CASAS DE ACOLHIMENTO TIVERAM QUE SE REINVENTAR

Jovens mostram-se resilientes mas demonstram sinais de ansiedade

Foi a 16 de março de 2020 que Portugal confinou pela primeira vez devido à pandemia de Covid-19 e, desde então, a vida nas instituições de acolhimento, sejam de idosos, de pessoas com deficiência, de crianças e jovens em risco ou outras sofreram uma alteração radical nas suas rotinas. Em todas elas, a pior das consequências, talvez, tenha sido a ausência de contactos com o exterior e das tão desejadas visitas dos familiares e amigos, entre a muita ansiedade. Núcleos fechados, o perigo de surtos pairou de forma permanente sobre as IPSS com respostas residenciais e as casas de acolhimento de crianças e jovens em perigo não fugiram à regra, pelo que teve que haver cuidados redobrados. No entanto, os jovens revelaram grande resiliência e um espírito de entreajuda mais forte.
No sentido de cumprirem as recomendações da Direção-Geral da Saúde (DGS) e, assim, salvaguardarem a saúde de utentes e trabalhadores, as diferentes instituições tiveram que se adaptar rapidamente.
“Para além do cumprimento das medidas preventivas (uso de máscara, lavagem e desinfeção de mãos, etc.), houve uma reorganização interna na instituição, com a elaboração de mapas de trabalho com equipas em espelho e desfasamento de horários, por forma a garantir a constante dinâmica da casa de acolhimento, evitando o contacto entre utentes e vários colaboradores em simultâneo”, começa por referir Tiago Borges, diretor-geral do Centro Juvenil de S. José, em Guimarães, acrescentando: “As dinâmicas sofreram algumas alterações dado o ensino à distância a que os jovens foram e estão a ser sujeitos, havendo uma maior monitorização e supervisão por parte dos cuidadores para que haja cumprimentos das tarefas escolares e responsabilização quanto às suas obrigações escolares. Também houve um reajuste no plano de atividades, dadas as restrições enunciadas pelo Governo”.
Também na Fundação Luiz Andaluz as dinâmicas sofreram mudanças e, no geral, teve que se “proceder a um reajustamento, nomeadamente dos horários e funções dos colaboradores”, avança Catarina Rodrigues, diretora-técnica da instituição de Santarém.
Em Guimarães, onde a instituição é exclusivamente para rapazes, “os jovens têm demonstrado uma grande capacidade de resiliência procurando, junto dos cuidadores, amigos e familiares, estratégias para lidar com a frustração, desespero momentâneo e, por vezes, falta de autocontrolo perante as suas emoções”, revela Tiago Borges, indicando ainda que, “neste confinamento, é notória uma maior capacidade por parte dos jovens em compreenderem o que está a acontecer a nível mundial”.
A mesma situação é relatada por Catarina Rodrigues, da Fundação Luiz Andaluz, cuja resposta é exclusivamente feminina: “Notamos uma melhoria e melhor aceitação, por parte das crianças e jovens. Estão mais motivadas para o estudo, facto já constatado no primeiro confinamento, embora menos ansiosas”.
Ansiedade é, no entanto, o sentimento que Marlene Gomes, diretora-técnica da Casa de Acolhimento «Crescer a Cores», da Associação dos Familiares das Vítimas da Tragédia de Entre-os-Rios (AFVTE), mais deteta entre os 16 rapazes que residem na instituição de Castelo de Paiva.
“Ansiedade é o principal efeito que temos identificado nos jovens em consequência da pandemia. Temos trabalhado muito este aspeto com os psicólogos e a equipa multidisciplinar que a instituição dispõe. Essencialmente, este sentimento de angústia é o principal efeito que temos vindo a notar”, refere, destacando ainda o processo por que todos passaram na casa de acolhimento: “Obviamente, todos os que aqui trabalhamos tivemos que nos reinventar para nos adaptarmos a toda esta situação. Agora, temos aqui 16 jovens fechados e com o atual ensino à distância eles não podem mesmo ir a lado nenhum, estão sempre a conviver uns com os outros, sempre a ver as mesmas caras e depois os horários das aulas, das pausas e até das refeições são desfasados”.
Ainda assim, para Tiago Borges, os jovens em Guimarães “têm encarado a pandemia com responsabilidade, percebendo a necessidade de proteção e resguardo nos períodos de maior afluência de contágios”.
No entanto, as restrições da pandemia fazem-nos lamentar diversas situações, em especial as que se projetavam no futuro: “Eles lamentam o facto de não poderem concretizar objetivos já delineados nos seus projetos de vida, no tempo estimado ou previsto, bem como a participação em atividades já delineadas e que não se realizaram”.
Contudo, o confinamento tem potenciado alguns comportamentos que não são os mais desejáveis, mas que as circunstâncias acabam por justificar.
Segundo Tiago Borges, durante o confinamento os jovens têm investido mais tempo na realização de jogos de computador e passado no telemóvel e nas redes sociais, para além de um maior sedentarismo e ainda do aumento dos, já referidos, níveis de ansiedade.
Entre as jovens acolhidas em Santarém, Catarina Rodrigues encontra determinadas vantagens por força do confinamento.
