APCC–ASS. DE PARALISIA CEREBRAL DE COIMBRA

«Somos Punks ou Não?»

Apesar dos fortes constrangimentos que a Covid-19 implicou, a 5ª Punkada, banda rock nascida no seio da Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra, conseguiu gravar um disco e editá-lo, o que aconteceu em dezembro de 2021, tendo iniciado o ano novo com um concerto de apresentação em Leiria. «Somos Punks ou Não?» é o título do disco e que, de alguma forma, sintetiza 28 anos de ensaios, estrada e concertos, por Portugal e por essa Europa fora. Fevereiro marca o regresso aos concertos da banda, que contará em palco com os convidados que participaram no disco, a saber: Surma, Victor Torpedo e Rui Gaspar. O Solidariedade foi assistir a um ensaio e conta tudo.
Do sonho (quase) obstinado de Fausto Sousa em ser vocalista, quando “toda a gente lhe dizia para esquecer isso, porque nunca seria vocalista”, e do apoio que o terapeuta Francisco Sousa lhe deu para tornar esse sonho realidade nasceu a 5ª Punkada, banda criada, em 1993, no seio da Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra (APCC) e que navega, preferencialmente, nas águas do rock, com os blues são a corrente dominante.
E, em dezembro de 2021, 28 anos depois da fundação, os 5ª Punkada, finalmente, editam um disco «Somos Punks ou Não?», apesar de não ser o primeiro que gravam.
Atualmente, para além do único fundador da banda que ainda a integra, Fausto Sousa (voz e soundbeam), a banda conta já há diversos anos com Fátima Pinho (teclados) e o terapeuta Paulo Jacob (guitarra e voz) e mais recentemente com Jorge Maleiro (guitarra e voz) e Miguel Duarte aka Mike (bateria).
A gravação e edição do álbum surge de uma candidatura que a APCC fez ao INR (Instituto Nacional de Reabilitação), que incluía ainda a realização de um concerto e de um documentário.
Aberto o concurso público, a editora Omnichord foi a vencedora, para além do pacote a concurso, disponibilizou outros recursos como três músicos convidados. É assim, que «Somos Punks ou Não?» conta com a produção de Rui Gaspar, dos First Breath After Coma, Surma e Victor Torpedo, dos Parkinsons e ex-Tédio Boys.
À semelhança do que aconteceu no Teatro José Lúcio da Silva, em Leiria, no passado dia 6 de janeiro, aquando da apresentação pública do disco, os três músicos convidados acompanharão a banda em palco, pelo menos, nas datas já agendadas para a «Somos Punks Ou Não? Tour», a saber: 11 fevereiro, no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra; 18 fevereiro, no Teatro Aveirense, em Aveiro; 19 fevereiro, no Teatro Municipal da Guarda, na Guarda; 3 março, no Cine-Teatro Pax Julia, em Beja; e 4 março, no Teatro Acert, em Tondela.
O SOLIDARIEDADE foi à Quinta da Conraria, equipamento da APCC onde a 5ª Punkada está sedeada, assistir a um ensaio de preparação desta série de concertos que se avizinham e conversar um pouco com os músicos que compõem a banda.
O musicoterapeuta Paulo Jacob foi o porta-voz da banda, começando por recordar a génese da 5ª Punkada, que já conta com 28 anos de atividade, durante os quais já atuou de norte a sul de Portugal e também em Inglaterra, Alemanha, Bélgica, França, Grécia, Espanha, Itália, Dinamarca ou Finlândia, num total de mais de 300 concertos.
“A banda nasce de um juntar de energias. O Fausto tinha sessões de musicoterapia com o Francisco Sousa e ele sempre gostou de música e sempre teve a pancada de ser vocalista. Muito por causa de Bon Jovi, o que o tornou um pouco obstinado em tornar-se vocalista”, conta Paulo Jacob, prosseguindo: “Toda gente lhe dizia para esquecer essa ideia, porque nunca seria vocalista… E ele andou ali uns tempos a nadar contra a corrente, até que o Francisco lhe disse: ‘Queres cantar? Então, vamos lá’. Basicamente, as coisas começaram dessa vontade que o Fausto sempre teve de cantar e da visão do terapeuta Francisco, que considerou que estava aqui para dar suporte, portanto decidiu avançar com as coisas”.
Inicialmente, as atuações da banda eram em playback, mas o terapeuta Francisco Sousa desafiou Fausto a cantar com a própria voz.
“No início foi difícil, porque toda a gente lhe dizia que não, que ele não podia cantar, mas o terapeuta insistiu que ele conseguia e hoje aí está a prova, 28 anos depois o Fausto continua aí. Para mim, é o melhor vocalista do Mundo, ninguém o consegue imitar, é único”, afirma Paulo Jacob.
Amor, política ou estados de espírito são os temas que preenchem as letras escritas por Fausto Sousa e a que a 5ª Punkada dá cama sonora.
Ao longo dos anos, entre concertos a banda logrou gravar discos, mas nunca tiveram uma edição em grande escala. O grupo lançou um disco ao vivo, gravado na Dinamarca e na Alemanha («Live in Germany»), “que tinha muito boa qualidade, mas teve uma espécie de distribuição caseira”, conta o terapeuta, recordando como se chegou à gravação de «Somos Punks ou Não?»: “Em 2005, houve oportunidade de comprarmos algum material, transformámos a nossa sala de ensaio numa espécie de estúdio e desafiei o pessoal para gravarmos o repertório que já tínhamos, que já era um bocadinho alargado. Já antes, graváramos, também, um disco com oito, nove temas, aqui na sala, mas não chegámos a fazer qualquer edição”.
