prata da casa que o primeiro dia do congresso fechou, com a actuação da Orquestra Clássica da Madeira e da Orquestra de Bandolins, na Igreja do Colégio.
Essas foram as partes mais lúdicas do início dos trabalhos, que neste primeiro dia, sob mote «Novos compromissos, Novas respostas, Repensar o Terceiro Sector», ficaram marcados por intervenções e testemunhos muito marcantes.
Perante uma audiência de mais de 300 pessoas, muitas delas em representação de 65 instituições sociais, da Madeira, dos Açores e do Continente, foi o padre Francisco Caldeira, presidente da União das IPSS madeirense, que deu as boas-vindas aos congressistas, sublinhando que “as instituições do Terceiro Sector necessitam constante e permanentemente de ser refundadas e recriadas” e que “há a urgência de um novo fôlego”.
Alberto João Jardim, presidente do Governo Regional da Madeira, o Bispo D. António Carrilho, Francisco Jardim Ramos, secretário Regional dos Assuntos Sociais, o padre Lino Maia, líder da CNIS, Manuel Lemos, presidente da União das Misericórdias Portuguesas (UMP), e Luís Delgado, secretário regional da UMP.
“Existimos para servir as nossas comunidades”, começou por dizer Manuel Lemos, reclamando “articulação” entre os diversos agentes da solidariedade social: “A Reforma do Estado não é reduzir o Estado, é a articulação entre todas as entidades e ainda a criação de riqueza e de emprego”.
Por seu turno, o chefe do Governo Regional elogiou a iniciativa dos promotores do congresso, que considerou “necessária para, ante as realidades sociais, se fazerem reflexões a propósito e se estudarem fórmulas de ainda maior e melhor operacionalidade, conforme os meios existentes”. Para Alberto João Jardim, “a acção das Misericórdias na Madeira é hoje relevante e indispensável, face à conjuntura em que Portugal mergulhou”, acrescentando que o “Terceiro Sector, o da Solidariedade Social, a par dos sectores público e privado, é de existência indispensável à concretização da Justiça Social”.
Já o Bispo da Madeira, que fará uma intervenção na sessão de encerramento, deixou apenas duas ideias para os congressistas reflectirem: “Renovação e comunhão, são as duas palavras que vos deixo”.
No primeiro painel, José Eduardo Franco e Joana Balsa de Pinho abordaram o tema «Cristianismo e Solidariedade – O caso das IPSS e das Misericórdias do arquipélago da Madeira», seguindo-se a intervenção mais esperada da manhã. «A pobreza e as suas causas. O papel das instituições sociais na sua erradicação» foi o mote da prelecção de Alfredo Bruto da Costa, presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz.
Desmontando o título, Bruto da Costa começou por distinguir “a pobreza da privação e da exclusão social; as causas das carências; a erradicação da resolução de carências; e as instituições sociais das políticas públicas”, definindo de seguida o que é pobreza, tema em que se doutorou e que tem estudado exaustivamente.
“A pobreza é composta por dois problemas: privação e falta de recursos”, sustentou o Professor, que acrescentou: “Resolver a pobreza implica resolver dois problemas, distintos mas interligados”.
Por isso, “só com a (re)conquista da autonomia em matéria de recursos, de uma forma sustentável, é que a pessoa/família vencerá a pobreza”, defendeu, referindo-se de seguida a “quatro sistemas-chave” em toda esta problemática: O da educação e formação profissional; o do mercado de trabalho e sistema de salários; o da protecção social (segurança social e saúde); e, transversal a todos os outros, o da desigualdade.
Considerando que a “”persistência da pobreza” acontece por “transmissão intergeracional”, Bruto da Costa considera que “a área da educação e formação profissional parece ser a área privilegiada para quebrar o ciclo vicioso da pobreza”.
Colocando ênfase na “desigualdade” como o factor determinante para a existência da pobreza, que apelidou de “cauda da desigualdade”, de seguida referiu-se à “armadilha da pobreza”, segunda a qual “os pobres são pobres porque os pobres são pobre”, evoluindo para a “armadilha da desigualdade”, na qual “os pobres são pobres porque os ricos são ricos”.
Defendendo que o combate à pobreza deve ser feito a vários níveis (interpessoal, de proximidade e macro, com mudanças sociais nas estruturas, nas instituições e nas políticas), para Bruto da Costa ele passa por resolver a privação e a falta de recursos.
“Vencer a pobreza é igual a alcançar auto-suficiência em matéria de recursos (não-dependência); (re)conquista do poder (necessário ao exercício pleno da cidadania); e ter capacidade de construir o tipo de felicidade que tem razões para preferir (Amartya Sen)”.
A terminar, e em jeito de motivação para os congressistas no seu trabalho diário nas instituições, o Professor afirmou: “O mal não está no que se faz, o mal está naquilo que não se faz”.
Da parte da tarde, Jacinto Jardim debruçou-se sobre a temática «A formação humana e social da pessoa e o contributo das instituições», um painel moderado por Maria do Céu Carreira, ao que se seguiu o painel dedicado às «Boas práticas – Respostas concretas das instituições», em que Cecília Cachucho (Misericórdia da Calheta), Luís Manuel Jesus e Vanessa Abreu Azevedo (do Centro Social e Paroquial de Santa Cecília), Diamantino Santos (Vicentinos) e Jorge Spínola (Misericórdia do Funchal) deixaram alguns testemunhos sobre a praxis das suas instituições, numa conversa moderada por Daniela Espírito Santo.

