PADRE LINO MAIA, CANDIDATO À PRESIDÊNCIA DA CNIS

Não me considero um vencedor considero-me um servidor

Ao contrário do que tinha dito há três anos, afinal é candidato a mais um mandato. O que é que mudou?
Fundamentalmente porque era importante que houvesse corporização de uma liderança que consagrasse definitivamente a comunhão que parece existir agora dentro da CNIS. No passado os momentos eleitorais foram difíceis porque houve sempre duas candidaturas. Havia alguma cisão Norte-Sul, Porto-Lisboa e transparecia a imagem de uma CNIS beligerante. Desta vez, por iniciativa da União de Lisboa, começou a perceber-se que era importante, neste período complicado, que houvesse uma só candidatura. Fizeram-me perceber que talvez com a corporização, por mim, da liderança de comunhão conseguir-se-ia dar uma imagem de unidade, de consenso. Foi sobretudo isso que me fez recuar. Quando há três anos disse que seria o último mandato estava absolutamente decidido. E já nessa altura foi com alguma dificuldade que aceitei mais um mandato. Agora é um serviço à comunhão. É esse o lema. Não era bom para ninguém, quando este setor está credível, firmado, quando tem uma expresão e uma visibilidade que representam a realidade das instituições, do que muita gente por esse país faz, que nesta fase houvesse disputas. Mudei, de facto, mas, por serviço à comunhão, estou disponível.

Pode ser visto como mais um feito que conseguiu. Teve sempre oposição, desta vez haverá apenas uma lista. Pode-lhe ser atribuído esse mérito?
Não considero. Sou sempre muito crítico em relação àquilo que faço e à forma como estou. Eu autopenitencio-me muitas vezes. Não gosto de bater com a minha mão no peito dos outros. Bato no meu. Sofri nas disputas porque das três vezes na outra lista estava um colega e podia parecer uma disputa entre padres. Isso fazia-me sofrer. Os padres normalmente são vistos como os promotores da comunhão. Não me agradou. Vendo o reverso da medalha é também positivo haver mais do que uma proposta. O consenso exagerado pode favorecer o imobilismo, a paragem. Se este setor conseguiu coisas muito vantajosas foi porque houve diferença, mas sobretudo porque as instituições de solidariedade por este país fora se foram afirmando, aceitando a liderança, mas afirmando-se de uma maneira positiva, enfrentando a crise, superando as dificuldades. No fundo, foram as instituições e os seus dirigentes que se afirmaram. A CNIS cumpriu a função para que foi eleita. Não foi para reinar foi para servir e foi o que fizemos, o melhor possível. Não considero um sucesso pessoal, de modo nenhum. Não me considero um vencedor considero-me um servidor.

O fim dessas divergências significa que Lisboa também vai participar nos orgãos sociais da CNIS?
Tem que participar. A CNIS não é Porto, Lisboa ou Algarve. A CNIS são as insituições de solidariedade. São 2.800 dispersas por todo o país desde a aldeia mas recôndita do distrito de Bragança até à mais ocidental da Ilha das Flores. De facto, parecia que havia uma divisão entre Porto e Lisboa. A vários níveis, uma natural, não louvável, concentração de serviços e centros de decisão em Lisboa, porque é lá que está o poder. Lisboa é o distrito com mais instituições, tem mais que o Porto, a sede da CNIS está no Porto, foi aqui que, há uns anos, houve um movimento para criar a União das IPSS, adquiriu-se na altura um espaço para a sede. Noto que as instituições são plurais. Há, entre nós, visões diferentes sobre o que deve ser uma IPSS. Particularmente nas instituições ligadas à Igreja, há muitas diferenças. Havia uma disputa entre as duas grandes cidades, era a capital e o resto do país, e eram estas diferenças instrínsecas. Devo dizer que a existência de uma lista de comunhão foi iniciativa de Lisboa. Eu não dei um único passo. Lisboa liderou o processo de uma maneira muita positiva. O melhor serviço que podemos prestar às instituições neste momento é um serviço de comunhão e unidade. Há muitas frentes para combater e não devemos perder tempo em querelas pessoais e ânsias de protagonismo porque não é isso que nos caracteriza.

