EDUCAÇÃO DE INFÂNCIA NO MASCULINO

Ainda há desconfianças a ultrapassar

Há poucas semanas, um representante da comunidade cigana, a propósito da nova lei que proíbe os casamentos forçados, argumentava, de forma depreciativa, aos microfones de uma rádio nacional em seu desfavor algo como: “Pois é, e hoje o que vemos por aí são elas a conduzir os automóveis e eles a empurrar os carrinhos de bebé”!
Apesar de extraído da realidade, este episódio ilustra bem uma forma de pensamento que até há bem pouco tempo era a dominante. As tarefas das mulheres e as responsabilidades dos homens…
Não muito longe vão os tempos em que na sociedade portuguesa era impensável um homem mudar a fralda aos filhos. Sempre os terá havido ao longo dos tempos, mas coisa muita rara, que o passar dos anos, das décadas e dos séculos tem alterado e, hoje, apesar de muitos ainda haver que não o fazem, as coisas mudaram e, agora, são esses que correm à margem da tendência dominante na nossa sociedade.
Serve isto para introduzir o tema da Educação de Infância no Masculino, com a ressalva de que a Educação de Infância não é apenas mudar fraldas. Educação de Infância é isso mesmo, educar crianças, neste caso, com idades de creche e pré-escolar.
De facto, em família o homem já participa muito mais, (quase) equiparando-se à mulher, exceção feita àquelas situações em que o homem é, fisiologicamente, incapaz. E no que toca à educação da prole, o homem de hoje empenha-se e participa ativamente.
E não é apenas em casa que a relação educativa dos mais pequenos com os progenitores tem vindo a alterar-se. Apesar de ser um universo esmagadoramente feminino, os educadores de infância estão espalhados um pouco por todas as instituições, seja no Setor Solidário, no Público ou no Privado.
Os testemunhos ficam para mais à frente, pois para já comecemos pelos números divulgados pela DGEEC (Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência), na publicação «Perfil do Docente 2012/2013», que nos dizem que apenas 1,1% dos docentes na Educação Pré-escolar eram homens no ano letivo de 2012/2013. De um universo total de 15.430 educadores de infância, apenas 163 eram do sexo masculino.
Ainda segundo o mesmo documento, no Norte do País, de um total de 5.605 educadores de infância apenas 48 (0,9%) eram homens, na Região Centro eram 35 (1%), em Lisboa encontra-se o maior número, 67 (1,5%), no Alentejo apenas seis (0,5%), enquanto no Algarve eram sete (1,1%).
Números de 2014, apenas os inscritos na Associação de Profissionais de Educação de Infância (APEI), que num universo de 2.481 associados apenas 11 são homens. Portanto, em linha com o cenário nacional.
«Esta ausência de homens nos serviços para a infância é normalmente atribuída a fatores de ordem sociocultural aparentemente difíceis de ultrapassar. Contudo, ultimamente as referências à necessidade da presença masculina nas creches e jardins de infância têm aumentado substancialmente. Pensa-se que a sua presença, para além de proporcionar um modelo masculino às crianças, ajudaria a erradicar uma visão antiga dos serviços para a infância como substituição dos cuidados da mãe (…)», escreveu Lúcia Santos, presidente da APEI, na edição janeiro/abril de 2014 dos Cadernos da Educação de Infância.
De facto, a questão cultural é o primeiro e grande obstáculo a uma maior adesão dos homens à profissão, sendo que as características maternais ainda imperam.
Disso mesmo deram conta os educadores de infância que conversaram com o SOLIDARIEDADE. A desconfiança inicial dos pais é, sem dúvida, um fator apontado por todos como uma nuvem negra sobre o seu trabalho, mas todos concordam que é sempre desvanecida, mais cedo ou mais tarde. Segredo: conquistar primeiro as crianças que os pais logo se rendem.
Filipe Simões, 38 anos, educador de infância na Associação Creche de Braga, sublinha precisamente isso, recordando que, quando foi apresentado pela primeira vez a dois pais cujos filhos no ano letivo seguinte iriam ser seus educandos, a desconfiança pairou no ar: “Senti que a receção não foi a melhor, mas hoje sou grande amigo de um desses pais e damos passeios de bicicleta e jogamos à bola”.
Por seu turno, José Pedro Gonçalves, 25 anos, docente no Colégio Espinheira Rio, no Porto, conta um episódio, no mínimo, caricato, da desconfiança que a sua profissão ainda gera, especialmente, junto dos pais.
“Numa reunião individual, de receção a uma criança, e após cerca de 20 minutos a falar de como iria desenvolver-se a prática pedagógica, em que referi várias vezes que iria ser o educador responsável, o encarregado de educação da criança pergunta-me: “Mas é o Zé que vai ficar com eles na sala? É educador de infância? Vai ter paciência para as crianças?”, conta, explicando ter ficado com “a nítida sensação que a pessoa ficou admirada e sempre desconfiada, mas com o passar dos tempos foi percebendo que os homens também podem ser educadores”.
