HENRIQUE RODRIGUES

O Albergue Espanhol

1 - Viajante habitual pelos montes e pelos vales, pelos rios e pelos mares dessa Galiza que como que prolonga para norte os territórios do antigo Condado Portucalense, que são o meu berço e a partir dos quais se fez Portugal, não me são estranhos os vários Caminhos de Santiago, por onde a Cristandade, ao longo de séculos, desde a Idade Média, peregrinava, a partir de Portugal, de França ou de Inglaterra, ou de outras bandas do Ocidente, ao encontro do Apóstolo patrono das Espanhas, em Santiago de Compostela.
Veraneando pelas Rias Baixas, desde há vinte anos, fico a dever ao processo de integração europeia a abolição das fronteiras, que me permite chegar do Porto a Pontevedra em uma hora e meia, sem dar sequer pela existência dessa fronteira que, há umas décadas apenas, constituía uma epopeia atravessar.
Para além de poder sair de manhã de casa e ir às Rias tomar um banho nessa mesma manhã, o facto de não ter de comprar pesetas, pagando o respectivo câmbio, e poder levantar no multibanco lá do sítio os mesmos euros que estão na minha conta do banco em Portugal, como se os levantasse na esquina da minha rua, ajuda certamente à noção, para mim bem real, de não sair da minha terra, quando saio de Portugal para essa região do nosso país vizinho.
(Para além de a língua que falamos ser a mesma, o galaico-português dos trovadores medievais - língua cujo uso era proibido durante o franquismo, mas que regressou após a transformação democrática liderada pelo Rei Juan Carlos, como marca de identidade da Autonomia Galega, num modelo de regionalização que constitui trave mestra do edifício constitucional espanhol; coisa que não é de somenos, num País que admitiu a Guiné Equatorial na CPLP)
São razões básicas, é certo, as minhas razões para defender a integração e o euro.
Ignorante das subtilezas da economia e alheio ao saber sobre a produtividade e a concorrência, os mercados e a dívida, as taxas de juro e os yelds, são razões assim comezinhas, ligadas à melhor qualidade da minha própria vida, que iluminam as minhas convicções.
(Creio que se passará assim com a generalidade dos cidadãos europeus.)
Voltando ao início, e aos caminhos de Santiago (que todos os anos ritualmente percorro, embora de automóvel, em demanda da Libraria Couceiro – nas traseiras da Catedral, passe a publicidade), os séculos e a persistência dos peregrinos fizeram com que, ao longo dos vários percursos, as comunidades locais ou as ordens religiosas tenham colocado à disposição dos peregrinos instalações seguras, para dormida ou refeição.
São os albergues - abertos ao uso indistinto de todas as espécies de peregrinos.

2 – Segundo uma versão mais erudita, a origem da expressão “albergue espanhol” tem que ver com esses albergues dos Caminhos de Santiago, abertos e ao serviço de todos os passantes.
Há, todavia, uma versão mais pícara, para a origem da expressão – e talvez mais próxima da verdade, atento o sentido algo pejorativo com que é usada no lado de cá da fronteira -, e que a associa às peregrinações portuguesas a Roma, sede da Cristandade, e às más condições e má frequência dos albergues que, em Espanha, serviam essa outra rota de devoção medieval.
(Jerusalém, Roma e Santiago constituam a tríade da devoção peregrina do mundo medieval.)
Ambas as explicações têm, porém, um traço comum: um albergue espanhol é um espaço aberto a todos, onde cabem todos, sem distinções.
(Como sucede, aliás, com os albergues que não são espanhóis – em que a regra é a mesma.)
A expressão veio, no entanto, a adquirir em Portugal um significado político (pejorativo, talvez pela reserva com que, desde a independência, e desde a Restauração, olhamos para os vizinhos do lado), passando a designar uma metáfora de um ajuntamento mais ou menos indistinto e indiscriminado – “tudo ao molho e fé em Deus”.
Como exemplo de albergue espanhol em Portugal, costuma referir-se o MASP I, bem como Bloco Central, que foi, de algum modo, precursor daquele.
Mas uma coisa é própria dos albergues, como dos hotéis, seus sucedâneos: dorme-se lá de passagem, por uma necessidade transitória e comum; mas depois, logo no dia seguinte, cada um vai à sua vida e segue o seu Caminho – de Santiago Apóstolo, ou outro qualquer.
No dia seguinte, já nada persiste de comum entre os passantes da véspera.

3 – Quando dormimos num hotel, é das regras preencher um impresso de admissão, com os elementos de identificação dos clientes.
Essa informação destina-se às autoridades, que assim podem controlar melhor quem dorme fora de sua casa.
A simplificação, a amálgama, o molho, sempre foi um sistema preferido das autoridades, avessas à subtileza casuística das distinções e adversárias históricas das diferenças.
A taxonomia, que procura discernir, como fez Carl Linneus, dentre espécies com alguma conexão, a complexidade que distingue umas espécies das outras, constitui uma regra de uso da ciência; mas um incómodo para as polícias.
Mas o que somos – o que só nós é que somos … - é o que verdadeiramente importa.
É o que nos distingue e que faz a tribo reconhecer-se na espécie.

Escreveu Reinaldo Ferreira:

“Mínimo sou.
Mas quando ao Nada empresto
A minha elementar realidade
O Nada é só o resto.”

4 – Perguntarão os meus leitores benévolos: mas isto que tem que ver com a realidade portuguesa de hoje?
Que tem que ver com as IPSS?
Pois tem tudo que ver.

 

Henrique Rodrigues (Presidente da Direcção do Centro Social de Ermesinde)

 

Data de introdução: 2016-12-09



















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