INSTITUIÇÕES NA LINHA DA FRENTE

A terminar os trabalhos no auditório, José Silva Peneda, presidente do CES (Conselho Económico e Social), deixou a sua perspectiva sobre «O Estado Social e o Terceiro Sector – Cooperação e compromissos», um painel moderado por Sérgio Marques.
O antigo ministro da Segurança Social levou ao congresso duas ideias fundamentais: “A constatação de que este sector tem um peso e uma importância decisivas na sociedade portuguesa actual e que, face à situação grave que o nosso País atravessa, este sector está na linha da frente e vai enfrentar uma série de dificuldades e vai reclamar novas atitudes e novas posturas, tal como refere o título do congresso”.
Silva Peneda explicou que, “nos próximos anos, não se pode pensar que vai haver mais meios financeiros, portanto as pessoas vão ter mais problemas e menos dinheiro e isto faz um apelo, primeiro, em combater o desperdício e, em segundo, este sector precisa de encontrar novas formas de organização e pensar muito em rede”.
Quanto ao relacionamento com o Estado, é entendimento de Silva Peneda que “o Estado não deve pensar que este sector vem substituir o que o Estado deve fazer, que é garantir os direitos fundamentais, isso é um pilar fundamental do Estado”, ressalvando: “Este sector pode ajudar a suprir algumas das necessidades, mas no que tem que ver com direitos fundamentais tem que ser o Estado”.
Considerando o grande peso do voluntariado no Terceiro Sector, feito na base de respostas muito locais, para Silva Peneda “é preciso dar espaço para que as instituições ligadas à acção social possam resolver os problemas de acordo com os padrões culturais de cada região”. O presidente do CES considera que “Portugal apesar de ser pequeno tem diferenças culturais de região para região e se o Estado tem a tentação de uniformizar o comportamento das instituições é um erro”, reforçando a ideia: “O Estado tem que dar espaço para as instituições darem resposta consoante as necessidades”.
Para além disto, Silva Peneda defende: “Depois devem ser elencados projectos simples, mas com objectivos muito claros e quantificados. Tudo o que não é medido não é gerido! E as pessoas quando estão à procura de atingir um objectivo que sabem qual é entusiasmam-se mais. Acho que o voluntariado precisa também de algum entusiasmo”.

SEGUNDO DIA

Os trabalhos prosseguem e encerram este sábado, com o 5º painel, dedicado ao tema «O empreendorismo social e o sector financeiro – A gestão das instituições e a sua sustentabilidade», com Rita Marques (Mesária da SCM de Lisboa), António Trindade (Grupo Porto Bay) e Maria Cristina Costa (ACIF) e moderação de Paula Guimarães (Grace).
De seguida, Marcelo Rebelo de Sousa, professor catedrático e comentador político, abordará o tema «Ética e bem comum, responsabilidade pública: O Estado e as organizações da sociedade civil», num painel moderado pelo jornalista Ricardo Oliveira.
Após o almoço, na primeira mesa redonda da tarde, sob coordenação do médico Júlio Machado Vaz, João Carlos Abreu, Manuela Aranha e Virgílio Pereira debaterão o tema «Experiências – Contributos para uma Sociedade Inclusiva».
Na segunda mesa redonda, com coordenação de António tavares, provedor da SCM do Porto, será discutido «O Estado social e as instituições de solidariedade», pelo padre Lino Maia (CNIS), Manuel Lemos (UMP) e Tomaz Correia (Montepio Geral).
Após um intervalo, Ricardo Vieira fará um resumo dos trabalhos, para então terminar o 1º Congresso das IPSS e Misericórdias da Madeira, com a sessão solene de encerramento, que terá a participação de D. António Carrilho, Luís Delgado, Francisco Jardim Ramos e padre Lino Maia.
Os trabalhos podem ser acompanhados em directo através dos links: http://liveeventview.webs.com/ ou em http://www.youtube.com/watch?v=JskTidok6BQ.

P.V.O.

 

Data de introdução: 2014-02-21



















editorial

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Não há inqueritos válidos.

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