ASSOCIAÇÃO DE PARALISIA CEREBRAL DE VIANA DO CASTELO

Inaugurar o CAO em 2020 é desejo do 15º aniversário

Até 2005, ano em que a Associação de Paralisia Cerebral de Viana do Castelo (APCVC) entrou em funcionamento, o distrito não tinha qualquer resposta para as pessoas com paralisia cerebral ou situações neurológicas afins.
Foi com a constituição, ainda em 2002, de um núcleo da, então, Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral que passou a existir uma resposta na área no distrito de Viana do Castelo, que arrancou apenas três anos depois, “porque foi quando se conseguiu o protocolo com a Segurança Social”, explica a vice-presidente da APCVC, Filomena Araújo.
“Algumas das pessoas do distrito eram apoiadas pela Associação do Porto de Paralisia Cerebral, mas a distância era um problema. Se de Viana do Castelo ao Porto são 70 quilómetros, imagine-se de Monção ou Melgaço! Ou seja, tínhamos muitas pessoas que nunca tinham sido vistas por um centro especializado e esta era uma necessidade sentida no distrito durante muitos anos”, recorda, destacando o papel e a vontade decisivos da Segurança Social e do Centro Hospitalar do Alto Minho na implementação da associação.
“Havia muitas pessoas e pediatras que queriam que esta resposta viesse para Viana do Castelo e isso foi conseguido com grande apoio da doutora Graça Andrada”, que na altura presidia ao secretariado do que hoje é a Federação das Associações Portuguesas de Paralisia Cerebral (FAPPC).
“Nessa altura éramos duas técnicas e um conjunto de pais, que foi convidado a fazer parte e a envolverem-se, que formámos a Comissão Instaladora, que avançou para a criação do núcleo, até que passámos a ser uma associação autónoma”, conta Filomena Araújo.
Apesar de continuar a funcionar em Santa Marta de Portuzelo, às portas de Viana do Castelo, no espaço arrendado na altura da fundação – “um rés-do-chão, que era uma espécie de armazém, mas que permitiu adaptá-lo às necessidades” –, a APCVC tem crescido ao longo dos 15 anos que celebra em 2020, conseguindo dar resposta aos 10 concelhos do distrito do Alto Minho.
“Hoje este espaço já não chega, tornou-se pequeno para o trabalho que fazemos, mas infelizmente, devido aos condicionalismos financeiros, ainda não conseguimos sair daqui”, lamenta a «vice» da associação.
Atualmente, a APCVC apoia 229 utentes no Centro de Reabilitação, que funciona em regime ambulatório, segue 80 crianças no Programa de Intervenção Precoce, nos concelhos de Ponte de Lima, Ponte da Barca e Arcos de Valdevez, acompanha entre 50 e 60 utentes no Centro de Recursos para a Inclusão, em Monção e Paredes de Coura, e ainda 10 utentes no projeto Dente de Leão, que tem como objetivo apoiar crianças e jovens, entre os seis e os 18 anos, com deficiência durante as férias escolares, e apoia 15 pessoas no Centro de Apoio à Vida Independente (CAVI).
Estes cerca de 300 utentes são acompanhados e apoiados por uma equipa de 20 funcionários, na qual apenas quatro não são técnicos superiores, “o que implica grandes encargos em termos salariais, sendo que esses quatro têm todos o 12º ano de escolaridade”.
A APCVC dá resposta aos 10 concelhos do distrito, abrangendo uma área geográfica muito grande.
“Obviamente, esta circunstância traz dificuldades, mas temos que ser realistas. Neste tipo de resposta na área da paralisia cerebral, normalmente, há uma associação por distrito, exceto Braga que tem duas, justamente porque esta é uma resposta específica e os números não são semelhantes, por exemplo, à deficiência mental, pois são muito menores”, começa por referir Filomena Araújo, acrescentando: “Depois, na área das deficiências esta é das mais caras em termos de implementação da resposta. Os custos de material e de equipamentos é muito mais elevado do que noutras áreas. Para além de que, em termos de pessoal, os custos são sempre mais elevados, pois funcionamos com muitos técnicos superiores. Depois, não existem casos no distrito que justifiquem a criação de mais polos pelo território”.
No entender da «vice» da APCVC, que também é presidente da UDIPSS Viana do Castelo, “há que ter objetividade em termos de financiamento e de logística e assim não se justifica abrir outro centro no distrito, mas sim o que fazemos, ou seja, o apoio no contexto e em articulação com as instituições locais”.
Por isso é que o Centro de Reabilitação funciona em ambulatório, na sede para utentes de todos os concelhos do distrito.
“Os utentes têm um plano de intervenção anual, construído com o cliente e a família e é a partir dos seis anos até 78 anos, que é o utente mais velho que temos, sendo que o atendimento varia em função das necessidades e da disponibilidade. Pode ser apoio terapêutico direto, e aqui privilegiamos os mais novos, com a fisioterapia, a terapia ocupacional e da fala, a psicologia, etc.. Neste apoio temos cerca de 50 utentes por semana”, revela, prosseguindo: “Os outros recebem apoios mais indiretos, através de consultas médicas de especialidade, para as quais temos cinco médicos a trabalhar connosco, através da prescrição de produtos de apoio, através das orientações que transmitimos nas deslocações que fazemos ao domicílio. Tentamos fazer, pelo menos, uma vez por ano, mas se a família tem necessidade vamos lá quando ela existe. E aqui pode ser no domicílio, no contexto de trabalho ou na escola. Temos uma articulação muito forte com os agrupamentos de escolas de todo o distrito, porque temos utentes em todas as escolas e de todas as faixas etárias. Isto é sempre articulado com muita proximidade. Também nos deslocamos a outras instituições, porque temos lá utentes e o nosso protocolo permite-o. Por exemplo, temos utentes na APPACDM, que têm deficiência mental e paralisia cerebral ou situações neurológicas afins e são 60 nessa situação. Vamos também à Santa Casa da Misericórdia de Arcos de Valdevez, que agora também tem um CAO, e à de Paredes de Coura, onde nos deslocamos para dar apoio aos utentes do CAO. Deslocamo-nos igualmente à AAPEL (Associação dos Amigos da Pessoa Especial Limiana), em Ponte de Lima, uma instituição vocacionada para a multideficiência, onde há alguns utentes que nós apoiamos”.