“Curiosamente estão tranquilas”, afirma, apontando como justificação o facto de as aulas serem acompanhadas, “o que as deixa mais seguras e mais participativas nas atividades”.
No entanto, é “claro que vão manifestando saudades da escola e colegas”, acrescenta.
Em Castelo de Paiva, “apesar da fadiga e cansaço que a pandemia trouxe, os jovens ajudam-se mais uns aos outros”, sustenta Marlene Gomes.
Este apoio mútuo entre os jovens, também é referido pela diretora-técnica da instituição de Santarém, que nota nas meninas institucionalizadas “mais interajuda entre elas e bastante resiliência”.
O mesmo é reportado por Tiago Borges, que observa uma “maior proximidade entre os jovens e os cuidadores, relações mais positivas entre jovens e cuidadores, bem como entre equipas, capacidade de adaptação perante as adversidades e de reinvenção” e, por fim, uma “maior valorização das ‘pequenas coisas’ da vida”.
São as vantagens das adversidades a emergirem, algo essencial quando se trata de dar vida nova a novas vidas.
Mas para que isto possa acontecer, as instituições tiveram que investir e apostar nos jovens e em novas dinâmicas e isso acarreta sempre dificuldades.
Para Marlene Gomes, o mais difícil “foi ocupar os jovens”.
“Estamos a viver o segundo confinamento, agora num formato diferente, porque eles durante o dia estão ocupados com as aulas, mas no primeiro não havia aulas! Apostámos muito nas atividades lúdicas, essencialmente ao ar livre, o que este confinamento agora não nos permite”, explica a responsável da AFVTE.
Já em Guimarães, as principais dificuldades foram outras e bem mais complicadas. À cabeça surge de imediato nas palavras do diretor-geral o “surto de Covid-19 que existiu na casa de acolhimento”, em que quatro colaboradores e três jovens ficaram infetados com o novo coronavírus.
Por outro lado, segundo Tiago Borges, foi difícil também “diminuir o impacto emocional e social da distância física entre jovens e a família, por consequência do confinamento obrigatório”.
Tal como em todas as respostas sociais residenciais, logo em março de 2020 as visitas foram suspensas. Também os jovens institucionalizados ficaram privados de ver e estar com os seus familiares, algo que, entretanto, se alterou neste segundo confinamento. Aliás, em meados do passado ano, as visitas foram restabelecidas, desde que as condições exigidas sejam cumpridas.
Em Santarém, “em 2020, foram poucas as visitas e só na instituição”, sendo que depois de junho “as jovens começaram a ir de férias e a serem visitadas com mais regularidade, sempre com as devidas precauções”, ressalva Catarina Rodrigues, cuja instituição registou 14 casos de Covid-19 (oito colaboradores e seis jovens).
Já em Castelo de Paiva, onde houve quatro casos de Covid-19 (dois jovens e duas trabalhadoras), as visitas, apesar de autorizadas, não estão garantidas.
“No primeiro confinamento as visitas foram proibidas, o que já não acontece agora neste que estamos a viver. Apesar disto, se considerarmos que o agregado familiar não tem condições para cumprir com as normas de confinamento que estão em vigor, então, não permitimos que os jovens vão à família, porque não podemos arriscar a saúde dessa criança, mas também de todos os outros que vivem na instituição. Esta não é uma decisão exclusivamente nossa, pois damos sempre conhecimento à instância judicial”, revela Marlene Gomes, que acrescenta ainda: “Todas as famílias foram sensibilizadas para os cuidados a ter e, inclusive, têm que assinar um documento em como se responsabilizam por cumprir e fazer cumprir todas as medidas sanitárias em vigor. Já nas visitas na instituição, criámos um espaço próprio para tal, mas, apesar de haver autorização para tais visitas, elas não se têm realizado porque as famílias, por iniciativa própria, não vêm”.
No Centro Juvenil S. José o controlo de visitas foi mais apertado, até pelo surto que houve na instituição.
“Em 2020 os jovens estiveram sempre confinados na casa de acolhimento, não indo de fim-de-semana a casa dos familiares. Contudo, com implementação do plano de contingência da instituição as famílias vieram à casa de acolhimento para visitar os jovens, de acordo com as suas possibilidades”, conta Tiago Borges, adiantando que no corrente ano já há mais alguma normalidade: “Agora, em 2021, os jovens têm cumprido com as visitas estipuladas nos seus acordos de promoção e proteção, embora os próprios jovens optem por ir menos vezes, de forma a salvaguardar a sua saúde e a dos familiares”.
E se os jovens institucionalizados têm revelado enorme resiliência e uma grande aprendizagem com as dificuldades impostas pela pandemia, também as instituições retiram algo deste período para o futuro.
“Mesmo das situações menos boas, temos que retirar sempre alguma aprendizagem e a nossa tem sido a de criar mecanismos para numa eventualidade futura estarmos mais bem preparados. Há sempre imprevistos, mas a experiência que vamos adquirindo permite-nos enfrentar essas situações de uma forma mais preparada”, assevera Marlene Gomes, da casa de acolhimento «Crescer a Cores».

Pedro Vasco Oliveira (texto e fotos)

 

Data de introdução: 2021-03-10



















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