JOSÉ FIGUEIREDO, ECONOMISTA

Quem tem medo da inflação?

Um certo nervosismo tem percorrido os mercados de capitais nas últimas semanas.
Tem sido notória alguma pressão vendedora nos títulos de dívida, em particular nas obrigações do tesouro americano de maturidade mais longa, o que tem provocado a queda no valor dos títulos.
Quando os títulos de dívida perdem valor, por uma mera relação matemática, sobem as respetivas taxas de juro implícitas.
A taxa de juro da dívida americana a 10 anos subiu cerca de 120 pontos base desde os mínimos do verão de 2020.
Na base desta subida das taxas de juro está o receio dos investidores quanto a um eventual surto inflacionista no futuro próximo.
Caso o surto inflacionista ocorra, as taxas de juro nominais tenderão a subir e consequentemente os títulos de dívida vão perder valor. A ser assim, mais vale vendê-los agora do que mais tarde por valor mais baixo.
A questão está em saber se os receios dos investidores são fundamentados.
É verdade que, pela primeira vez em muitos anos, a economia americana poderá estar sob uma dupla dose de esteroides – um gigantesco estímulo fiscal e um não menos impressionante empurrão da política monetária.
O congresso acaba de aprovar um pacote de estímulos fiscais de 1,9 triliões de dólares, 1,9 milhões de milhões de dólares, um número com 13 algarismos que até custa a soletrar.
Em cima disto vão continuar os excecionais apoios do lado monetário uma vez que o banco central não parece inclinado a mudar o curso da sua política.
Para uns quantos investidores a consequência destas condições só pode ser um ressurgimento da inflação.
Terão razão os investidores que temem surto inflacionista?
Se olharmos para a experiência dos últimos 10/12 anos, os anos que se seguiram à crise financeira de 2008/2009, não parece haver motivo para grande preocupação com a subida indesejada dos preços.
Vale a pena lembrar o que dizia algum do comentário especializado em economia por volta de 2010/2011.
Por essa altura, os governos, depois de um curto período em que colocaram no terreno algum estímulo fiscal, recuaram perante o receio da reação dos mercados de dívida e deixaram os bancos centrais a falar sozinhos na luta contra a crise económica.
Os bancos centrais foram obrigados a lançar mão de um arsenal completo, desde as armas convencionais (manipulação das taxas de juro de curto prazo) até instrumentos não convencionais, nomeadamente a compra massiva de títulos de dívida (sobretudo dívida pública) e uma orientação explícita quanto ao andamento futuro das taxas de juro.
Na prática, os bancos centrais inundaram de dinheiro as economias de capitalismo avançado numa escala sem qualquer precedente comparável.
Dizia-se então que, tanto dinheiro despejado em cima das economias, só podia provocar inflação. Havia até quem temesse inflação descontrolada, à moda da Alemanha do período entre as guerras mundiais ou, mais próximo do nosso tempo, as experiências hiperinflacionárias da Venezuela ou do Zimbábue.
As previsões dos monetaristas não se verificaram. Ao longo da última década, se tivemos de lutar contra algum risco, esse risco foi o da deflação (preços a descer) e não a inflação.
A natureza monetária da inflação parecia estar bem estabelecida. O que pode explicar, então, o mutismo da inflação ao longo dos últimos 10 anos?
Acontece que a sociedade mudou muito em relação aos anos 70 do século passado quando vivemos o último grande surto inflacionista.
Desde logo os sindicatos não têm hoje o poder que tiveram no passado.
O mecanismo inflacionista dependia da interação entre preços e salários. Se os preços subiam os sindicatos reclamavam aumentos salariais para repor o poder de compra. Isso implicava que os custos das empresas aumentavam e estas subiam os preços para compensar o aumento dos custos. Isso provocava nova reivindicação de aumentos de salários nominais desencadeando uma espiral inflacionista que podia ficar fora de controlo.
Hoje em dia, desfortunadamente, os sindicatos não teriam poder suficiente para exigir a reposição do poder de compra dos salários, caso se verificasse um surto inflacionista com algum significado.