Era difícil resistir a tantos apelos para que se recandidatasse. De dentro e de fora. Nestes últimos tempos foram vários os pedidos, de todo o lado...
Não vou dizer que estou desagradado por haver este desafio. Passe a lisonja, é o reconhecimento de algum esforço que foi desenvolvido. Mas eu não me fiz esse reconhecimento. Eu vejo apenas a postura de serviço não de trono. Quem está na CNIS, e todos os dirigentes, todos os 17 elementos dos orgãos sociais, tem esta atitude. E não são só estes. O geral das dirigentes das IPSS têm essa maneira de ser. Eu via no desafio que me era feito para que continuasse a servir um sinal que se dá ao país. Quem está nas lideranças, nos centros de decisão, não deve ver nesses espaços um trono para reinar mas uma oportunidade de servir. Isto também é um cargo político. E eu sempre vi na política uma ciência nobre de serviço à causa comum. Era o que queria para o país. Nas IPSS isso está presente. Muito gostaria que Portugal fizesse o mesmo.

Esse consenso à volta da sua recandidatura leva-me a perguntar-lhe a fórmula de sucesso para agradar a gregos e a troianos...
O meu pai dizia lá em casa muitas vezes que havia uma vez na vida em que se era bonito e outra em que se era bom: Bonito quando se nasce e bom quando se morre. Eu perante esses sinais perguntava-me frequentemente: Estarei vivo ou estarei morto? É que só à beira da tumba é que se diz bem do defunto. Eu não sou melhor nem pior que ninguém. Tenho um ideário e uma maneira de estar e para mim faz sentido a postura de serviço. Provavelmente foi por isso que favoreceu esse consenso.

E que se estendeu à CNIS...
Foram dados passos muito importantes nestes últimos anos. No reconhecimento, na afirmação, até na regulamentação, no enquadramento legal, na cooperação... foram dados passos significativos. Este setor não é visto como daqueles que nada têm que fazer e têm que se entreter. Nunca foi isso. Hoje é o que sempre foi, mas com mais credibilidade e mais afirmação. O que ajudou foi esta postura da CNIS. Nós, na direção da CNIS, não defendíamos nada para nós próprios. Não estávamos à procura de ascenção no poder. Somente à procura do que era melhor para o povo português. Nas negociações deste Compromisso para a Cooperação, que recentemente foi assinado, eu percebia claramente que os interlocutores entenderam que nós não estávamos a defender, muitas vezes, aquilo que julgávamos melhor para a CNIS, mas aquilo que julgávamos melhor para o povo. Quando adotamos esse critério não há barreiras inultrapassáveis, os consensos são fáceis.

Vai fazer alterações na sua equipa?
Eu nestes três mandatos tive sempre equipas fabulosas. No fim dos mandatos para além de dirigentes eu tinha amigos. Não houve cisões entre nós. É muito difícil para mim renovar uma equipa. Mas são sempre necessárias alterações. E agora mais do que nunca. Nos orgãos sociais cessantes havia mais dirigentes de Lisboa do que dos outros distritos. Agora eu quero mostrar claramente que a CNIS não é só Porto, Lisboa, Norte, Sul... A CNIS é o país. É preciso que a próxima equipa mostre essa universalidade ou, usando um termo que como padre gosto de referir, essa catolicidade, essa abertura a todos.

Em jeito de balanço, o que sublinharia nestes últimos três anos de mandato?
Por mérito das próprias instituições e não da direcção da CNIS, ninguém acredita que a troika tenha ido embora sem que uma única IPSS tivesse fechado portas, sem atirar ninguém para o desemprego. Foram mais pessoas a bater à porta das instituições que com menos recursos e mais inicitivas foram resolvendo os problemas. Esse é o grande feito deste mandato. As IPSS mostraram uma resiliência que merecia ser estudada. Foi o único setor em que não diminuiu o emprego, até aumentou; não diminuiram os serviços, até aumentaram; diminuiram os recursos, mas respondeu-se a mais gente, gente mais pobre, com menos meios. Foi o grande sucesso de todas as instituições. Esforço da direcção da CNIS foi o facto de ter sido o único setor em que não houve cortes nos apoios públicos. Não acompanharam as necessidades, a inflação, mas não houve cortes. O mérito foi da direção que conseguiu demonstrar, apesar das dificuldades, que o setor não podia sofrer cortes. Foi preciso uma grande capacidade de persuasão para convencer o governo a convencer a troika. Merecia também ser estudado este país, único, em que a sociedade se organiza para responder às situações sem esperar a iniciatva do Estado ou uma qualquer providência. Outra conquista é o facto de estarmos agora do dealbar de um novo paradigma de cooperação. A CNIS e as IPSS têm respostas em várias áreas: saúde, educação, desenvolvimento local e proteção social, onde tinham a grande visibilidade. São respostas complementares. Termos conseguido um compromisso com os três ministérios, Saúde, Educação e Segurança Social e Emprego é um grande passo. No futuro, espero que no governo haja uma melhor coordenação entre os ministérios dos assuntos sociais. Para a cooperação percebeu-se que era importante que os ministérios se unissem para que ao povo português fossem dadas mais respostas coordenadas. Julgo que foi o grande passo.