Esta articulação e trabalho conjunto com outras instituições, extravasa o universo das instituições da área da deficiência, pois, pontualmente, as técnicas da APCVC vão igualmente a IPSS que têm ERPI (Estrutura Residencial Para Idosos), onde há utentes de mais idade e com paralisia cerebral e que necessitam de apoio especializado.
“Este trabalho nas instituições é algo muito pontual e em articulação com os técnicos de lá, principalmente quando necessitam de algum apoio, orientações ou algum produto de apoio. Isto é sempre feito em articulação, porque os técnicos das instituições é que conhecem os contextos e é necessário que saibam como fazer as coisas”, sustenta.
No entanto, a instituição sente falta de uma resposta residencial, pois “é uma necessidade brutal”.
“Neste momento estamos em obras num novo espaço para criarmos um Centro de Atividades Ocupacionais (CAO), cujo concurso público foi lançado no ano passado e, neste momento, já está em obra, que esperamos esteja terminada lá para julho ou agosto. Nessa altura, então, pediremos o protocolo à Segurança Social para o CAO. Aliás, contamos já poder submeter a candidatura ao PROCOOP deste ano para 30 clientes”, revela Filomena Araújo, acrescentando: “Não é fácil, porque o nível de exigência para qualquer resposta residencial não é compatível com qualquer espaço já construído. Isto tem sido muito complexo, porque não temos capacidade financeira para construir um equipamento de raiz, além de não termos terreno, mas não há nada construído que nos permita, com algumas adaptações, criar essa resposta. Estamos muito limitados, porque até a nível de candidaturas para o novo PARES era preciso termos um terreno onde construir… e não temos. Isto limita-nos muito na vontade de criar uma resposta residencial”.
Para a instituição, a solução mais viável face às circunstâncias seria arranjar um espaço e adaptá-lo, pois de outra forma não consegue avançar.
“Neste momento estamos com alguma cautela, porque, até ao fim do ano, queremos ter já pensada uma solução residencial. É que abrindo o CAO para 30 pessoas é fundamental ter uma área residencial de suporte”, afirma, lembrando que todos os espaços ocupados pela instituição, a sede, o futuro CAO e o CAVI, são todos arrendados.
“Temos tudo muito concentrado aqui em Santa Marta de Portuzelo, mas são todos arrendados. Depois, esta instituição é muito cuidadosa nos passos que dá, ou seja, manter a sustentabilidade da instituição é prioritário. Se isso implicar estar em espaços arrendados assim estaremos, mas temos sustentabilidade e conseguimos desenvolver o nosso trabalho em função do que temos”, assegura Filomena Araújo.
E se em 2002 todas as crianças já estavam na escola e sinalizadas, a instituição encontrou muitos adultos, fruto de um trabalho exaustivo no terreno, em que fez o levantamento de todos os casos nos 10 concelhos do distrito.
“Hoje em dia é raríssimo aparecer um caso do nosso âmbito que não seja conhecido. Se um adulto chegar ao Centro de Saúde com problemas desta área, imediatamente a estrutura de saúde contacta-nos. Há uma rede de referenciação e de relações que atualmente permite que as pessoas com paralisia cerebral ou situações neurológicas afins sejam sinalizadas e encaminhadas para serem apoiadas”, afirma com satisfação, referindo: “Tenho noção de que o sistema que aqui temos não funcionaria numa grande cidade, mas no nosso meio funciona, pois somos um meio muito rural, num distrito com cerca de 240 mil pessoas onde é fácil toda a gente se conhecer. E depois há esta rede de relações entre os organismos para a sinalização dos casos através das entidades da educação e da saúde”.
Ainda com o sonho de “conseguir construir um espaço de raiz, que já integre a resposta residencial”, na instituição tem-se a certeza do contributo da mesma para a melhoria da resposta social às pessoas com deficiência no distrito de Viana do Castelo, fundamentalmente pelas parcerias que gerou.
“Nós somos uma força que puxa pelas pessoas e pelas outras instituições a trabalhar em rede. Até aparecermos, as instituições da área da deficiência não se relacionavam, apesar de serem poucas, mas eram muitos fechadas sobre si próprias. Logo em 2002 quando aparecemos lançámos o desafio às outras instituições para trabalharmos em parceria. Elas sentiram-nos sempre como um parceiro e, neste momento, é possível todas as cinco instituições da área da deficiência, todas de âmbito distrital, trabalharmos em parceria”, defende Filomena Araújo.

 

Data de introdução: 2020-03-05



















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