Só que aquando de pôr o projeto em marcha, a banda sofre um forte revés, que levaria a um hiato de quatro anos.
Depois da saída de Ricardo Sousa, que tocava soundbeam, em 2018, a banda perdeu o baterista Márcio Reis, “que era uma grande referência da banda”.
“Apesar de termos ficado um bocadinho desamparados, continuámos os três. Depois, apareceu o Jorge para tocar guitarra e, passado uns meses, surgiu o Mike e houve também a oportunidade de o integrar”, recorda Paulo Jacob, que sublinha o efeito devastador da pandemia que se instalou no início de 2020.
“Entretanto, somos quase decepados pela pandemia, que nos obrigou a ficar em casa”, constata.
A pandemia de Covid-19 impediu o trabalho de grupo durante ano e meio, que os músicos foram colmatando com trabalho individual.
“Foi uma tarefa hercúlea, erguer os 5ª Punkada depois de ano e meio de inatividade enquanto grupo. Após o primeiro confinamento, fui trabalhando com o Fausto e a Fátima e também com o Jorge. Depois, ia a casa do Miguel para tentar fazer a manutenção dos temas. O trabalho individualizado faz-se, mas as dinâmicas de grupo dão mais trabalho e requerem mais tempo”, sustenta o terapeuta guitarrista.
Eis, que então, três dias para preparar tudo e gravar. A equipa da Omnichord montou, durante algumas semanas, um estúdio de gravação na Quinta da Conraria e, com produção de Rui Gaspar, mediado pelo musicoterapeuta Paulo Jacob e com as colaborações de Surma e de Victor Torpedo, os 5ª Punkada gravaram «Somos Punks ou Não?».
“Foi isso, tivemos três dias para mostrar o que valíamos como 5ª Punkada e resultou”, afirma, com ar de satisfação, Paulo Jacob.
Quanto aos temas gravados, eles são todos originais, alguns com muitos anos, mas agora foram revisitados e… refrescados.
“Tivemos que adaptar um pouco os nossos temas à forma como o Mike toca bateria. Estávamos habituados com o Márcio e aqui houve uma adaptação ao baterista. Isso foi, também, um quase desafio artístico, esse renovar esteticamente o repertório, o que nos obrigou a repensar os temas. O «Blues da Quinta», que foi o primeiro tema a ser composto pela banda, nos ido ano de 1993, acaba por ser simbolicamente o primeiro single do álbum «Somos Punks ou Não?»”, revela, sublinhando uma outra mensagem que este single comporta: “Esta é também uma forma de homenagear toda a gente que passou pelos 5ª Punkada e apresentar o primeiro tema da banda, de uma forma renovada e com outro fulgor”.
Agora, seguem-se os concertos de apresentação do disco, a começar já pelo Teatro Gil Vicente, na Coimbra dos 5ª Punkada, e onde Fausto Sousa espera “muito calor humano”.
“Vamos começar por tocar em casa, estamos à espera de sala cheia. Esperamos que, com a nossa energia, consigamos estabelecer uma ligação com o público”, afirma Paulo Jacob.
Como nota de rodapé, porque é um simples pormenor, mas que ajuda também a perceber a origem do nome da banda, Fausto Sousa e Fátima Pinho têm paralisia cerebral, sendo que os dois elementos mais recentes e novos da banda, Jorge Maleiro e Miguel Duarte, têm déficit intelectual. Ainda assim, se o ouvinte não os estiver a ver, não diria que assim era.
Nascida no seio da APCC, os 5ª Punkada assumem um nome que é também uma pedrada no charco, pois “tem que ver com os mitos e preconceitos que há em relação à paralisia cerebral e com aquela ideia do senso comum de associar a paralisia cerebral à deficiência intelectual”, argumenta Paulo Jacob.
Já o nome surgiu de um concurso que houve na rádio interna da APCC e em que alguém sugeriu o nome «Os Pancadas», que acabou por ganhar. Depois, pegaram no nome e adaptaram-no, nascendo os 5ª Punkada, 5ª porque estão sedeados na Quinta da Conraria e Punkada pela sonoridade e pelo combate ao preconceito.
Sobre os membros da banda, dizer que o fundador Fausto Sousa, de 53 anos, é um vocalista realizado, pois sente-se e nota-se que adora o que faz. Fã de Bon, Jovi, Fausto elege ainda a música dos Europe e dos Century como as suas preferidas. Fátima Pinho, de 56 anos, para além de teclista é o elemento mais empenhado em termos estéticos, caprichando no que toca à indumentária, ou não fosse ela o único elemento feminino. As suas preferências musicais são Tina Turner, The Beatles e ainda kizomba. Miguel Maleiro, de 26 anos, é um bem-disposto, de piada e riso fáceis, adora tocar guitarra e prefere sonoridades, digamos, intensas: Scorpions, AC/DC e Xutos & Pontapés. Miguel Duarte, Mike para o mundo da música, tem 22 anos e, para além do caçula da banda, é o mais tímido também. De poucas falas, mas extremamente educado e simpático, prefere bandas de garagem. Por fim, Paulo Jacob, de 44 anos, é a argamassa do grupo e, após uma difícil escolha, elegeu três bandas como preferidas: Nirvana, The Beatles e Velvet Underground.
Tudo boas influências que vale a pena ir ver como se diluem nos temas da 5ª Punkada e que podem ser ouvidas no álbum «Somos Punks ou Não?».

Pedro Vasco Oliveira (texto e fotos)

 

Data de introdução: 2022-02-10



















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