Chamou-lhe histórico...
É sem dúvida um momento histórico. E ao mesmo tempo um ponto de chegada e de partida. Pelo caminho feito chegou-se à conclusão que era necessário juntar os vários ministérios. São perspectivas de futuro. Com a Segurança Social havia uma relação forte. Mas com a Saúde e a Educação era difícil. Não havia um documento que nos obrigasse a trabalhar em conjunto. Agora existe. Pode ser melhorado. O próximo passo, na minha opinião, é a criação de uma nova Lei de Bases para a Cooperação. As instituições de solidariedade prestam serviço público. Implementam e tornam possíveis direitos sociais. O que produzem são bens imateriais e públicos. Tem que haver uma lei de Bases para a Cooperação que de uma vez por todas diga isto. O Estado não tem que ser quem tudo faz, deve asssegurar que se faça. Deve definir balizas, apontar caminhos e dispôr dos meios oriundos dos impostos. O Estado tem que fazer fazer. E se já há quem se organize para fazer, na proximidade, segundo o tal princípio da subsidiariedade que está aqui bem presente, o Estado deve reconhecer, apoiar, regular e suprir quando não há quem faça. Esta Lei de Bases era importante também para que estas instituições que produzem bens públicos, imateriais, deixem de estar sujeitas a um regime fiscal como se fossem entidades lucrativas, empresariais e concorrenciais. Essa Lei de Bases já está apontada neste compromisso que assinámos, mas é o próximo objetivo a alcançar. Julgo que no primeiro semestre do próximo ano é possível termos pelo menos um esboço dessa Lei de Bases.

Não referiu a alteração do Estatuto das IPSS, o célebre 119/83, operada recentemente...
No fundo não é uma mudança qualitativa. Foi um aperfeiçoamento de um documento legal muito importante, mas uma adaptação ao momento. Não é ponto de chegada nem ponto de partida. É um processo que vai continuar. A CNIS, bem como muitas outras organizações, deu um contributo importante. Foi uma atualização. Nós, daqui a cinco anos, vamos dizer que é preciso alterar novamente. No dia em que foi publicado começou o processo da sua revisão. Não há grandes mudanças.

Uma dessas alterações é o facto de ter que fazer agora não três mas quatro anos de mandato. Já fez o ajuste estratégico necessário?
A mudança de três para quatro anos era necessária porque neste setor por vezes é difícil arranjar dirigentes com disponibilidade. Dá mais estabilidade. No que me diz respeito, não tenho que fazer ajustes estratégicos porque, muito francamente, já estou nisto há muito tempo. Conheço o setor, com as equipas fabulosas que temos tido é possível fazer caminho com segurança. É uma continuidade.

Este ano haverá eleições legislativas. A mudança de governo não vai provocar perturbações àquilo que é o papel da CNIS?
Sempre nos temos dado bem com todos os governos. Nós não representamos nem o poder, nem a oposição, nem a posição. Representamos o setor solidário que deve adotar sempre o diálogo e o respeito com quem está no governo. A nossa postura é sempre de serviço. E acreditamos que quem está no poder também tem essa atitude. Para mim é-me indiferente quem é o poder, mas é muito importante que adote uma postura de serviço.

V.M.Pinto – Texto e fotos  

 

Data de introdução: 2015-01-08



















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