JOSÉ FIGUEIREDO, ECONOMISTA

Porque estão os muito ricos preocupados com a desigualdade?

Ray Dalio não é um homem conhecido por uma particular generosidade.
Possuidor de uma fortuna avaliada em 17 biliões de dólares, Ray Dalio fez dinheiro e um nome nas praças financeiras por fundar e gerir um dos maiores hedge funds do mundo – o Bridgewater.
Os hedge funds são hoje (curiosamente não foi assim na origem) os mais agressivos e rapaces dos veículos de investimento financeiro do capitalismo moderno.
Investem em tudo o que cheira a promessa de ganho gordo mesmo que, para o obter, tenham que recorrer a práticas de moralidade discutível, como short selling impiedoso ou fazer da vida de algumas companhias um verdadeiro inferno para forçar a venda de posições a bom preço.
Como imaginarão não tenho por este tipo de capitalismo um especial apreço e não perderia com o personagem um segundo do meu precioso tempo não fosse o caso de a criatura (que é presença frequente nos media mais ligados à economia e aos negócios) ter publicado um ensaio que merece leitura e reflexão. Não porque o conteúdo seja particularmente inovador ou especialmente profundo (não esperaria isso de tal proveniência), mas porque vem de quem vem.
O que Ray Dalio nos diz é que se o capitalismo americano (as empresas e o sistema de decisão política) não for capaz de reduzir a desigualdade económica na sociedade, em termos da distribuição da riqueza, do rendimento e das oportunidades, corre o risco de ter de suportar uma qualquer forma de revolução.
Os níveis de desigualdade na sociedade americana regressaram aos valores que vigoravam há cem anos, nos tempos do capitalismo selvagem dos anos que antecederam a primeira guerra mundial.
Desde os anos 80 que o top 10% da sociedade americana dobrou o seu rendimento, o top 1% triplicou ao mesmo tempo que os 60% menos afortunados têm hoje sensivelmente o mesmo rendimento desde há 30/40 anos.
Em matéria de oportunidades (questão sensível na terra do american dream) talvez seja pior. Grassa atualmente pelos Estados Unidos um escândalo de proporções gigantescas com o acesso às boas universidades, com inúmeros casos de corrupção que permitiram aos filhos dos mais ricos (curiosamente muitas estrelas do espetáculo) aceder a lugares ao que não teriam direito por mérito.
Defendo que este é um dos campos férteis por onde prospera o populismo porque, com um discurso primário e a dose certa de demagogia, não é difícil tirar partido da raiva dos 60% colocados na parte baixa da distribuição social.
Mas Ray Dalio não é único bilionário a mostrar estas inusitadas “preocupações sociais”.
Bill Gates que continuará, porventura, a ser o homem mais rico do mundo (100 biliões de dólares de fortuna pessoal) ou Jamie Dimon, o CEO do JP Morgan, um dos maiores bancos do mundo, não se cansam de falar do tema.
O que move esta gente não é uma genuína preocupação pela sorte dos mais fracos – o que os move é o espectro de que falava Karl Marx nas primeiras linhas do Manifesto Comunista de meados do século XIX.
Não deixa de ser curioso que, para além do medo que uma qualquer forma de revolução lhes toque na barriga, como bons capitalistas que são, não os preocupe também o efeito deletério da desigualdade social na pura e simples eficácia do sistema capitalista que lhes permitiu acumular as respetivas fortunas.
A produtividade do trabalho está a crescer (quando cresce) a ritmos historicamente baixos nos últimos anos.
O que não deixa de ser paradoxal numa altura em que ouvimos falar de prodígios tecnológicos como inteligência artificial, carros autónomos, etc…
Por outro lado, o que nos prometeu a revolução liberal dos anos 80 (Reagan, Thatcher e quejandos) foi que, uma vez libertos dos altos níveis de fiscalidade e das tutelas do estado, veríamos chegar uma torrente de inovação e progresso da produtividade.
O que vemos é exatamente o contrário sem que consigamos perceber porquê. No Reino Unido, que é nesta matéria um caso dramático, onde a produtividade está estagnada há um bom par de anos, fala-se mesmo do mistério da produtividade perdida.
Em boa verdade ninguém sabe porque é tão baixo o crescimento da produtividade nos nossos dias. Há várias pistas, contudo, uma delas é justamente o crescimento da desigualdade. Ou seja, ao contrário do que nos prometiam os arautos do liberalismo, sociedades mais desiguais podem ser mais propensas a estagnação da produtividade do que sociedades mais igualitárias.
Um exemplo simples. Até há poucos anos seria raro encontrar no Reino Unido um local para lavar o carro em que o trabalho fosse feito à mão – os túneis de lavagem eram a forma comum de lavar carros.
Hoje proliferam os locais de lavagem manual de carros. O que aconteceu foi que a perda de influência dos sindicatos, a imigração, o discurso liberal fez descer de tal maneira os salários nominais que hoje é mais barato lavar carros com recurso a trabalho manual do que com máquinas.
O mesmo sucede em vários setores. O custo do trabalho baixou de tal maneira que é economicamente vantajoso substituir capital por trabalho.
Há um outro ângulo para apreciar este tema. Uma das razões para a prevalência da lavagem manual é que conseguimos pagar esse serviço com uma parte pequena do nosso salário diário. Imaginemos uma sociedade com menos desigualdade salarial em que um lavador de carros ganhasse, digamos, um salário não muito por baixo do salário mediano.
O preço da lavagem manual subiria obviamente. Para muita gente, colocada das escalas intermédias da distribuição, o custo da lavagem passaria a representar uma parte não desprezível do seu salário diário e passaria a colocar-se a questão de saber se não seria mais racional cada um lavar o seu próprio carro.
A desigualdade económica, quando ultrapassa determinados patamares, torna-se deletéria para o progresso do sistema capitalista, incentiva a substituição de capital por trabalho mal pago e trava o crescimento da produtividade.
Não estou a afirmar que a causa da estagnação da produtividade nas economias de capitalismo avançado é a desigualdade económica. A estagnação da produtividade é um fenómeno complexo que ainda não percebemos muito bem. Mas que a desigualdade económica tem algumas culpas no cartório, não duvidem.
Como é óbvio, estas generosas criaturas, beneficiárias do capitalismo, são mais loquazes a perorar sobre as maleitas do sistema do que a propor soluções. Numa das próximas crónicas pretendo dar-lhes uma ajuda, falar um pouco das soluções.

P.S. – As empresas americanas cotadas são agora obrigadas a publicar a relação entre a remuneração dos seus administradores e o salário mediano das companhias. São conhecidos os resultados para cerca de cem empresas. Verifica-se que, em dez dessas cem, a relação é igual ou superior a mil, ou seja, o mais bem pago dos administradores ganha o mesmo que o empregado mediano em mais de duas vidas… Alguém acredita que isto pode acabar bem?…

 

Data de introdução: 2019-05-09



















editorial

Compromisso de Cooperação

As quatro organizações representativas do Sector  (União das Mutualidades, União das Misericórdias, Confecoop e CNIS) coordenaram-se entre si. Viram, ouviram e respeitaram. 

Não há inqueritos válidos.

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