Depois a inflação tornou-se um fenómeno global, as condições locais de países ou zonas económicas deixaram de ser relevantes.
Imaginemos que os preços e os salários aumentavam mesmo, por exemplo, nos Estados Unidos.
Não é nada provável que o processo pudesse ficar fora de controlo a não ser que o surgimento dos preços fosse similar um pouco por toda a parte.
Se os preços aumentassem na América, mas não aumentassem na mesma proporção na China ou na Europa, o que aconteceria seria um aumento da compra de bens e serviços chineses e europeus pelos compradores americanos, ou seja, uma subida do deficit comercial americano e não uma espiral inflacionista nos preços.
Há também que ter em conta as alterações tecnológicas. Nos anos 70 não havia internet nem as plataformas eletrónicas que hoje configuram o nosso modo de viver – não havia google, amazon ou alibaba.
Estes gigantes da tecnologia, nomeadamente as plataformas de comércio eletrónico, desenvolveram um tal poder aquisitivo sobre as empresas que produzem os bens e serviços de consumo que, aumentos descontrolados nos preços, nunca seriam permitidos.
Mas, finalmente, talvez o fator mais importante a considerar seja o notável incremento na desigualdade das modernas sociedades de capitalismo avançado.
Temos de recuar 100 anos, para o período anterior à primeira guerra mundial, para encontrar níveis de desigualdade similares aos atuais.
É isso que explica que, mesmo tendo os bancos centrais despejado torrentes de dinheiro sobre as economias, a inflação não tenha bulido. Os bancos centrais criaram dinheiro comprando títulos de dívida. Os vendedores foram naturalmente aqueles que possuíam os títulos, ou seja, os mais abastados.
Essas pessoas não precisam do dinheiro que receberam pelos títulos para o leite das crianças. Em economês dizemos que são pessoas com propensão marginal a consumir de zero.
O dinheiro que os bancos centrais criaram foi parar a bolsos que o reinvestiram de imediato provocando a bolha especulativa em que estamos a viver, provavelmente, a maior bolha especulativa da história do capitalismo porque, pela primeira vez, é uma bolha que afeta todo o tipo de ativos.
De certa forma até podemos dizer que não é totalmente verdade que não tenha havido inflação. Não houve no sítio do costume, onde a procuramos normalmente, ou seja, nos preços dos bens e serviços de consumo que as famílias compram no dia a dia.
Já os preços dos ativos, de quase todo o tipo de ativos (ações, obrigações, casas, ouro, matérias primas, etc.) subiram em flecha.
Conforme tenho tentado explicar nas minhas crónicas tudo isto configura um cenário de desastre mais à frente – algures no tempo a captura dos bancos centrais pelos mercados financeiros tem de parar e o que daí vai resultar não será bonito de se ver.
Acredito que a grande luta dos bancos centrais no futuro não vai ser contra uma qualquer inflação descontrolada nos preços daquilo que habitualmente compramos, mas, antes, para trazer de novo para a terra mercados financeiros hiperinflacionados pelos quais os bancos centrais se deixaram aprisionar.
Segurem-se!

 

Data de introdução: 2021-04-07



















editorial

CONTINUIDADE DOS CUIDADOS: ENTRE A SAÚDE E O SOCIAL

A perspetiva holística da Pessoa, compreendida integralmente nas suas diversas dimensões, fundamenta a ação do setor social solidário: a Pessoa toda na sua unicidade e também todas as Pessoas. Tal conceção exige que a...

Não há inqueritos válidos.

opinião

JOSÉ A. DA SILVA PENEDA

A força das IPSS ao serviço do país
No último artigo publicado neste jornal evoquei um ano de pandemia. Aí referi as alterações de comportamento e de atitude a que tivemos que obedecer, os sentimentos de...

opinião

EUGÉNIO FONSECA, PRESIDENTE DA CPV

Reforço dos direitos sociais sem esquecer o acesso ao trabalho
Há dias, a maioria dos grupos parlamentares decidiu determinar a implementação de um conjunto de medidas que tornem menos gravosa a condição de precariedade em que...