Educador de infância no Centro Social de Chaves, Nuno Gonçalves, 33 anos e há nove anos a exercer, confirma igualmente esta ideia: “Os pais quando chegam pela primeira vez ainda se notam alguns olhares incrédulos e de estranheza por estar um homem no lugar onde era suposto estar uma mulher. Penso que, para eles, o primeiro contato é alarmante, ficam apreensivos, desconfiados, preocupados. Com o passar do tempo confiam e percebem qual é o meu papel e a importância de trabalharmos em conjunto para promovermos o desenvolvimento dos filhos”.
Há 15 anos a exercer a profissão, Luís Miguel Pereira, 42 anos e educador na Obra Social do Sagrado Coração de Maria (OSSCM), em Guimarães, reforça a ideia de que “ainda existem grandes preconceitos em relação a esta profissão”, o que tem consequências: “Pelo facto de sermos homens, percebermos que estamos constantemente a ser avaliados pelas famílias”.
Rui Passos, de 27 anos, e há três colega de Luís Miguel Pereira na OSSCM, considera compreensível determinadas reações, exemplificando com a sua experiência: “É compreensível que pensem assim e recordo quando estava a terminar o curso, em 2004, no auge de se falar da pedofilia, Casas Pias, etc., e como estava a estagiar ainda foi mais difícil, porque não tinha tempo para dar provas de ser tão capaz como as mulheres”.
O fantasma da pedofilia é também uma outra nuvem que ensombra o desempenho destes homens, como recorda Filipe Simões, dos tempos em que entrou no mercado de trabalho: “Quando comecei estava-se no auge do caso de pedofilia do padre Frederico, na Madeira, o que não ajudou nada”.
E se a reação dos pais é de desconfiança, com as crianças as coisas são mais tranquilas. Todos reconhecem haver uma certa surpresa inicial, mas que rapidamente desaparece.
“Lembro-me do meu primeiro dia na creche, sala de 2 anos, em que as crianças ao princípio não sabiam como chamar-me e ficavam admiradas por eu saber contar histórias, fazer teatros, cantar, dançar, serená-las ou ser um refúgio seguro… Rapidamente me aceitaram”, conta o educador de Chaves.
Sendo tão poucos, habitualmente um por instituição – Luís Miguel Pereira e Rui Passos são, por certo uma exceção numa instituição que demonstra grande abertura neste capítulo [ver caixa] –, trabalhar entre mulheres é uma experiência agridoce, a avaliar pelos testemunhos.
“É uma das partes difíceis de ser educador. Por vezes não é fácil... Primeiro porque em situações que se resolveriam de forma pragmática, as mulheres têm o «dom» de complicar”, sustenta José Pedro Gonçalves, que considera, no entanto, que “apesar de algumas desvantagens, é uma experiência positiva”.
Apesar de tudo, a maioria diz sentir-se mimada pelas educadoras e demais staff dos jardins de infância, também ele maioritariamente feminino.
Como refere Rui Passos, “muitas mulheres juntas, já se sabe, nunca dá muito bom resultado”. Por outro lado, esse cenário acaba por colocar “mais olhos em cima dos educadores homens”.
Porém, essa presença masculina num meio esmagadoramente feminino é, no entender de Luís Miguel Pereira, uma mais-valia para as crianças.
“Acho importante não ser uma área exclusiva das mulheres, porque uma criança tem um pai e uma mãe e nas salas de infância as crianças deviam poder ter o modelo masculino e o modelo feminino”, sustenta.
E o que pode um homem emprestar de diferente à educação de infância? “Talvez a grande diferença seja a descontração e o pragmatismo”, defende José Pedro Gonçalves, enquanto Filipe Simões vinca essa diferença: “É diferente a maneira de ver a infância. Somos mais descontraídos”.
Sublinhando a ideia de que a presença masculina é uma mais-valia para a criança, Luís Miguel Pereira considera que a diferença reside no “espírito aventureiro, que é mais do homem, do envolvimento na loucura das crianças e brincar com isso”, enquanto Rui Passos, por seu turno, vai mais longe na análise: “Para estar aqui, um homem tem que gostar muito e esse gosto leva a uma motivação extra. Não é fácil estar oito horas com um grupo de crianças!”.
Apontado por todos é também o facto de o trabalho desenvolvido pelos educadores de infância homens ser invariavelmente menosprezado. Nuno Gonçalves conta um episódio curioso, mas elucidativo do olhar que ainda existe sobre a Educação de Infância no Masculino entre nós: “Uma menina que chegou este ano ao grupo de 24 crianças de 5 anos, no momento em que estamos a conhecer-nos, diz-me: «Sabes, a minha Mãe trabalha na loja e o meu Pai ajuda a Mãe… E tu também tens que ir trabalhar? Não podes ficar sempre aqui a brincar com os meninos»”.

