JOSÉ FIGUEIREDO

Sobre a Grécia...

Começaria por dizer que faço parte do grupo que rejubilou com a vitória do Syriza na Grécia.
Não porque concorde com o programa político ou económico do Syriza – separa-me deles um mundo de distância.
Na verdade, no entanto, creio que todos os (verdadeiros) democratas têm motivos para júbilo. Vou mencionar apenas duas razões:

  1. A democracia está de saúde e recomenda-se. Foi possível, mesmo debaixo do controlo do espaço mediático pelo poder do dinheiro, mesmo debaixo da chantagem (mais ou menos explícita) dos austerianos (ou nós ou o dilúvio), que o povo grego votasse na esperança e num caminho diverso.

  2. Talvez, finalmente, as cabeças duras que governam a Europa percebam que não se resolve um problema de dívida pública com narrativas morais ou procedimentos de culpa e expiação. Já não se reduz o devedor insolvente à escravatura (foi assim no passado), já ninguém vai preso por dívidas (a não ser que tenham origem criminosa), nem se ocupam militarmente os países incumpridores (ainda era moda no século XIX). É assim senhores, apesar de tudo, a civilização progride.

Mas o meu júbilo acaba aqui porque o Syriza e as cabeças duras que governam a Europa estão a fazer tudo errado.
O erro maior é focar na dívida grega, uns dizendo que não pode ser paga e outros dizendo que é para pagar.
Ao focar num problema que não existe, uns e outros estão a criar um problema político (esse sim, real) que não tem solução.
A dívida pública na Grécia (e em certa medida também em Portugal) é, hoje em dia, uma mera ficção contabilística, um mero registo em papéis e computadores.
No caso da Grécia, em 2015, cerca de 85% da dívida pública será dívida oficial: aos países da UE e às instituições supranacionais da UE, ao BCE e ao FMI.


?Fonte: The Telegraph

O quadro seguinte permite comparar com outros países.

Não conheço ninguém com um mínimo de sensatez que acredite que essa dívida é pagável.

Mesmo assumindo taxas de juro de 2,5% durante um período de 30 anos, seria necessário á Grécia fazer, consistentemente, excedentes orçamentais primários anuais de 4% do PIB para reduzir a dívida para a casa dos 50/60 pontos do PIB. Durante esse período a economia teria de crescer 2% por ano, em termos reais, com inflação de 2%.
Parafraseando alguém, um verdadeiro conto de crianças.
Não acredito que levante um problema político insolúvel manter (ou até deixar subir mais um bocadinho) a dívida grega nos livros da União Europeia. Quem se importa com isso verdadeiramente?
Já dizer que a dívida, cujos credores agora são, de facto, os cidadãos e contribuintes europeus, não é para pagar, é para riscar dos livros pura e simplesmente, pode levantar um problema político insolúvel.
Hoje a Grécia deve mais de 300 biliões de euros. Na zona euro somos 335 milhões de pessoas, gregos incluídos. Isto quer dizer que os gregos devem +/- 1000 euros a cada cidadão da União não grego, crianças, adultos e idosos incluídos; pobres, remediados e ricos incluídos!
Quem vai explicar a uma família média de 4 ou 5 pessoas que tem de perdoar 4 ou 5 mil euros aos gregos?
Dir-me-ão: mas isso é uma forma demagógica de pôr o problema!
Claro que é! Mas é assim que as cabeças duras vão colocar o problema e a narrativa é fácil de vender.
Depois, mesmo do ponto de vista da Grécia, será que a dívida é o maior problema?
Falso, falso e falso! Não é!
Por mais que o Syriza faça da questão da dívida a base da sua legitimação política, isso não é verdade.
A dívida pública grega já tem provavelmente a melhor (mais longa) das maturidades da zona euro.

Portugal e a Irlanda não estão no gráfico mas têm maturidades médias de 11 e 12,5 anos, respectivamente.
Por outro lado, embora a dívida seja enorme, o custo em juros deve estar na casa dos 4,3% do PIB o que implica uma taxa média de juro na casa dos 2,5%. O mesmo ratio (juros/PIB) em Itália é actualmente maior e o de Espanha apenas um pouco mais pequeno.
Se olharmos para o passado verificamos que o peso dos juros da dívida no PIB, quer na Grécia, quer em Portugal, está hoje em valores historicamente baixos.


?Fonte: FMI

É por isso que eu fico sempre nervoso quando os radicais portugueses da esquerda gritam o escândalo de termos hoje uma conta de juros que é maior que a conta da saúde.
Há 20/30 anos era bem pior e ninguém se queixava! O peso dos juros no PIB era tipicamente o dobro do que é hoje.
Eu não estou a dizer que ter uma dívida de 130% do PIB (como acontece em Portugal) não é um problema. Obviamente que é. O que quero dizer é que, quando essa dívida é em grande parte detida por entidades oficiais, em condições excepcionalmente benignas, num ambiente histórico nunca visto de taxas de juro muito baixas, a dívida pública não é, está longe de ser, o nosso maior problema.
Mas como se sai disto?
Tanto quanto consigo ver só existe uma solução: “think flows, not stocks”.
De facto, se nos centrarmos nos stocks (stock de dívida, por exemplo), o problema não tem solução.
Por isso tentemos falar de fluxos - por exemplo o saldo primário do orçamento e o saldo da balança corrente.
A Grécia fez, depois de 6 anos de recessão, em 2013, o primeiro orçamento primário equilibrado e, em 2014, se não houver surpresas, fará um excedente orçamental primário de 1,5% do PIB.


?Fonte: FMI

Entre 2016 e 2020 estão previstos excedentes primários de mais de 4% do PIB, os tais excedentes primários que mesmo com a ajuda do Pai Natal não fariam a dívida pública grega sustentável.
Só que Pai Natal já não existe e esses miríficos excedentes orçamentais implicariam um nível de sacrifícios intoleráveis para os gregos. Sabemos qual o foi o sofrimento para chegar a 1,5% de excedente e podemos imaginar o que significaria saltar para excedentes de 4/4,5 % do PIB numa economia que praticamente não cresce e onde o PIB nominal, graças à deflação (quase -2% na Grécia), continua a cair. Impossível, simplesmente!
Por isso penso que solução é fixar metas razoáveis nos fluxos, ou seja, excedentes primários mais ou menos onde estão e esperar melhor fortuna. Os livros e os computadores, esses, por enquanto, ainda não têm estados de alma e aguentam com tudo.
Acontece que na Grécia, como em Portugal, a balança externa vai estando equilibrada.


Fonte: FMI

Senhores de um lado e do outro: por favor um pouco de sensatez, está bem?!
Aprendam com os génios. John Cleese dos Monty Python, quando geria a estalagem de “Faulty Towers”, sabia muito bem, quando recebia hóspedes alemães, que o lema era: “Do Not Mention The War”.

https://www.youtube.com/watch?v=yfl6Lu3xQW0&x-yt-ts=1422579428&x-yt-cl=85114404&feature=player_detailpage

Se John Cleese fosse hoje o dono de um hotel nalguma ilha grega e recebesse clientes alemães saberia que o lema seria: “Do Not Mention The Debt”.

É assim: há problemas que só existem quando se fala deles! Xiu!

José Figueiredo

 

Data de introdução: 2015-02-03



















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