AUXILIARES DE AÇÃO EDUCATIVA

Se os educadores de infância são uma espécie rara nos jardins de infância, o que dizer dos auxiliares de ação educativa! É senso comum que não há homens a desempenhar essa função, mas a verdade é que também existem e o SOLIDARIEDADE encontrou dois na Obra Social do Sagrado Coração de Maria, em Guimarães.
Se Agostinho Faria, de 46 anos, encontrou a sua vocação nas funções que desempenha há já 14 anos, por seu turno, o jovem João Ribeiro, de 21 anos, ainda a procura. A caminho de completar um ano nesta nova profissão, o mais jovem diz-se satisfeito e afirma: “Não vejo grandes problemas em fazer carreira nisto”.
Ambos tiveram experiências profissionais em unidades fabris, mas por razões diferentes optaram por seguir outro caminho e, perante a oportunidade, não hesitaram em experimentar umas funções que habitualmente são entregues às mulheres.
A reação da equipa de colaboradoras é natural, até porque na instituição onde os dois trabalham há também dois educadores de infância, o que faz com que a OSSCM seja, por certo, uma das instituições com mais elevado rácio homens/mulheres dos infantários nacionais.
Quem está de fora olha a profissão como uma brincadeira. “Isso não é trabalho, é um emprego. Que trabalhinho fixe, não deves fazer nada”, dizem-lhes os amigos, enquanto Agostinho Faria assegura, por outro lado, nunca ter tido qualquer problema com os pais, apesar de inicialmente ter ficado receoso.
Para Agostinho Faria, “a maior dificuldade é quando as crianças estão doentes ou se magoam”, enquanto para João Ribeiro “é a teimosia daquelas crianças que em casa estão habituadas a fazer o que querem e depois não aceitam bem as regras”.
Isto leva Agostinho Faria a sublinhar que, “por vezes, também é preciso educar os pais”.
Em início de carreira, João Ribeiro ainda não passou pela creche, mas destemido diz, sorrindo: “Mudar fraldas vai ser um desafio”!

Pedro Vasco Oliveira (texto e fotos)

 

Data de introdução: 2014-11-06



















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